6.01.2013

Portugal - O País Agridoce




O Passeio das Virtudes

         Comprei um livro de Vergílio Ferreira, para evitar falta de assunto da próxima vez que tiver que passar pela alfândega portuguesa, e aluguei um apartamento.
        
      A escolha do lugar para morar não foi fácil. Não que falte, que isso tem. Mas principalmente porque, quando você se depara com uma cidade fascinante, é como estar frente a frente com uma mulher do mesmo fascínio, feito a Adélia: por onde começar a tocar, onde é que se aninha? Você pode nem tomar esse cuidado, mas tocar ou fazer ninho a esmo é sempre não saber aproveitar tudo o que o fascínio pode revelar, se não for meticulosamente vasculhado. O Porto é como uma pedra preciosa enfiada em barranco à beira-rio, e, por isso, tomei cuidado, fui cauteloso, prestei atenção e acabei me decidindo por um pequeno apartamento, de quarto, sala, cozinha e banheiro, perto do centro, com vista para o rio Douro.

         Não que o apartamento tenha vista para o Douro, porque não tem. A rua é que tem. Já o apartamento dá para os fundos do prédio, o que pode ser uma desvantagem parcial. Mas o que me fez decidir por ele foi que, enquanto examinava os cômodos, na companhia do proprietário, tive a curiosidade de saber por que a parede da cozinha era diferente das outras. As outras, eram apenas brancas e lisas. A da cozinha era feita de pontos coloridos, miríades de brilhos.

         Parece que o proprietário tinha um certo orgulho do detalhe da propriedade. Eu também teria, se os fundos da minha casa fossem feitos com um trecho da Muralha Fernandina. Emoção igual terá o brasileiro que, um dia,  alugar casa ou apartamento construído a partir das futuras e inevitáveis ruínas do Cristo Redentor. Além da vista da baía da Guanabara, oferecerá restos de um monumento.

         Enquanto o dono do apartamento no Porto me explicava a diferença da parede, comecei a tocá-la com cuidado. Sabia que não seria o primeiro a pôr as mãos e que talvez o meu toque só provocasse indiferença. Mas o que mais podia fazer na hora de ver e me encostar numa parede construída nos confins do século XIV? Um outro trecho da Muralha Fernandina é monumento no alto de uma das pedras da cidade, sempre fotografado e visitado por hordas de turistas. Mas esse pedaço é mais íntimo, quase ninguém sabe dele. É assim também quando uma mulher bonita caminha pelas ruas da cidade e muita gente olha, observa e comenta. Mas poucos trancam a porta da casa e ficam frente a frente com ela.

         Parece que, para viver bem no Porto, é preciso cuidar desses detalhes. É uma cidade inteira resguardada, atrás das portas, dos cercos e das muralhas. Nada é exposto, nada escancara. Tem sido assim nesses últimos dois mil anos. A Muralha Fernandina foi construída para substituir um cerco ainda mais antigo, quando os espanhóis, sempre eles, quiseram, mais uma vez, invadir o lugar e recuperar a posse. O muro resistiu e manteve a cidade inatingível, como ela sempre se orgulhou de ser. E não foram só os espanhóis que nunca entraram. Os árabes também tentaram, sem conseguirem atravessar o rio. Ficaram na margem sul, onde está, hoje, outra cidade, separada por pontes sobre o Douro. É Vila Nova de Gaia, que os portuenses ainda olham com certo desprezo nortenho e chamam de Marrocos. Eles, que nunca foram invadidos, e que chamam o Porto de “A Invicta”, podem fazer essas coisas.

         Se o corpo de uma mulher bonita, além da beleza física, tem nomes preciosos que identifiquem os pontos, como seios, monte-de-vênus, bacia, quadris, ancas, coxas e bunda, o Porto também tem.  É tudo muito caprichoso. Se você sair da rua da Fonte Taurina, que fica na Ribeira, lá embaixo, às margens do rio, e subir ruelas íngremes e quase inescaláveis, vai dar no Passeio das Virtudes, que é onde eu moro agora. Esse Passeio tem casas (entre elas, a minha) somente de um lado, porque o outro é amparado por um muro baixo, onde as pessoas se debruçam e vêem a última curva do Douro, metros abaixo, antes de se perder na grandeza do Atlântico. Depois, siga em frente e vá dar no Largo do Viriato. Desça muito outra vez, até esbarrar numa rua pequena. Ali, tem uma casa onde, dizem, nasceu o Infante Dom Henrique, e o nome dele está no começo da história do Brasil. Foi o homem que, por ser infante, impossibilitado de chegar ao trono, dedicou-se às artimanhas da navegação e deu aos portugueses a arte de revirar o mundo. Deve ter sido o único nobre a viver por aqui, porque o Porto, cidade de comerciantes e burgueses, tinha uma regra: gente com títulos, os inúteis da corte, sem mercadorias para vender, não podia se estabelecer na cidade. Na verdade, só tinha o direito de fazer três pernoites dentro dos limites da Muralha e depois era obrigada a tomar outro rumo e ir dormir em castelos longe dali.

