11.28.2005

O vizinho

Quero falar de um homem, que é o meu vizinho. Talvez, com quase absoluta certeza, o meu cachorro Negão seja mais indicado para falar dele porque foi ele, o cão, que chegou perto, cheirou e ofereceu a cabeça para que a mão do homem tocasse e acarinhasse. Eu, não. Eu fiquei apenas com a parte que nos toca, que são as palavras.

O meu vizinho usa, sempre, bermuda e camiseta de aposentado. Tem cabelos grisalhos. E os olhos baixos, como quem olha para a terra e nunca para as pessoas. A primeira vez que nos vimos era de manhã muito cedo, quando o sol ainda é úmido e doce e se espalha sobre a grama como se pudesse gotejar.

Ele estava lá, em pé, em silêncio. Passei perto, não disse nada. Ele não deve ter me visto. Olhava para o chão e para a grama radiante com o sol dos primeiros minutos do dia, que são sempre calmos e serenos. Talvez seja mesmo verdade que ninguém sofre entre as cinco e meia e as seis horas da manhã.

Dias depois, conversamos. A conversa, na verdade, começou entre o meu vizinho e o Negão, que se aproximou para cheirar o ponto do chão para onde ele olhava de maneira persistente e fixa. Ele, o vizinho, sorriu. Negão se aproximou e cheirou as pernas, as mãos, a barriga. Aí, ficou sentado e recebeu carinhos na cabeça.

Nós dois fizemos a nossa parte:

-Bom dia.

-Bom dia.

Um ano antes, eram três da madrugada quando bateram na porta da casa dele para avisar que o carro do filho único, de 24 anos, tinha se espatifado contra uma árvore. O corpo esperava para ser enterrado.

Ele me contou isso como se já não fosse nada de mais. O filho único estava morto. Até mesmo olhei para os olhos deles para ver se algum sinal, alguma dor, lástima, pena, dó, saltava das pupilas. Tudo estava intacto.

Cinco meses depois, a mulher dele, por não agüentar a certeza da morte do filho, decidiu tomar o mesmo rumo. Deixou o coração se arrebentar e foi embora. O vizinho então ficou no apartamento igual ao meu: três quarto, mais um para a empregada, dois banheiros, sala, cozinha e área de serviço.

Mas na cozinha e na área de serviço, e também no corredor que leva para os quartos, as paredes estavam furadas por pregos onde ele pendurava as gaiolas dos passarinhos. De tamanhos, cores e penas variadas.

Era lá, no apartamento, que o homem sozinho, sem mulher e sem filho, convivia com uma multidão que cantava, batia as asas, pulava de poleiro em poleiro e, mais que tudo, mais que nunca, mantinha viva a vida. Porque a vida é como os olhos: coisa pequena, delicada, apenas uma película muito frágil, e que, ao mesmo tempo, é capaz de abarcar o mundo inteiro.

Era isso que ele entendia quando estava acompanhado dos seus passarinhos espalhados pelo apartamento vazio. Até o dia em que ele colocou ovos numa panela com água no fogo para, depois, alimentar os amigos.

E, aí, procurou o sofá para se sentar. Sentado, pensou na mulher, no filho, era fim da madrugada, não tinha barulho que viesse de fora, e ele dormiu sentado. Quando acordou, uma fumaça densa saía da panela deixada em cima do fogão. A água tinha fervido e secado. Os ovos estavam pretos, queimados e grudados no fundo da panela.

Ele tossiu quando entrou na cozinha. E nas paredes, em todas as paredes da casa onde tinha gaiolas penduradas, estavam os corpos dos passarinhos sufocados.

-Eu abri as gaiolas, uma por uma. Peguei os passarinhos, um por um. Coloquei em cima da mesa, um corpo ao lado do outro. Ao lado deles, minha mulher e meu filho. Era como se eles dois estivessem ali também.

Ele desceu as escadas do prédio, o mesmo prédio em que eu moro, e foi até a grama, que ainda estava escura no fim da madrugada. Com uma colher, abriu pequenos buracos e enterrou todos, um por um. Até que, finalmente, conseguiu também enterrar, de uma maneira pessoal e particular, a mulher e o filho.

O Negão cheirou a mão dele, sem tocar o focinho. Ele acariciou o cachorro, outra vez. Nós, de novo, fizemos a nossa parte:

-Deve ser difícil para você.

-A gente se acostuma. E vai levando a vida.

Olhei para o Negão, calmo e firme como um anjo, sentado sobre a terra do pequeno cemitério do meu vizinho.

11.24.2005

Uma coisa que aprendi com ele




O meu cachorro Negão, que, quando não está encardido, é todo branco, e mede 1,75m em pé, o que basta para que passe a língua na ponta do meu nariz sem grandes esforços, tem alguns medos. E é incapaz de negociar, já que faz questão de deixar bem claro que medo é medo, e que ser adulto não significa desmerecer o que grudou à personalidade desde os primeiros meses de vida.

Ele tem medo de cachorro pequeno, destes bem miudinhos, que levam a vida como bibelô. Quando eles latem irritantemente fino, várias vezes, o meu Negão recolhe as orelhas, guarda o rabo e se esconde, inteiro, atrás das minhas pernas. Talvez por tique nervoso, lambe o próprio focinho várias vezes, o que serve para mostrar a angústia que está sentindo no momento do cruel ataque do cachorrinho, que costuma vir com laços nas orelhas ou no alto da cabeça.

Tem medo, ou seria melhor dizer pânico, do barulho dos plásticos ao vento. E nisso é irredutível: não entra em carro que tenha, solto no banco traseiro ou dianteiro, alguma sacola de supermercado, não anda do lado do meu corpo onde estiver a mão que carrega compras de padaria e mercearia e, principalmente, se arrepia até os confins do rabo quando vê imensos sacos de lixo deixados na calçada à espera do caminhão de lixo.

Também se assusta com pessoas, qualquer uma, que se aproximar com alguma coisa, qualquer coisa, na cabeça. Pode ser chapéu, boné, filho novinho levado no cangote do pai, vendedor ambulante que carregue espelhos, cestos de vime, trouxas de artesanato.

Estes medos são coisas dele e eu respeito. Também respeito os faniquitos dos amigos humanos quando gritam diante de baratas ou ratos, que, a bem da verdade, são bichos que não me provocam nada – nem asco. Compreendo (sem esconder um certo risinho, é bom que se saiba) quem tem pavor a túneis, barcos em mar aberto, trovões e relâmpagos, assim como espero que compreendam o pânico primordial que se instala no meu corpo quando tenho que me sentar numa poltrona que, depois, levanta vôo e cruza os oceanos.

Mas, às vezes, acontece que o meu Negão não mostra medo. Mostra, pelo contrário, desagrado e certa revolta. Sei disso porque os pêlos da nuca se arrepiam, ele dá dois passos para trás e se coloca em posição de ataque. Já tentei convencer o meu cachorro de que não gostar de uma ou outra pessoa é contingência da vida em sociedade, mas que, por isso mesmo, é preciso uma certa diplomacia e um bom fingimento sobre estar tudo bem. Ele discorda. É sincero e espontâneo demais.

Na padaria onde gosto de tomar o café da manhã nos domingos, depois de uma longa caminhada a dois, veio, uma vez, uma moça loira fazer afagos no Negão. Chamego é coisa que ele nunca recusa, mas, desta vez, notei, logo na primeira aproximação, que os arrepios do pêlo da nuca tinham começado.

A moça bonita e loira falou:

-Mas que cachorro bonitão, meu Deus do céu.

Que ele é bonito, eu sei. Todo mundo sabe e quem não percebe isso é insensível e insensato. Ou incapaz de se enternecer com as belezas que a vida oferece. Pelo tom de voz da moça bonita, vi que era um travesti: uma voz que nasceu para ser rouca e que, a custa de alguma esforço, se afinou com falsidade e, por isso, ficou mais bamba na boca do que dentadura de dentista ruim.

Ele latiu. Achei estranha a reação porque, com toda a sinceridade, não criei um cachorro para ter rejeição à vida íntima das pessoas. A moça ainda insistiu um pouco e quis se aproximar mais. O meu Negão se levantou, mostrou que era alto, e latiu de jeito bem grosso, que é um latido que ele reserva para situações extremas.