         No Porto também tem a rua do Lindo Vale, a rua da Graciosa, a rua do Abraço, a rua da Piedade, a praça da Cordoaria e a rua das Flores. Tem a Escadaria da Verdade, a rua Sobre-o-Douro e a rua do Miradouro, a rua Firmeza e a rua Formosa, uma ao lado da outra. Tem o Largo da Fontainha, a Praça da Alegria e a rua do Heroísmo. Mas também tem ruas, várias delas, com nome de gente, que mereceu a homenagem para depois virar apenas nome de rua e ser esquecida no que fez para merecer a honraria. Virar nome de rua é morrer duas vezes. 

         A Adélia deixou o filho com a tia e veio aqui para a comemoração da primeira noite no Passeio das Virtudes. Trouxe duas garrafas de vinho. Uma, a Pêra Manca, a gente bebeu até a última gota. A outra, Barca Velha, ficou fechada.  E ela dançou se esfregando contra a minha Muralha Fernandina.


5.29.2013

Portugal - Um País Agridoce




■ A mulher que caiu do céu


         Tinha ficado combinado que, no dia seguinte, ia me encontrar com Carlos e Clara na praia de Miramar, para ver a apresentação dos alunos do curso de paraquedismo.  Como eu tinha a experiência de conversar sobre cuecas, achei que ir ver gente pulando de paraquedas não ia ser nada surpreendente e fui, conforme o acertado, me encontrar com eles no ponto da praia em frente à casa de portão amarelo.
        
          Algumas praias do norte de Portugal são, a bem da verdade, mais literárias do que praianas. Tem a areia, tem as rochas e tem as ondas que batem contra as rochas. Mas tem a água muito fria, gelada, que, se para as mulheres faz com que os biquinhos dos peitos fiquem hirtos e radiantes, tem a propriedade de, nos homens, lançar os ovos virilha acima. A gente entra na água, é atravessado por uma rajada cortante de arrepios, e, pronto, o saco, antes todo pomposo, encolhe e fica vazio.

         Quando o avião começou a fazer rodeios no céu em cima da praia de Miramar, Carlos e Clara ainda não tinham chegado. Mas havia uma pequena multidão, na areia. Juntei-me a ela. Lá em cima, os primeiros alunos começaram a saltar. Na areia, um alvo marcava o ponto exato onde deveriam pousar. Mas foi aí, justamente aí nesse momento, que o vento (o mesmo vento que sempre existiu em Portugal e que empurrou as caravelas em direção ao resto do mundo por descobrir) deu o ar de sua graça. Embaixo, onde nós estávamos, era só pôr as mãos nos bolsos dos casacos e diminuir o comprimento do pescoço para dentro da gola. Lá em cima, parece que a situação ficava mais drástica.

         Os seis paraquedistas passaram, então, empurrados pelo poder do vento, a fazer uma espécie de nado sincronizado nas alturas. As pernas se abriam, os corpos se cruzavam contra o azul do céu. As cordas dos paraquedas se esticavam.  A coisa começou a ficar bem mais emocionante. Eles se aproximavam da areia. O alvo continuava no mesmo lugar, eles é que não se decidiam para onde ir. O vento soprava para o oeste. E lá iam eles na mesma direção.
-Ohhhhhhhh - delirava a platéia plantada na areia.

         O vento, muito inconstante, se empinava para o leste. Os paraquedistas seguiam atrás, sem, nem por isso, perder a força da descida. Chegavam cada vez mais perto da areia, mas já sem garantia alguma de que acertariam o alvo. Foi aí que alguém resolveu raciocinar: tem alvo, tem gente descendo, tem vento forte e tem nós aqui, debaixo deles. E deu o alarme:
-Saiam, saiam todos! Cuidado!