A moça então, com um sorriso gentil, doce e compreensivo, me contou:

-Não é culpa dele, sabe? É que sou alcoólatra.

E me olhou. Eu olhei também e alguma coisa, tão frágil e imperceptível quanto o sereno do começo das noites, me convenceu que ela, apesar de bonita, já tinha se acostumado a ser evitada e pouco amada. A moça, então, ficou parada ali, em pé, na frente do Negão. Tudo nela queria fazer carinho nele e tudo nele queria evitar o que devia tresandar a bebidas. Ela pedia carinho, de quem fosse: meu, do meu cachorro, das outras pessoas na padaria. Sabia sorrir, mas era sorriso vazio, solitário, perdido.

Acariciei a nuca do meu Negão. Ele se acalmou. Pouco a pouco a moça bonita chegou mais perto. O meu cachorro ainda relutou um pouco, mudou de posição algumas vezes, lambeu o focinho, que é coisa que faz quando está ansioso. Mas, depois, de mansinho, deixou que a mão dela tocasse o pêlo branco dele.

E foi bem ali, naquele momento quase banal em varanda de padaria, que compreendi mais ainda o que tenho tentado compreender há anos. Que é também com a sinceridade das nossas próprias mazelas, amarguras, infelicidades, azares, que a gente ganha e merece afeto, carinho e doçura.

Ele não desejou nem quis que ela deixasse de ter o cheiro das bebidas. Fechou os olhos cor de mel e aceitou o afago. Esta capacidade de ser bom e de amar a pessoa exatamente como ela se apresenta é o que estou aprendendo com o meu Negão.

11.17.2005

Os dois filhos de Shantung

Vítor Emanuel era mais velho que Miguel, mas eram, os dois, filhos de Shantung, a gata que se recusou a morar em Brasília e se mudou para a Vila Mateus, a casa da roça, com varanda, janelas azuis e parede branca e plantas e flores que nunca freqüentaram xaxins ou vasos de cerâmica. Desde que nasceram, viveram sempre em latas de óleo furadas no fundo a golpes de prego.

Vítor Emanuel era magrelo, com olhos enormes, todo preto. Apenas uma marca branca no pescoço, debaixo do queixo, parecia ser uma gravata borboleta. Por isso, por essa elegância de berço, recebeu nome pomposo, que ele sempre recusou, por ser do campo – sendo, desta forma, conhecido como Flecha. Mas era Vítor Emanuel. Pelo mesmo para mim.

E era Flecha por causa da extrema velocidade, em qualquer situação. Para correr atrás de fêmeas, para afugentar machos, para se recolher diante de qualquer ameaça de afago que era, das atividades humanas, a que ele mais detestava e evitava. Somente a mãe, a pequena Shantung, tinha autoridade sobre ele, inclusive para dar lambidas amorosas e patadas violentas.

Miguel era o contrário: gordo, muito gordo, todo branco, com um traço preto entre os olhos, como se fosse uma pincelada fortuita da Tomie Otaki. Por isso, não era bem um gato. Era uma instalação artística. Além disso, era a felicidade com formas de felino.

Tudo nele era feliz. O meneio do rabo, os movimentos precisos das orelhas, o olhar esperto, a gordura excessiva, a brancura do pêlo e o miado sedutor. Além disso, de uma maneira muito peculiar, Miguel tinha nascido para ser rico e viver no luxo, para dormir em almofadas de seda oriental, para beber água mineral francesa e comer filé minhom.

Quando a mãe morreu, Miguel subiu no galho mais alto da árvore mais alta do quintal da Vila Mateus e ficou lá um dia inteiro. Queria, a seu modo, evitar a visão da tristeza que foi enterrar a dona da casa. Ele tinha a obrigação de ser feliz. Tinha sido gerado para isso, Miguel sabia.

Vítor Emanuel, que nunca entrava na casa, que nunca relaxava nem mesmo quando se deitava ao sol no muro baixo da varanda, que não consentia aproximações humanas, ficou subitamente imóvel diante do corpo de Shantung. Depois, passo a passo, como se pisasse em veludo precioso, chegou perto e cheirou, como se não quisesse tocar, todo o corpo da mãe. Depois, cheirou também demoradamente o ar, olhou, pela primeira vez, para cada uma das pessoas que se reuniam em volta do corpo, deu um pulo grande, forte, até o alto do portão da cerca e observou a paisagem goiana.

De lá, foi embora depois de se despedir apenas da mãe, e de mais ninguém. Sem olhar para trás, sem se importar com os três anos de vida vivida ali na casa branca de janelas azuis, desapareceu para sempre. Eu ainda esperei Vitor Emanuel, o grande Flecha, por alguns dias. Ainda coloquei água e comida para ele, no mesmo canto da varanda, mas, pouco a pouco, compreendi que era ela, a gata bonita, a única razão para ele conviver entre pessoas. E se ela tinha ido embora, era chegado o momento, para ele, de fazer a mesma coisa.

Miguel, não. Dias depois da morte da mãe, virou adulto. Perdeu alguns quilos, resolveu ser esbelto, e ganhou um interesse vivo, acentuado, premente, por todas as gatas da vizinhança. E cada uma delas, grávida, ia morar no quintal da Vila Mateus. Às vezes, a ninhadas nascia debaixo do pé de lima. Outra vezes, dentro do galinheiro velho. Ou entre os pés de mandioca. Do muro da varanda, Miguel observava, com um certo ar de maturidade, os novos filhos que, com pernas ainda bambas, se aventuravam na grande e inesquecível experiência de conhecer o mundo.

Miguel tornou-se um grande amigo meu. O sorriso dele, permanente, escorria na minha alma com uma gentileza e uma doçura que se imprimiram nas fibras do coração para sempre. Quando subia no meu peito, dobrava as pernas e se tornava um novelo de lã, ronronava como quem conta segredos e faz declarações de amizade eterna.

Na companhia de Lula, o cachorro, ele passou também a cuidar da casa. Lula se ocupava dos outros cães, dos cavalos, das vacas lerdas que insistiam em comer os pés de milho ainda no broto. Miguel era responsável pelas maritacas que iam tomar café da manhã nas bananeiras e no abacateiro, e também se responsabilizava pelos outros gatos machos.

E tinha o dom da coisa. Cada gato que pulava a cerca e se arriscava no território era motivo de alarde e algazarra. Miguel pulava no parapeito da janela, se arrepiava do rabo até os bigodes, emitia sons roucos, apertava as orelhas para trás e partia para o ataque, com um sorriso de satisfação imenso. Quando a luta acabava, ele voltava, com o rabo e os pêlos mais reluzentes e felizes do que nunca, e contava os detalhes da batalha. Miava alto, como para anunciar que o reino ainda era dele. E, depois, se enroscava no cobertor eternamente estendido sobre a cama de casal, unhava cada pedaço dele, e só então se deitava.

Até que um gato aventureiro foi mais forte e traiçoeiro. Nem mesmo Lula conseguiu acudir a tempo. Uma mordida forte no pescoço paralisou Miguel, que caiu no chão com a brancura do pêlo manchada de vermelho vivo e jovem.

Olhei para ele. Acho que ainda sorria. Era um sorriso suave, amigável, o que marcava a boca do Miguel, deitado na laje debaixo do caramanchão de boungainvilles.

Compreendi. Ele tinha vivido e morrido como quis. Na alegria sem fim de ser Miguel.

11.15.2005

O mundo raro

A arraia mora no fundo das partes mais fundas dos rios profundos porque, lá, a comida é boa e farta. Há quem prefira ter uma em casa porque, com o rabo comprido e a leveza no jeito de nadar, como se fosse uma pipa levada pelo vento, ela pode ser enfeite de aquário.

Mas tem ferrão violento, e foi assim que o meu pai, pescando no rio Guandu, no ponto em que ele deságua no rio Doce, sentiu uma ferroada quase mortal no dedo indicador. A dor começa imediatamente. São marteladas fortes quando o veneno entra e faz borbulhar o sangue.

Foi aí que Ronaldo, o companheiro das pescarias, lembrou do remédio mais efetivo contra ataques de arraia: xixi de mulher grávida.