         O nado sincronizado começou, então, também na areia. No início, era uma coisa tímida, de poucos passos, apenas o suficiente para arredar e deixar sobrar espaço para paraquedista e paraquedas. Mas eles se aproximavam demais, em velocidade cada vez mais acelerada. As pessoas começaram a correr. Talvez a corrida dos corpos na areia formasse um canal magnético porque sempre havia um paraquedista atrás de alguém. Virou pânico. As botas dos alunos estavam sistematicamente apontadas para nós, em rodopios, em vaivéns, em grand-jetés desajeitados. O vento cantava Miramar afora.


         Nesse momento, um corpo celestial me escolheu como ponto de pouso. Fui para todos os lados, aos pulos. Tentei escalar a pequena duna coberta de vegetação baixa e escorreguei de volta. Fiquei deitado, com a barriga para baixo. Dois pés armados com botas bateram nas minhas coxas para escorregar em seguida, um peso de corpo humano acrescido de paraquedas se esparramou em cima de mim, agitado como um polvo embaralhado nos tentáculos. Era a Adélia, a mulher que caiu do céu direto pra dentro da minha vida. Senti, ali, que tinha me tornado o seu alvo.          

5.26.2013

Portugal - Um País Agridoce



A rua da mesma


         Nestes primeiros dias, o que mais tenho feito é ler as ofertas de emprego nos jornais. Portugal pode estar saindo da grande depressão dos anos 80, quando até passaram a chamar o de 25 de Abril de “ a revolução falhada”, mas emprego mesmo não tem ainda. Então, o que faço é ler os jornais, de uma ponta à outra. Aproveito para aprender o estilo local.

        O jornalismo tem vícios violentos, só que o estilo português é muito precioso. Parece que foram os franceses que inventaram que escrever bem é atravessar um texto inteiro sem repetir palavras, o que transforma o ofício da escrita numa desesperada caça de sinônimos. Pois bem, os jornalistas portugueses fazem isso com um rigor admirável. Bem que eu estranhei no início, quando li os primeiros jornais sentado no Café Buraco Quentinho, ali perto da Batalha, praça no centro da cidade do Porto. Tive que decifrar que, se no título da reportagem, já está estampada a palavra França, ela se torna mais ou menos proibida no texto e passa a ser “aquele país gaulês”. A Espanha, não dá outra - é sempre “aquele país vizinho”, mas a Itália, que fica mais longe e tem até que atravessar montanhas para chegar lá, é “aquele país transalpino”. Confesso que gosto quando eles chamam o Brasil de “aquele gigante latino-americano” ou a Bahia de “aquela terra de Jorge Amado” (viram? Eu não falei que ele era conhecido aqui? Não entendo por que os policiais duvidaram que fosse brasileiro), mas tropecei e até gaguejei quando encontrei um país apresentado como “aquela zona tórrida do globo terrestre”. Acontece que eu estava lendo a notícia sem prestar muita atenção e me perdi, o que me fez voltar todos os parágrafos, minuciosamente, para entender que era a África do Sul. Sinceramente, acho que o jornalista exagerou.

         Essa ânsia de não repetir palavras, para manter o brilho acadêmico do texto, é tão forte que um jornalista que conheci outro dia me contou que um certo jornal de Coimbra, cidade a 100 quilômetros ao sul daqui, chegou a ter problemas quando foi dar a notícia do corte de energia elétrica numa rua chamada Luz. Só resolveu o grave impasse ao publicar “Faltou luz na rua da mesma”. 

         Mas nem só com estilos franceses se espanta o leitor brasileiro. As palavras são levianas e fúteis, e basta que atravessem o Oceano Atlântico para mudarem de significado.  Por isso é que não me alarmei quando li “Silveira bate Pinto em corrida de bicicleta”. Fui com cuidado, destrinchando a coisa. Primeiro, senti um arrepio ao imaginar a dor que devia ter sentido o Silveira na corrida de bicicleta e até me perguntei se tinha sido contra o selim ou contra o guidon,  mas depois fiquei pensando que bater podia ser ganhar ou vencer e que, se fosse assim, a coisa estava explicada: Silveira e Pinto correram, mas só o Silveira ganhou.

         Não que eu seja obcecado por certas partes da anatomia, mas foi dias depois que também li: “Faltam rolas em Portugal”. Quer dizer, um sujeito bate a dele na corrida de bicicleta e, depois, todas as outras somem do país. Uma desgraça. Mas as rolas, que são animais importantes para a preservação da ecologia portuguesa (as cegonhas e os lobos também) estão ameaçadas de extinção, e não tinha outro jeito de dar a notícia a não ser criando todo esse alarme fálico, que me fez pensar que “se está faltando, alugo a minha”. Mas era desvario de desempregado, nada sério.