O mundo é lugar de coisas eficientes, mas raras. Quando o rio Guandu encontra o rio Doce e faz um delta manso e barulhento, a paisagem, no extremo oeste do Espírito Santo, fica mais elegante, e o encontro das águas enfeita tudo – o pasto, as taboas, as pedras, o sol refletem os rios e brilham de maneira ofuscante.

E o caráter raro do mundo surge justamente quando, depois de uma dificílima picada de arraia, o acidentado tem que encontrar, ali mesmo, uma mulher que leve filho na barriga. E que esteja com vontade de fazer xixi. Mas, a bem da verdade, o mundo inteiro sempre foi salvo pela conjunção de raridades.

Por isso é que um dos homens que também pescavam no rio Guandu estava para ser pai e sua mulher, já avançada nas artes da gravidez, estava em casa, que não era longe dali.

Enquanto meu pai se contorcia e espremia o dedo ferido com a outra mão, para suportar a dor que insistia em se espalhar pelo braço todo, o Ronaldo pediu:

-Ela pode ajudar?

Ele relutou. Olhou para Ronaldo, olhou para o meu pai. Naquela época, eram todos homens novos, forte e bonitos. E, além disso, um dele estava com o dedo hirto, grosso e inchado. Parecia ser intimidade demais. Mas meu pai já estava sentado numa das pedras da beira do rio e mal conseguia falar.

Chamaram a grávida que veio em seguida perguntar o que era. Explicaram. Ela deu dois passos para trás. Olhou o marido, que também não sabia muito bem o que dizer. Meu pai se deitou sobre a pedra. Já não conseguia dizer mais nada. Os olhos dele, a pele, os cabelos, a boca avisavam que doía.

Ronaldo tentou ser razoável:

-É como todo o respeito, não é hora de abusar de ninguém.

A emergência, então, foi montada. O marido, cuidadoso, providenciou um pedaço de pano que foi usado para cobrir os olhos do meu pai. Foi ele também, o marido, que esticou o braço do meu pai sobre a pedra pra que mão e corpo ficassem na maior distância possível um do outro.

Os outros pescadores foram retirados do local, ficando apenas a vítima, a grávida e o pai da criança por nascer. Foi nesse momento que ele perguntou:

-Sua bexiga está cheia?

Não estava. Ele foi até a casa, apanhou uma moringa pequena e um copo. Ela bebeu. Voltou a beber. Bebeu mais. Esperou. Meu pai se contorcia. Ela, talvez até por dó, sentiu que estava na hora. O marido apertou mais ainda o pano sobre os olhos do meu pai e chamou a esposa:

-Vem.

Ela se aproximou, retirou a calcinha, levantou um pouco o vestido e, em silêncio, agachou-se sobre a mão do meu pai. Fez um pequeno esforço e, aí, o xixi, quente, vibrante, forte, tocou o dedo ferido. A vítima ficou imóvel, à espera do milagre.

E, depois, ela mesma, por saber, como esse jeito feminino de saber quase tudo, que era capaz de criar vida, alimentar, ensinar a falar, empurrar para crescer e ficar forte e, também, capaz de salvar, espalhou, com a própria mão, o xixi sobre o dedo ferido, como quem espalha ungüento em machucado de filho.

Vestiu a calcinha e avisou que o pano já podia ser retirado dos olhos do meu pai. Eles se olharam, com timidez, mas ele sabia que era devedor dela. E sabia também que o sexo feminino é muito mais do que um homem pode supor ou querer. Ele é a porta do mundo.

Meu pai agradeceu em voz baixa e ela, em voz baixa também, disse:

-De nada.

E voltou para casa. Os pescadores voltaram pouco a pouco. A dor se rendia, o dedo começava a relaxar. Meu pai continuou sentado sobre a pedra, ouvindo o barulho constante, ritmado, gentil das águas do rio Guandu entrando para sempre no grande rio Doce.

E viu, com os olhos dele, que tudo brilhava: as terras baixas do Espírito Santo, o pasto que ladeava os rios, as pedras roliças e lisas, o céu e as coxas da mulher, que também devem ser mencionadas quando se fala das belezas do mundo raro.

11.14.2005

O primeiro final de semana

Parece que ...E por falar em homem... está dando certo.
Casa sempre cheia de gente, cadeirinhas extras.
E,sobretudo, acabaram-se os desastres.

Exceto, ontem, claro. Contei uma historinha, o público caiu na gargalhada e eu não resisti. Ri junto.
E ri, ri, ri, ri.

Na cabine, Abaetê, o iluminador, dava gargalhadas deliciosas, irresistíveis.

Sensações deliciosas:

-chegar ao teatro e a bilheteira informar, com um sorriso gostoso, que já está tudo vendido;
-ouvir o burburinho animado do público naqueles cinco minutos antes da peça começar;
-ouvir o silêncio súbito quando é dado o terceiro sinal e a luz se apaga - é quase uma solenidade, isso;
-ajeitar-se na coxia, pigarrear, esfregar as mãos quando faltam 30 segundos para você colocar o pé no palco e
-pisar no palco e encarar as pessoas que, com apreensão, esperam para ver o que vai acontecer.

Isso que acabei de dizer aí em cima é como se fosse um vício. O prazer entrar no sangue da gente e, pronto, você sempre quer mais uma dose.

Bom, a partir de quinta tem mais. Aleleuia.

11.12.2005

A estratégia dos tomates

A Turca morava, ela e um cachorro, num casarão antigo, amplo, estranhamente vazio. Ela era bonita, e os cabelos dela, pretos, crespos e alvoroçados, quando estavam presos por uma fita, lembravam um ramalhete de flores, ramos e capins prontos para serem dados de presente.

Mas o casarão era estranho. A porta de entrada era grande, tinha duas bandas, que sempre se abriam juntas, como se fosse uma solenidade ir visitar a Turca e entrar na sala onde, perdida no meio de um espaço imenso e silencioso, tinha apenas uma mesa simples, de madeira, e seis cadeiras que combinavam.

E era lá que minha mãe, a costureira da cidade, ia quando queria comprar lingerie, malhas, lenços finos e exemplares da revista alemã Burda. Os produtos da Turca estavam sempre empilhados em cima da mesa, como se a casa dela fosse uma loja em permanente liquidação. Zelosamente, minha mãe enfiava a mão no monte de panos e puxava, pela cor, o que achava mais bonito.

Eu não gostava do casarão da Turca. Tudo parecia triste, solitário, encardido. E a imensidão do espaço me deixava desorientado. Por isso, eu me sentava numa cadeira e ficava ali, sem dizer nada, à espera do fim das compras.

Mas a Turca sabia tratar bem os fregueses dela. Então, olhou para mim e me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Em situações assim, estando na casa dos outros e recebendo uma oferta, um ritual sagrado tinha que ser comprido à risca. Antes de responder, era obrigatório, para mim ou para qualquer um dos meus dois irmãos, olhar, com discrição, para a minha mãe e esperar pelo consentimento ou pela proibição, que vinham em forma de um leve, imperceptível para olhos não acostumados, meneio da cabeça.

Eu fiquei calado, sem olhar para os lados. A Turca insistiu:

-Um doce de tomate. Delicioso. Quer?

Senti um fio fino, gelado, percorrer todo o meu corpo. Não conseguia supor o que poderia ser mais tenebroso do que um doce feito de tomates. Mas a minha mãe, em pé perto da mesa, dirigiu os olhos para mim e balançou a cabeça, suavemente, de cima para baixo. Isso não era apenas um conselho, uma sugestão para aceitar. Era uma ordem. Com a garganta seca, com um fiapo de voz, temendo pelo futuro, respondi:

-Sim, senhora.

-E você, Irene, aceita também?

-Não, obrigada.

Odiei minha mãe.

Alguns minutos depois, a Turca voltou da cozinha. Atravessou a sala com passos solenes, fatais, em minha direção. Eu estava sentado, numa cadeira de espaldar reto, perto da janela. Na mão, ela trazia um prato pequeno onde estava deitada uma colher inocente ao lado de uma pasta assassina, cruel, vermelha, como se fossem lavas do inferno. Era o doce de tomate.

As duas voltaram a se entreter com as malhas. Dei a primeira colherada. Um sabor de gororoba tocou a ponta da minha língua. Fechei os olhos, deixei o doce se desmanchar na minha boca, parei de respirar e, só então, engoli. Eu não ia resistir e não sairia vivo da experiência.

Olhei para a imensa vermelhidão no prato de sobremesa. Cheguei mais perto ainda da janela, encarei o quintal, fiquei de costas para as duas e, de uma vez só, como se tivesse ouvido um disparo que anunciasse o começo da corrida, joguei o doce fora. Todo. E, quando me virei para encarar minha mãe, tive o cuidado extremado de lamber a colher.

-Aceita mais?

Fui mais rápido que o olhar da minha mãe:

-Não, senhora. Obrigado.

E me sentei novamente, aliviado, em paz comigo mesmo. Eu havia me livrado da morte por envenenamento e olhava, vitorioso, para as duas torturadoras que discutiam a qualidade da malha.

Foi aí então que ouvimos um pequeno barulho na cozinha. Eram passos miúdos, lentos. Com os olhos sorridentes, com o rabo que se movia lentamente, com um carinho insuportável, o cachorro da Turca entrou na sala e caminhou vagarosamente até a mesa. Os olhos das duas mulheres se dirigiram para o mesmo ponto e eram frios, calculistas, mortais. Das costas do cão escorria uma massa disforme e vermelha. Era o doce de tomate, o mesmo que eu havia jogado fora pela janela que, em vez de cair no chão e se perder na terra, tinha ido pousar nos pêlos do bicho.

Ele se sentou, doce e bom, perto da Turca. A gosma então passou a escorrer das suas costas até o chão. O silêncio e a imensidão da sala aumentaram. Os olhos da minha mãe me procuraram, como se fossem holofotes de campo de concentração. Dentro de mim, três gerações de homens gritaram, impotentes diante do poder daquela mulher de pele branca, cabelos loiros, olhos castanhos, quase pretos, boca carnuda e 1,49m de altura poderosa.

Senti que meu fim estava próximo. Minha mãe dobrou caprichosamente as malhas e as lingeries, como se calculasse vinganças. Com um tom de voz perigosamente educado e controlado, disse que, desta vez, não ia comprar nada. Elas se despediram. Quando as duas bandas da porta se trancaram e nós ficamos sozinhos na calçada, a mão de minha se fechou em volta do meu braço e as unhas, pintadas de vermelho, entraram, lentamente, na minha carne.

Era uma dor fina, ardida, insuportável. Aquele apertão materno, sempre dado em ocasiões sumamente especiais, era um treinamento para todos os sofrimentos futuros que a vida pudesse me reservar. A voz dela veio firme, baixa, imponderável:

-Em casa a gente conversa, senhor Alexandre.

Ninguém, na rua, parecia se dar conta de que eu tinha acabado de ser jurado de morte.

11.11.2005

Relato simples e sincero da estréia



9 da noite. O Teatro Goldoni, aconhegante e simpático, está bem cheio. Cadeiras extras e gente sentada no chão. Eu, sozinho lá no camarim, dou minha rezadinha de costume. Dou também uns três ou quatro pulos para sair do torpor da ansiedade, e me preparo para entrar.

Cai um toró. Destes brasilienses, de rachar o globo terrestre no meio. O teto do teatro se transforma num pandeiro enlouquecido. Para começar a peça, tenho que levantar uns dois tons da minha voz, o que não é tão simples quanto parece: eu vinha de três meses de ensaio com a voz colocada de uma maneira, que teve que ser alterada. Imaginem algo como um corredor que treina 100 metros e chega no dia e avisam que vai ter que correr 200m.

A peça vai em frente. Gargalhadas. Estréia é assim mesmo. Agitação, vontade de gostar.

Um raio cai. Explosão. E, de uma vez só, como um susto, acaba-se toda a luz do teatro. Escuridão absoluta. Uma voz pede:

-Continua! Ouvir também vai ser bom!

Um rapaz liga a luzinha do seu celular, caminha até o palco e me entrega o aparelho:

-Use até acabar a bateria.

Ilumino o meu rosto e pergunto se está bom. Dizem que está perfeito.

Outro celulares se acendem.

Arthur Tadeu Curado, o diretor, chora na cabine. Chora mesmo, de emoção.

A peça continua no escuro.

A luz volta. A peça vai em frente e entra na reta final. Eu, cansado por causa dos malditos dois tons acima.

Fim.

(Hoje é que vão ser elas. Não é mais estréia. É temporada mesmo. Destas que tem que ter gente comprando ingressos todas as noites para podermos ganhar dinheiro e seguir em frente.)

11.10.2005

...E por falar em homem...

É HOJE!!!!!!!!!!!!!!!!!

ÀS 21H ESTAREI ENTRANDO NO PALCO.

OBRIGADO PELOS VOTOS DE MERDA.

E MERDA SERÁ!!!!!

O que sai da boca do homem

O meu amigo Marcelinho, também conhecido como Marcelo Bocão, por questões de características anatômicas marcantes, queria o passarinho. Era um canário capixaba, dos que têm canto delicado e penas muito amarelas. Ainda era novo, não tinha crescido tudo o que cresce um adulto. Mas já era gracioso na hora de pular de um poleiro a outro na gaiola da casa do vizinho.

Foram arquitetados planos. O roubo poderia ser realizado em horas de madrugada alta, quando todos dormiam. Mas esse expediente reservava um certo trauma porque Marcelo Bocão, eu e Marcelão, um trio razoavelmente imbatível nas serras do Espírito Santo, já conhecíamos, de cor e salteado, os perigos dos assaltos noturnos.

Isto porque, pouco tempo antes, tínhamos planejado, com riqueza de detalhes, o roubo do pato do quintal da mãe de Carlotinha, que arrastava as asas para o Marcelão. E foi ele que pulou a cerca, vasculhou o quintal e achou o pato.

Mas as noites capixabas sabem ser frias, quando se trata de inverno. Por isso, o pato, vivo, não podia ser levado na mão com o braço esticado porque o vento, ricocheteando nas montanhas, chegava gelado até nossos corpos. Desta forma, Marcelão guardou o pato dentro do casaco, o que seria um excelente plano se esses animais não tivessem a habilidade de fazer um cocô miudinho, escorrido, rápido e extremamente repetido. Assim, decidimos que o carregamento do pato seria revezado entre nós três para que cada um recebesse, na camisa debaixo do casaco, o seu quinhão de cocô.

Foi por isso que o Marcelo Bocão resolveu que ia ser na marra. De tarde. Entrava no quintal e, pronto, pegava o canário. E fez isso mesmo. Pulou o muro, andou cuidadosamente nas proximidades das paredes, portas e janelas, abriu a gaiola, enfiou a mão e segurou o passarinho de uma vez só.

Ia saindo quando a porta se abriu. Era o homem que, além de ser dono da casa, também atendia pela propriedade do canário. Marcelo, de costas, pensou rápido, elaborou novo plano de escape e, num piscar de olhos, sem refletir muito sobre coisas como conseqüências e acidentes, enfiou o canário na boca. Fechou os lábios e, só aí, se virou para encarar o homem parado na porta.

Marcelinho não dizia uma palavra, mas piava miudinho, como se fosse pássaro novo. Tentava não respirar para que o vendaval não assustasse o bicho que levava na boca. Manteve o controle absoluto dos músculos e dos olhos enquanto o homem descia lentamente as escadas para chegar perto e exigir as devidas satisfações.

E foi aí que Marcelo começou a se contorcer.

O canário, lá dentro, tentou fugir. Ou vasculhar o terreno. Pisava com unhas finas e delicadas. Depois, mais confiante, passou a bicar com força, na tentativa de abrir um buraco por onde pudesse fugir. Marcelo se apertava, se avermelhava, gemia para dentro, como uma pessoa atacada de súbita disenteria.

O homem olhou assustado. Pensou até mesmo em ataque epilético. Marcelo não se controlava mais. Quis fugir, mas, em vez disso, diante de tanta vida guardada dentro do corpo, apenas abriu a boca, sem dizer nada.

Como em momentos de milagres, de dentro da boca de Marcelo, bem em cima da língua picada e arranhada, surgiu um passarinho miúdo, amarelo, bonito. Ele se apoiou bem com as unhas afiadas, bateu asas e, então, voou céu afora até parar, logo em seguida, num galho de pé de carambola.

O homem e Marcelo Bocão se olharam. Já ninguém precisava dizer nada porque da boca de um deles havia saído tudo o que era para ser dito. O dono da casa se preparou para correr. Marcelo correu em alta velocidade, atravessou o quintal, pulou o muro.