         E isso não é nada, em termos de bagunçamento lingüístico, se comparado com o que aconteceu quando um jornal de Lisboa resolveu homenagear o primeiro século de vida do funicular que vai da Avenida da Liberdade até o Bairro Alto. Como funicular não parece nome de meio de transporte e lembra, isso sim, verbo de ação íntima, como alguém que funicula outra, o bondinho, que passa os dias subindo e descendo, recebeu o nome de Glória, assim mesmo, sem cerimônia. Qualquer um pode pegar a Glória, subir na Glória, descer dela, tudo à vontade, só tem que pagar alguns tostões. E esse à-vontade ficou tão grande que o jornal não teve dúvida e pôs lá: “Glória trepa há 100 anos”. Fiquei encantado com tamanha vitalidade e pensei “Ah, mas então não está faltando rola, senão, como é que pode?” O Silveira, depois do impacto de bater o Pinto, também deve ter frequentado  Glória, a trepadeira secular.



Portugal - Um País Agridoce



E se Jorge Amado não fosse brasileiro?

         Depois de atravessar um Oceano Atlântico inteiro, com água, céu e nuvens manchadas pelo breu da noite, que só assusta a mim, mas que não afugenta nem pássaros nem aviões, surgiu a terra à vista, a linha fina do sul de Portugal, a margem oeste da Europa, e o dia nasceu. O país, visto assim de cima, brilhou com raios cor-de-abóbora, cor que parece não acontecer em nenhuma outra terra e que também é, dizem ser, a primeira que os olhos de um recém-nascido conseguem enxergar. As auroras deviam ser a hora dos partos, e Portugal, o berçário do mundo, porque só lá o dia chega com tanto cor-de-abóbora.

         O avião entrou no céu lusitano. Era espichar o olho e ver a Espanha, logo ali do lado direito de quem chega pelo sul, eternamente abraçada a Portugal, como se não quisesse largar a terra perdida há mil anos. O país é miúdo, tem escassez de território e, mesmo que o pouso estivesse previsto (se,  pela graça do bom Pai, nada acontecesse) para o Porto, bem lá no norte, os pilotos pareciam estar cientes de que, mal entrassem em Portugal, já era hora de começar a puxar os freios. E foi nesse ritmo de freada que passamos por cima de Albufeira, Lagos, Faro, Olhão, os tetos rosados de Lisboa, e seguimos em frente, perto do litoral, com sobrevôos relativamente dramáticos (mas nada acontecia, porque os anjos da guarda entendem de decolagens e pousos como ninguém) sobre Espinho, Granja, Aguda, Miramar, Madalena. Logo depois era a vez de surgir o rio Douro, mas umas nuvens duras, carregadas de chuva, dificultavam a manobra.  As nuvens do céu do norte de Portugal são sempre densas, ao contrário do mar, que é mais dado a calmarias, o que explica, em parte, porque os portugueses descobriram e inauguraram o mundo moderno em barcos, e não em objetos voadores. Calcularam as ondas e os ventos e decidiram que por via marítima a coisa prometia ser um sucesso. 

         Eu também devia ter feito os mesmos cálculos, mas estava ali, a bordo de um avião que gemia entre nuvens choronas, à procura de uma saída para o Porto, a cidade brotada exatamente na curva onde o rio Douro se joga para dentro do mar gelado. Os pingos da chuva portuense respingavam nos plásticos duplos das janelas. Eu cravava as unhas em qualquer coisa que estivesse ao meu alcance. Jurava que nunca mais atravessaria o Atlântico, que nunca mais iria querer viver na Europa, que nunca mais acreditaria na tecnologia.

         A portuguesa, nova, bem moderna, sentada ao meu lado, quis me acalmar:
-Sem crise.

       A hospedeira do ar (não riam. Eles também riem de aeromoça), que passava para verificar se tudo estava como o planejado, deu um sorriso profissional:
- Já estamos a aterrar no Aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Primeiro, achei indevido da parte da portuguesa moderna me pedir que encarasse sem crise o sacolejo embrutecido do avião sobre o Porto. Depois, as palavras da hospedeira ricochetearam nas paredes internas da minha cabeça. Aterrar? Não seria uma palavra drástica demais? Mas as considerações sobre a aterragem cessaram quando me lembrei do nome do aeroporto. Futuquei o braço da moça ao meu lado, a moderninha:
-O aeroporto daqui se chama Francisco Sá Carneiro?