Livre das ameaças do homem e do canário, foi, então, para casa, à procura de mercúrio-cromo e algodão.

11.08.2005

Ama.da-Aman.te




Eles entravam no trem aos montes. Traziam caixas, embrulhos, pacotes, trouxas, bundas imensas, bebês seguros em mantas jogadas nas costas e atadas em nó à volta do pescoço. Traziam também engradados de galinhas, ovelhas na coleira, leitõezinhos orelhudos. E falavam em quêchua, a mais oriental de todas as línguas do continente americano, com uma enxurrada contínua de palavras de uma sílaba só, interrompidas por súbitos pontos finais. Para o estrangeiro, o quêchua é uma algazarra de sons agudos, uma ingrezia delicada.

Eu me sentei para esperar, a qualquer momento, o arranco do trem rumo a Huancayo, nos Andes peruanos. Em minha frente, se acomodaram a índia jovem de tranças negras e chapéu e o índio velho de olhos tristes. No colo dela, um galo com penas luzidias, cor de caramelo, e crista vermelha como sangue bom.

Ela era bela. Os olhos eram distantes, como olhar de princesa proibida. Não sorria, mas não era indiferente. O nariz, súbito, grande, brotava do rosto como uma montanha aquilina. Os cabelos pretos eram azuis, presos em tranças que terminavam amarradas por fitas coloridas, amarelo-vivo e vermelho-crista-de-galo. A manta nos ombros copiava, listra por listra, todas as cores do mundo, sem faltar uma. A saia, verde como uma esmeralda, era rodada e terminava nos joelhos, de onde se podiam ver todas as anáguas das mulheres incas.

O galo se acomodou no colo dela como quem tem o hábito de ficar ali, sempre. O colo era a casa dele. Os braços da mulher eram o amparo que ele tinha para sempre. Os lábios dela, carnudos, bonitos, com jeito macio, beijavam apenas a crista dele.

O trem sacudiu e foi. Primeiro, ia de frente. Depois, de marcha a ré. De frente, novamente. De marcha a ré outra vez. Até chegar lá em cima, onde a estrada de ferro era, finalmente, uma reta nas alturas geladas.

O soçobro do vagão pelas montanhas adormecia o índio velho, a índia linda e o galo dela. Encostei o cotovelo no braço do assento, apoiei o rosto na mão aberta e semi-fechei os olhos para observar melhor a mulher apaixonada pelo bicho de penas. Só eles dois se entendiam no alvoroço do trem que falava quêchua. Os olhos dela, mornos, mansos, secretos olhavam pela janela.

O vento frio entrou no vagão. A índia se ajeitou na manta colorida e o galo se escondeu no colo dela. Sem tirar os olhos secretos da janela, como se visse o que eu não via nem imaginava o que pudesse ser, começou a cantar. Tinha o timbre e a doçura das vozes que vêm de longe, que atravessam mares, sobem montanhas, sopram com os ventos, vibram como talo fino de bambu. Só a música era conhecida. De um jeito calmo, seguindo o ritmo do trem, ela cantou Roberto Carlos. Ama.da-Aman.te. Assim mesmo, com pontos e interrupções surpreendentes, como se fosse quêchua.

O homem passou a dormir com a cabeça apoiada na parede do vagão. E, num solavanco sobre a emenda dos trilhos, a cabeça dele caiu para frente. A partir daí, o balanço miúdo da viagem fazia os cabelos pretos e lisos do índio balançarem na testa.

A mulher nova parou de cantar. Falou alguma coisa para o homem. Ele não respondeu. Ela tocou no ombro dele e o peito todo caiu, em direção às coxas. Ela se levantou. Abri os olhos e me ajeitei na cadeira. De tudo o que ela dizia, eu entendia “pápi”, repetido várias vezes, como se fosse um ensaio para o desespero. Primeiro, em voz baixa. Depois, várias vezes, com velocidade. E, então, um grito só que se espalhou pelo vagão inteiro.

O funcionário da estrada de ferro chegou em seguida. Já todos estavam de pé e tudo se agitava dentro do vagão: mulheres, homens, crianças, ovelhas, porcos, embrulhos, trouxas e malas. O trem rangia com dor sobre o aço dos trilhos. A velocidade aumentava, as montanhas passavam ágeis pela janela.

Alguma coisa foi decidida e só eu não sabia o que era. A índia, linda e triste, se sentou novamente ao lado do homem já morto. Abraçou-se ao galo, que não se mexeu, não bateu as asas, não cacarejou. Os dois, mais do que nunca, tinham, agora, olhares de realeza. Somente uma princesa seria capaz de sofrer tanto, e com tanta ternura calma, diante de um defunto.

O trem parou, arranhando os trilhos. O ruído fino, capaz de arrepiar as peles, parecia um lamento espichado, agudo, mórbido. Lá fora, a paisagem andina, com árvores, picos, sol e frio. A índia esperou. Quatro homens puseram o corpo para fora do vagão, pela janela, enquanto dois outros esperavam do lado de fora. Ela, abraçada ao galo, não olhava para nada.

Foi então a hora da índia sair. Ficou de pé, ergueu suavemente a cabeça, protegeu o galo entre os braços e caminhou pelo corredor do vagão. Como uma princesa que caminha entre os bancos da catedral para chegar ao altar e ser coroada rainha, ainda de luto pela morte do pai. Nos braços, levava a mais importante jóia do seu reino inteiro.

Então, pela janela eu podia ver o corpo estirado no chão e ela, em pé, hirta e linda no meio das cores que cobriam o corpo todo. Tentava entender por que era ali, no meio das árvores, nas lonjuras andinas, que eles tinham que descer do trem. Ou, talvez, tinham sido colocados para fora, por questões de morte.

O trem deu novo arranco. Fiquei na janela e vi, cada vez mais longe, mais indefinido, as cores da índia, as penas do galo, o corpo do morto. Mas me tranqüilizei. Sozinha, no exílio, ela não estava. Tinha um corpo quente e querido entre os braços. O galo, a crista, as penas luzidias cor de caramelo, eram, agora, o amparo da amada amante.

Solitário pacífico

Quem olha e encara o Oceano Pacífico se apaixona por ele. No seu jeito azul-chumbo, é irresistível. É mais antigo, mais profundo, maior e mais fértil que o Atlântico, mas o mar que, com forma de S, separa as Américas da África e da Europa tem mais barcos e mais navios, tem mais velas e mais navegantes. O Pacífico é uma solidão imensa. É o sal do silêncio.

A corrente de Humboldt tem comida. Para todo o mundo: para os chilenos, para os peruanos, para os pelicanos, os tubarões. A corrente traz peixe, mas desfalca o céu. Em Lima, que fica nas margens do Pacífico, não chove. As casas, por isso, têm tetos planos, já que nada escorre deles. E os cachorros limenhos, em vez de latirem atrás dos portões, criaram a mania de subirem para os telhados. Vigiam a cidade como se fossem gatos empoleirados.

Em 1972, a corrente de Humboldt secou. Os jornais acusavam a França de fazer experiências atômicas no mar. Os peixes se tornaram coisa rara. Os peruanos, então, abandonaram temporariamente o ceviche e comiam animais da terra. Os pelicanos passaram fome.

Eu estava sentado no banco da praça e observava a barraca de peixes. Era pouco o que eles tinham para vender e era caro também. No muro do outro lado da rua, pousou um pelicano enorme, bonito, pesado. Os pássaros nunca olham diretamente para o alvo, eles dissimulam. O pelicano não parecia assustador.

Em seguida, veio outro e pousou ao lado, no mesmo muro. Poucos minutos depois, mais um. Mais tarde, eram seis, que não se moviam. Estavam inertes, pesados, elegantes. Para o telhado da casa ao lado, vieram outros. Pouco a pouco, já não era mais possível contar os pelicanos que se aproximavam, como se a notícia de peixe tivesse corrido em bico em bico.

E quando estavam todos juntos, começaram a se movimentar no muro e no telhado. Andavam com passos curtos, saltos pequenos, de um lado para o outro. Os pelicanos se esbarravam. Começaram a bater as asas.

E, finalmente, um deles deu o sinal. Levantaram vôo juntos, cobriram o céu de Lima e atacaram a barraca de peixe. O peixeiro foi empurrado por corpos imensos, bicos gigantescos. Caiu na calçada enquanto gritava. Bicos, penas, asas, pés fortes, tudo se alvoroçava em cima da barraca. O cheiro de peixe devorado corria solto pela rua limenha.

E depois, tão rápido quanto haviam chegado, veio o silêncio. O céu ficou limpo outra vez.

As ruas eram pastos estéreis de pelicanos. Na grande avenida central da cidade, parei o carro. Pelicanos lentos choravam a saudade da corrente de Humboldt. Outros carros pararam também e buzinaram. Os pássaros, todos enormes, de olhos mortiços e parados, apenas moviam os pés, sem sair do lugar. O engarrafamento se tornou uma imensa passeata de pelicanos famintos.

Alterei os meus hábitos. Passei a correr entre pássaros imensos, a enxotar aves pescoçudas da porta de casa, de escadarias de museus, de calçadas calmas. Ás vezes, eu parava, tão imóvel quanto eles, e esperava para ver quem perdia a paciência primeiro. Os cães latiam dos altos dos telhados. Lima era um viveiro de pelicanos à míngua. Em silêncio, eles abandonaram o mar e ocuparam a terra.

O Pacífico nunca se sentiu tão solitário quanto naquele ano.

11.07.2005

...E por falar em homem...



Para os brasilienses frequentadores do blog:
A partir do dia 10, no Teatro Goldoni (Casa d'Italia), começa a temporada da comédia ...E por falar em homem...

Com direção de Arthur Tadeu Curado, vou estar no palco para falar de "como é difícil ser homem".

Temporada até dia 20, sempre às 21 horas, exceto aos domingos, que a gente começa a trabalhar mais cedo porque não precisa competir com as telenovelas e, então, vai para as 20 horas.

Todo mundo lá!

A descoberta da América





Nunca consegui fazer a diferença entre as penas dos condores e os cabelos dos índios. Eu passava de ônibus, trem, na carroceria de caminhão, camionete, ou até a pé, nas estradas empoeiradas e tortas dos Andes, e olhava para o céu. Lá em cima, na ponta estreita e fina de alguma montanha, sempre estava um ou outro.

Que fosse um condor, era belo e fácil de entender. Mas se fosse um índio, era belo e difícil de entender. Se tem tantos vales, tantas margens de rios, tantas lhanuras, por que escalar montanhas, procurar a ponta delas, e ficar lá, em pé, de cara para o vento, enfrentando o abismo? Talvez porque não haja mesmo diferença entre ele e o condor, sendo os dois habitantes dos lugares mais altos do mundo. Talvez para entender a paisagem. Talvez para procurar lhamas.

O rio Urabamba passava lá embaixo, pulando, com força, sobre pedras na garganta entre montanhas. A ponte, feita apenas de corda e madeira, era cá em cima, com as pontas amarradas em cada margem.

Passar pela ponte, com mochila nas costas, era como tentar se equilibrar em um colchão d’água. E era isso que o americano Andrew e eu fazíamos lentamente, passo a passo. O trem, que vinha de Cuzco, tinha parado no Km 88, que não era nada, nem cidade, nem vila, nem pueblito. Apenas uma estação sem plataforma, sem guichê, sem quem trabalhasse nela. Só uma casa pequena e uma ponte de madeira e corda do lado, sobre o Urabamba.

Descemos, cruzamos o rio e chegamos ao começo do Camino del Inca, que, Andes acima, ia até as ruínas da antiga cidade de Macchu-Pichu. Era por caminhos assim, a pé, que eu tentava entender coisas estranhas, exóticas, desconhecidas, como a América do Sul, de quem o Brasil é irmão desgarrado.

Fomos. Sol e frio. Um verdor intenso, quase insuportável. Cheiro inca de folhas de coca, estrume, lã, pão, batatas. Paramos no fim da tarde e comemoramos o primeiro dia com uma garrafa de vinho. Deixei o Andrew sentado em uma pedra e saí para conhecer as vizinhanças.

No alto da montanha, na ponta estreita onde o mundo acaba para se tornar vento, um condor. Ou um índio. Olhei para frente e vi três animais, dois adultos e uma cria nova. Eram bichos vesgos, altaneiros no equilíbrio sobre um pescoço grande. Os donos enfeitam as orelhas deles com penduricalhos de lã colorida, com sinos. Mascam como se não tivessem mais nada para fazer na vida. Quando me viram, levantaram os rabos curtos e deram um passo à frente.

Não notei que interrompia uma reunião familiar. Eles deram mais passos à frente, como quem vai e fecha a porta. Avancei. Mas um deles avançou mais que eu, já irritado.

Foi aí que desconfiei que o clima tinha uma certa tensão, como no círculo de uma arena. Um dos bichos adultos se preparou. Deu uma corridinha para ver se me impressionava. Mas fiquei no mesmo lugar, impedido de fugir pela curiosidade de ver o que iriam fazer.

E fizeram. Correram em minha direção. Corri deles. Desci o morro e quis dizer ao Andrew, aos berros, que o perigo se aproximava. Mas, por algum motivo que me escapa até hoje, por algum processo que tem o nome genérico de pânico, ou excesso de vinho no organismo, acrescentado ao efeito das alturas, me esqueci como se diziam algumas palavras. Entre elas, justamente, o nome dos animas vesgos e altaneiros.

Mesmo assim corri. Corri morro abaixo. Gritava “atención, atención”. Várias vezes. E por falta de palavra mais correta, mais definitiva, quando passei a correr muito, gritei, de maneira bem comprida, assustadora mesmo, o nome do único outro animal que, eu achava, se assemelhava à família que, aos pulos e passos rápidos, me expulsava do território. Assim, por eles serem de bom porte, donos de línguas grandes e grossas, por terem rabos, quatro patas e a fêmea apresentar tetas cheias, berrei:

-Atencióóón, vaca! Vaaaaaaaaaaaca!

Subi numa árvore, enquanto o Andrew permanecia sentado exatamente na mesma pedra, com olhos calmos. Talvez risse por dentro, coisa que, provavelmente, também faziam os animais que, agora, pastavam.

A mesma surpresa, o mesmo susto voltaram, quando cheguei à casa do Andrew, no sul dos Estados Unidos. Haviam se passado 30 anos sem que um tivesse notícia do outro até aquele dia do reencontro. Entrei num avião em Brasília e pousei lá, em Albuquerque, a cidade no meio do deserto.

A casa era de tijolo cru, como nos Andes. A grama do quintal grande, imenso, tinha o mesmo verde andino. O silêncio embalado pelo Rio Grande, que corria nos fundos, também era peruano. E lá, no meio do verde, perto do rio, no pasto debaixo das árvores, dois animais, como se fossem duas vacas domésticas.

Eram as lhamas de Andrew, que explicou:

-Para que eu não esqueça nunca a América do Sul.

Cheguei perto de Sarah e Ruby. O mesmo olhar vesgo. O mesmo jeito altaneiro e desdenhoso. Os passos miudinhos e certeiros, exatamente como as outras. Os rabos curtos e ágeis. Cheguei mais perto. Aí, pela primeira vez, conseguir tocar o pêlo. Alisei. Fiz carinho no pescoço de Sarah. Chamei Ruby, com voz baixa. As duas se aproximaram.

Três décadas antes, eu estava nos Andes, à procura da América do Sul. Achei, então, sensações dela na América do Norte. E, salvo engano, entendi que, de maneira pessoal, íntima, sincera, tão viva e quente quanto o meu sangue, a América começa nos fiapos da Patagônia e termina onde o Canadá vira gelo. Tudo passa por lhamas, geleiras, florestas, gramas verdes e rios bravos.

Sarah, Andrew, Ruby e eu. Um continente só. O único que vai de um pólo ao outro. América.

11.04.2005

Tensão pantaneira

Apesar de bonita, elegante e sonhadora, não era nem mesmo uma cidade. Bem do lado da Bolívia, rodeada de Pantanal, acompanhando um pedaço do rio Paraguai, Corumbá era, para falar a verdade, uma chapa quente deixada ao sol. Ela se ardia lentamente quando o sol, duro, amarelo, paciente, parava no meio do céu e se recusava a ir embora. Qualquer um se recusaria. Ali, o mundo é muito bonito.