Não era pânico nem estertor, era uma consideração. O Francisco em questão tinha sido um liberal de grande importância na saída de Portugal da ditadura salazarista, derrubada com a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974. Também tinha chegado a ocupar o cargo de primeiro-ministro do país. E tinha morrido em um desastre de avião, quando o Cessninha em que ele viajava, de Lisboa para, justamente, o Porto, despencou rumo ao chão daquele mesmo aeroporto que agora tinha o seu nome. A gente sabe que as autoridades, uma vez mortas, merecem e apreciam essas homenagens, com placas e faixas cortadas por bispos e familiares enlutados. Mas por que o aeroporto? Não podia ser um teatro? Ministros adoram isso. Ou uma auto-estrada, daquelas bonitonas, que ligam grandes centros, para não parecer que a figura era de pouca monta.
-Minha nossa Senhora, que mau agouro uma coisa dessas –falei baixinho.

A moça do meu lado não comentou nada. Mas e se o rifle de longo alcance, com mira automática, usada por Oswald Lee para matar o presidente americano em Dallas fosse rebatizado, por seus fabricantes, de rifle John Fitzgerald Kennedy?  Por isso é que, hoje, com as devidas homenagens, ele é nome de aeroporto em Nova Iorque, e não de arma, o que, seguindo o mesmo raciocínio, faz com que Francisco Sá Carneiro devesse ser nome de revólver e não de aeroporto, se é que me entendem.

O avião, já quase desparafusado de tanto tremer e espernear, como se nós fôssemos o touro e as nuvens, os toureiros, apontou o nariz e entrou de cheio na chuva que caía pesada sobre Pedras Rubras, a zona residencial onde fica o tal aeroporto, cujo nome é melhor não ficar dizendo. Aterramos.  Só eu transpirava. Alguns passageiros olhavam distraídos para a pista através daqueles buraquinhos plastificados que, por pura demagogia, costumam chamar de janelas. Outros se espreguiçavam e procuravam os sapatos. Senhoras mais zelosas dobravam caprichosamente as mantas da companhia aérea. Se deixassem, elas, com desvelo doméstico, recolheriam também todos os copos, xícaras e guardanapos do pequeno-almoço (não riam. E nós, que nos contentamos com dizer uma coisa óbvia, feito café-da-manhã?) e entregariam na cozinha do aeroporto.

É na alfândega que a gente, os brasileiros, se dá conta de que Portugal se virou para a Europa e esqueceu o destino Atlântico – mesmo que “destino Atlântico” tivesse sido, um dia, mote de políticos, entre eles o ex-presidente Mário Soares, que volta e meia está no Brasil para nos elogiar e mostrar o seu apreço pelo filho dileto de Portugal, que somos nós. Mas foi o primeiro-ministro Cavaco Silva quem empurrou o país para dentro do continente e deu as costas para a África e a América de língua portuguesa, por motivos que vão desde as manobras econômicas até o fato de ele ser do Algarve, um das poucas regiões portuguesas que não mandaram muitos filhos para melhorar de vida no Brasil. A política sempre tem que ser considerada por esses sintomas afetivos. Dizem que o amor move tudo e talvez seja por isso que nenhuma autoridade, por mais canalha que seja, seja capaz de sancionar uma lei que prejudique, por exemplo, a própria mãe. É preciso considerar essas coisas na hora das análises mais frias e por causa disso, desse desapego pelo Brasil, criado na época do Cavaco Silva, é que os agentes alfandegários olharam para o meu passaporte com ar detetivesco, como se tivessem barrado na malha fina uma ameaça para a nação renascida das cinzas, rumo ao novo-riquismo europeu.

Eles me encararam. Eu, por falta de opção, encarei de volta. Me perguntaram de onde eu vinha. Eu disse. Quiseram saber quanto tempo ia ficar por aqui. Disse que um mês, o que era mentira, porque tinha vindo para ficar. Depois, perguntaram a minha profissão. Sempre é meio constrangedor dizer “jornalista” quando fazem uma pergunta dessas, porque não parece ser profissão, parece oportunismo ou desocupação, mas foi o que respondi.