Às duas da tarde, eu e o Everaldo, a gente buscava lugar para passar a noite e, no dia seguinte, entrar no Trem da Morte e seguir para Santa Cruz de la Sierra, a cidade mais rica e mais drogada da Bolívia.

E, então, com as vistas escurecidas pelo ouro do sol, com a pele arrepiada pelo vapor morno que escapava das águas do Paraguai, com as roupas umedecidas pelo suor que escorria no Pantanal inteiro, eu me sentei na escadaria que desce da cidade até a margem do rio.

Comprava picolés, um atrás do outro. Escolhia pela delícia das cores. Pedia um e era amarelo vivo, forte. Pedia outro e aí vinha uma água congelada de cor vermelha. Comprava mais um: era mais verde que as copas das árvores.

O Everaldo, do meu lado, com uma voz calma de quem, depois de ver o Pantanal, passa a acreditar em tudo, me perguntou:

-Estátua mexe o gogó?

Debaixo de sol muito quente, qualquer indagação faz sentido. Respondi:

-Que eu saiba, não.
-Então, tem um jacaré aqui do lado da gente.

Com o picolé na mão, olhei. Parecia ser um lagarto enorme, capaz de girar os olhos para frente e para trás. Como se engolisse em seco, movia a pele logo abaixo da boca imensa. Mas no meio do verão, fugir ou ficar ao lado do perigo é uma decisão complicada e árdua, que requer sacrifícios.

Tentei compreender o jacaré. Como meus olhos sem tanta mobilidade, encarei. Por algum motivo, ele, o réptil, não se movia. E, também por algum motivo, mas de outra ordem, eu, o mamífero, não sentia medo. Não era bravura, coragem ou heroísmo. Era lassidão mesmo. Acabei de chupar o picolé e, só então, me levantei lentamente, com a calma dos anfíbios, e fui procurar uma pensão.

No calor da tarde, quis tomar banho. O banheiro da pensão era no centro do quintal, rodeado de roseiras com rosas miúdas e despetaladas. Mas o chão, feito de terra escura, compacta e úmida, enchia a planta dos pés com um frescor brando que, pouco a pouco, subia pelas pernas e chegava até o coração, uma bomba quente no meio do Mato Grosso do Sul.

Então, fui me lavar, com a toalha pendurada no ombro. Acontece que o banheiro era um arremedo de si mesmo. Ali, debaixo do céu, tinha quadro tábuas largas sem teto e, do meio delas, subia um cano alto que, em seguida, dobrava-se em linha reta. Era do próprio cano que caía um jato forte, único, de água forte e fria.

Cheguei perto. Compreendo os anfíbios, sei me sentar ao lado de jacarés pantaneiros, mas tenho uma certa indisposição com galinhas. Não só com elas. Com patos e papagaios, também. A junção de pés capazes de se contraírem com força, de penas que se arrepiam e de bicos que apontam, sempre me pareceu perigosa e assustadora.

E tinha uma galinha que, conformada com o começo do pôr-do-sol, já estava empoleirada na tábua que servia de porta para o banheiro no meio do quintal.

Tentei compreender a galinha. Ela me olhou, impassível e lerda. Tomei coragem. Abri a porta lentamente, enquanto ela se acomodava no poleiro móvel. Entrei em silêncio, fechei a porta. A galinha reclamou, mas não muito. Ajeitou-se sobre a tábua e continuou ali, como quem se torna introspectivo diante da marcha lenta do dia para o resto do mundo atrás do horizonte.

Tirei calça, camiseta, cueca e pendurei no único prego grudado na tábua da porta. No meio do cano tinha uma torneira, que girei. A água deu o primeiro sinal de vida: o cano se sacudiu um pouco. Em seguida, gemeu. Aí, se sacudiu mais ainda, como se anunciasse um dilúvio e, de uma vez, o cano lançou um jato só, barulhento, enérgico, que bateu na minha cabeça e se espalhou, como uma fonte, para todos os lados.

A galinha não entendeu. Deu um grito alto, abriu as asas, arrepiou as penas e arregalou os olhos. E, movida apenas pelo susto, incapaz de tomar uma decisão sensata, em vez de fugir da água, achou por bem pular para dentro do banheiro.

O espaço era pouco para tanta coisa. Ela tentava se salvar do dilúvio que despencava do cano. Cacarejava e corria, espremida pelas quatro tábuas. Não tive muito o que pensar. Com um puxão forte para dentro, abri a porta que veio com tramela, roupas, dobradiças e parafuso, e ficou solta na minha mão.

Larguei a porta e corri para dentro da pensão. E só lá, na mira de olhares espantados e curiosos, lembrei que ainda estava sem roupa e que a toalha tinha ficado no prego da porta arrombada. Corri de volta para o banheiro. A água continuava farta, a galinha ainda tentava entender o acontecido, minhas roupas estavam encharcadas. Não entrei.

A dona da pensão veio em seguida. Com passos lentos e com a boca preparada para gargalhar, entrou no que restava do banheiro, girou a torneira, pegou a galinha pelos pés e me encarou.

Enquanto apanhava minhas roupas para cobrir o que estava à mostra, a mulher, ainda com a galinha na mão, avisou num tom de voz maduro e muito experiente de quem já está acostumado a pegar patos, pintos e perus:

-Ah, meu filho, não tem problema. Igual ao seu, já vi milhares.

Relaxei. Eu havia sobrevivido à galinha. Dali em diante, estava pronto e treinado para enfrentar a Bolívia inteira.

11.03.2005

O pingüim da Abissínia

Meu pai foi mordido sete vezes por cobra. A última vez, ele já era pai e grande. Uma dorminhoca, venenosa, esperta, enfiou os dentes na carne fina e esticada entre o dedão e o dedo indicador quando o meu pai, de mão aberta, se agarrava a uma raiz num barranco, para ter apoio e continuar a escalada da encosta barrenta.

Teve febre, os olhos lacrimejaram durante vários dias, sentia coceira insistente no braço, ficou impaciente, meio bravo pelos cantos, mas, depois, passou. Além disso, ser mordido sete vezes por cobra é remédio. Dá imunidade absoluta para todas as futuras mordidas – que, no caso do meu pai, nunca aconteceram. Não que eu me lembre.

O 7 é precioso. É a conta do mentiroso, porque se for contada uma mentira, mais seis terão que ser inventadas para encobrir e proteger a verdade escondida na primeira. No fim, surge uma história inteira, uma lenda genuína, ou uma ficção bem bordada e urdida, para que a primeira mentira fique de pé.

Mordidas de cobra também são curadas com o 7. O bicho vem e aperta os dentes. Em casa, a vítima deve pular sete vezes sobre um banco de cozinha, de lá para cá e de cá para lá. Com energia, para que os pés batam com vontade no chão e o corpo se estremeça a cada impacto. Foi assim, aparentemente, que o meu pai se curou das seis primeiras vezes, fato confirmado por minha avó Virgínia. Mas, lá em casa, todos contavam coisas admiráveis e fantásticas porque meu pai e os irmãos dele, Ovídio e Mercedes, parecem ter sido criados numa terra mais exótica e admirável que o Oriente, mais feérica que Alexandria, mais indefinível que a Abissínia.

Por isso, meu pai brincava com cobras, nos anos 20 do século XX. Não que não existissem outros brinquedos, que podiam ser feitos com sabugo de milho, melão-de-São-Caetano, pau, lata e corda. Mas quando uma pessoa vive e cresce exatamente na encruzilhada entre a Abissínia e Alexandria, lugar de que eu ouvia falar, mas que nunca soube onde fica nem jamais encontrei a estrada para lá, o divertimento também é de cabeça para baixo.

Em 1928, meu pai usava calças curtas. Saía da casa, rodopiava pelo quintal cheio de italianos e subia, em dias de calor, até o ponto mais alto das encostas, onde os pés de café estavam plantados em fileiras longas, bem feitas. Vasculhava tudo com cuidado, esmero, e, debaixo de uma das árvores do cafezal, encontrava a cobra, enrolada em si mesma, na dormência das tardes de sol.

Com uma vara, ele futucava a cobra que, desatenta, voltava a se enroscar. Futucava de novo. A cobra, então, acordava e prestava atenção. Nova futucada. Ela, que antes dormia, agora levantava a cabeça, já irritada. Na quarta vez, ela jurava meu pai de morte.

E, aí, cuidadosamente, brincando com o perigo absoluto, ele encostava a vara outra vez. A cobra se espichava, mostrava os dentes e se preparava para a grande vingança. Meu pai corria e ela ia atrás, disposta a eliminar, com veneno, o intruso no sono da tarde quente.

E era correria morro abaixo, aos gritos. Não gritos de pânico ou pavor. Muito menos de arrependimento por ter tirado o bicho do seu sossego. A descida aos galopes, com o vento na cara e o suor grudado no peito, nas mãos, nas coxas, na barriga, era felicidade pura. Era assim que eles eram felizes, lá.

A cobra se espalhava no chão com os músculos retesados, pronta para o bote na imensidão do cafezal. De repente, meu pai, com um berro vitorioso, se segurava na rama de um pé de café, girava o corpo como um atleta que se segura, rijo, à barra de ginástica. E de lá, via a cobra que, sem braços, sem mãos, sem pés, impossibilitada de qualquer ação, incapaz de frear, de interromper o deslizamento acelerado ou de se salvar, tinha um único destino. Desesperada, aos pulos e tropeções, escorregava, se esfregava no chão, se contorcia e não tinha jeito nem solução: sob o peso da fatalidade, parava só quando batia no fim da encosta, no meio do quintal.

E ficava lá embaixo, angustiada, irritada e cansada. A minha avó, mais irritada que ela, berrava o nome do filho, que já tinha sumido, à procura de novos bichos do Oriente onde ele foi criado para depois enfrentar o mundo.

Isto foi ele que me contou no dia em que, para me convencer a sair da banheira feita de ágata velha, com pés estranhos que imitavam garras de leão, me contou também que eu corria o risco de virar pingüim, depois de tanto tempo imerso na água morna. Como prova, segurou minhas mãos e me mostrou os meus próprios dedos, já enrugados nas pontas. Era, segundo ele, o primeiro e definitivo sintoma da pingüinização.

Pulei fora d’água, mas, enquanto meu pai me enxugava com mãos fortes e firmes, eu imaginava o fascínio de ser um pingüim da Abissínia.

11.01.2005

A coisa maternal




Tinha prova final de educação física. Questão única: salto de vara. Meu pai, com a agilidade dos facões e canivetes afiadíssimos, fez a vara com madeira branca, cheirosa. E treinei em casa, no fundo do quintal, porque, sendo o pior aluno da matéria, precisava de nota muito boa, daquelas que a gente não tira nunca.

E, no dia mais importante do ano, abri os olhos cedo. Lá fora, tudo escuro, sem som. Ouvi o barulho lerdo da geladeira na cozinha e combinei, comigo mesmo, que ia contar até 20 e se, nesse espaço de tempo, a geladeira não se arrepiasse e não se sacudisse nem uma vez para mudar a marcha, eu não ia fazer a prova.

Contei depressa, mas, mesmo assim, fui derrotado na aposta ali pelo número 12. Vesti o calção azul-marinho, a camiseta branca de alças, calcei os congas brancos e limpos, apanhei a vara reluzente e ainda cheirosa e, como um condenado no corredor da morte, fui.

Abri a porta de casa. Nem o céu tinha acordado ainda. Os trilhos da estrada de ferro estavam quietos, a rua parecia nunca ter sido usada, o ar gelado tinha jeito de novo. Sozinho, abri o portão de casa e andei em linha reta para a escola, me lembrando de tudo o que tinha que fazer. Não para aprender a saltar com a vara, mas para passar de ano.

A cidade estava sendo calçada e, ao longo da rua, tinham deixado montes de areia e pequenas paredes feitas de paralelepípedos empilhados. Decidi que, então, ia treinar ali mesmo, para chegar na escola com grau de excelência.

Vi o monte de areia e os paralelepípedos empilhados. Os únicos espectadores eram as janelas fechadas e as luzes dos postes, ainda acesos no escuro da madrugada. Dei alguns passos para trás, segurei a vara com firmeza, raspei os pés no chão. Cheguei até a cuspir nas mãos para segurar com mais firmeza. Era assim que se fazia.

Corri, apoiei a vara no chão de terra, subi, firmei os braços, estiquei as pernas, voei por cima dos paralelepípedos e me preparei para terminar o vôo em cima do monte de areia. E, veloz, sentindo o vento gelado bater no rosto, desci.

Aí, foi um berro só. Depois da beleza do vôo curto, bati sentado, quase retumbante, em cima de coisa esponjosa. Grande e gorda. E, sobretudo, coisa viva.

O arrepio nasceu na minha nuca e deslizou às pressas pelo corpo todo. Minha reação de emergência foi fechar os olhos com a promessa de nunca mais voltar a olhar ou ver ou enxergar. Por isso, a outra reação foi me agarrar ao que pudesse, para não cair mais. E só pude agarrar a coisa.

Ela grunhiu. Era grunhido de mula-sem-cabeça desesperada, de monstro das profundezas dos mares, perdido no alto da serra. Era gemido saído do fundo do mundo. Era coisa que babava e se sacudia, esponjosa, quente, macia.

Berrei com força, ainda com os olhos fechados. A coisa se multiplicou, eram várias. Uma grande, outras menores, que se esbarravam umas contra as outras e em mim. Segurei com mais força ainda. Os meus músculos estavam duros demais para relaxar e deixar ir. E, no meio da areia e dos paralelepípedos, a movimentação se tornou um luta entre corpos, um vale-tudo coletivo, escorregadio e sem regras.

Mas, de repente, os grunhidos se tornaram inteligíveis, familiares, domésticos:

-Oinc... oiiiiinc!

Abri os olhos e vi a porca imensa, bonita, branca, cheia de gordura e toucinhos, rodeada de leitõezinhos. Ela me encararava raivosa, postada como uma parede entre os filhos e eu. O olhar era de desespero puro, de pânico com taquicardia por ter sido acordada por alguma coisa que tinha caído do céu justo na barriga e nas tetas, a ponto de quase matar as crias.

Ela e os filhos correram para um lado e eu, para outro. Eles em direção à praça. Eu, de volta para minha casa, sem a vara. Deixei o portão aberto, empurrei a porta da cozinha e me escondi na cama, com tremores que sacudiam o lençol, a coberta, o cobertor, o travesseiro e a fronha. Só saí de lá depois que as luzes do dia tinham entrado na casa toda e que a família inteira já estava em plena atividade.

-E como foi a prova de educação física?

Contei tudo, para ser salvo. Falei da porca parida que queria me atacar, por motivo nenhum. Falei, com detalhes, de como eu ia indo pela rua quando ela começou a correr atrás de mim. Expliquei que até tentar me morder, a porca tinha. Depois, me vesti para ir para a escola e, mal cheguei, fui informado que tinha ficado de segunda época. Além disso, como castigo pela insubordinação de não ter comparecido, fui obrigado a passar uma hora, no pátio do colégio, depois do horário de aula, com os braços abertos. Um tijolo em cada mão aumentava o suplício.

De repente, minha mãe entrou tensa na escola. Pisava firme, como um esquadrão inteiro. Gritava:

-É apenas uma criança! Onde já se viu absurdo destes? Ele vai embora para casa comigo. Agora!

O professor de educação física respondeu, com voz grossa, que, ali na disciplina dele, quem mandava era ele. Minha mãe reagiu com um argumento certeiro: deu um safanão no homem. Só que ele, por acaso, era quase autoridade, por ser primo do prefeito. Ainda bem que minha mãe gostava desses confrontos e era mestra em fazer valer os pontos de vista dela. Era assim lá em casa, era assim no mundo inteiro.

-Eu não tenho medo nem do senhor nem do seu irmão.

Ia saindo e voltou, avermelhada:

-E quer saber? Não tenho medo da sua mãe também, não. Ela devia ter criado melhor a família para agora não ser avó de menina sem pai. Diga isso a sua irmã!

Quando seguia para casa, aos tropeções, quase arrastado pela minha mãe que, furiosa, prometia que as coisas não iam ficar daquele jeito, vi a porca e os leitões outra vez, na rua. Ela dormia tranqüila, tranqüila.

Procurei a vara. Nunca mais achei.