Abriram a minha mala e, nessas horas, você só pensa: vai ter meia furada, vai ter cueca suja. Mas eles se surpreenderam foi com o xampu. Era um frasco desses de marca recente, que gosta de cores mais como o lilás, amarelo-ovo, azul-celeste. O meu, por acaso, era cor de tinta de caneta tinteiro. O homem ergueu e girou o frasco contra a luz, examinou com cuidado e me olhou com uma certa interrogação. Acho que entendi e, aí, respondi:
-Xampu, né?

Ele não acreditou:
-Xampô? Mandem examinar lá isso.

         E um deles foi embora, com o meu frasco sendo carregado com cuidado. Enquanto esperava pelo resultado do exame anti-doping, ele continuou a investigação:
-Então, você é jornalista. Lê muito...

         Achei simpática a constatação. Uma coisa delicada, pertinente. Respondi que sim. Ele foi esperto, bem matreiro:
 -Então, diga lá o nome de um escritor brasileiro.

         Provavelmente será, por toda minha vida, uma tarefa árdua entender por que a investigação dos agentes alfandegários abandonou os cosméticos e tomou rumo literário. Talvez se deva a uma estratégia investigatória extremamente elaborada, que eles aprendem em cursos de formação, e que funciona na base do, se tem cara de quem lê, pergunte sobre autores. Se é dentista, pergunte sobre amálgamas e porcelanas. Moça da vida? Pergunte sobre marcas de preservativos. Que coisa sofisticada, pensei, antes de responder:
 -Jorge Amado.

         Meu sorriso era amarelo, meio sem graça e com falta de jeito. Pensei: vai que o homem gosta de ler e pensa que eu só leio isso. Mas ele repetiu.
 -Não. Estou a perguntar um escritor que seja brasileiro.

         Senti que a coisa não ia ser muito fácil. E eu havia escolhido Jorge Amado exatamente para facilitar a compreensão, porque imaginem se eu tivesse dito Osman Lins ou Augusto dos Anjos e eles pedissem para eu dar uma breve explanação sobre o sentido da obra dos dois. Ia ser muito hermético e, aí, escolhi Jorge Amado, um escritor cujas linhas querem dizer o que está escrito mesmo, sem muita segunda intenção. 
-Jorge Amado - repeti.

         Ele alterou um pouco o tom da voz:
 -Brasileiro! Um escritor brasileiro!

         Pus o mesmo ponto de exclamação nervoso e contundente na minha resposta.
-Mas vocês querem o quê?! Que eu negue a nacionalidade de um escritor tão...tão (caramba, como é difícil achar um adjetivo que descreva uma literatura cheia de dendês e tabuleiros) tão...pitoresco?!

         Meu ataque surtiu efeito porque ele se reuniu com seus colegas de profissão, deliberou sobre o assunto com certa demora e voltou, já convencido de que a Bahia gerou Jorge Amado, que gerou o romance Gabriela Cravo e Canela, que gerou a novela Gabriela, que gerou Sonia Braga, que gerou uma revolução nas televisões portugueses. E lascou:
 -E Vergílio Ferreira, conhece?

         Meu Deus do céu, eu não sabia quem era. Pensei, pronto, agora me barram e me mandam de volta. Gaguejei uma resposta esfarrapada, que eles, de qualquer jeito, aceitaram. Mas me aconselharam a ler Vergílio Ferreira, um dos grandes escritores portugueses. Devolveram o meu xampu, liberaram o meu passaporte, permitiram que eu fechasse a mala e me deixaram passar.

         Atravessei a porta de vidro da ala internacional, caminhei apressado pelo saguão e saí do prédio para entrar no Porto. A cidade estava lá, bordada contra o céu molhado. Cá dentro do peito, uma emoção de Pedro Álvares Cabral às avessas.

  

12.26.2005

Razões para viver

Eu era amigo do Hominho, que se chamava Anselmo. Ele era filho de dona Alta, que se chamava Altamira. Ela era amiga da minha mãe, em Baixo Guandu, a cidade plana, quente, de ruas longas e retas na ponta do triângulo formado pelo encontro dos rios Doce e Guandu. As duas eram da Congregação Mariana e usavam véu preto quando entravam na igreja. Com a diferença de que minha mãe usava roupas coloridas, vestidos brancos com bolinhas azuis, saias vermelhas e blusas cor de creme. Dona Alta, para lembrar o marido morto, usava preto e duas alianças grossas no dedo anelar da mão esquerda.

Hominho e eu, a gente tinha oito anos, mas ele era mais baixo. E também era mais ágil e mais veloz para subir em árvores, atravessar rio, correr pelas ruas quando alguém, mais alto ou mais velho, corria atrás de nós. Eu tinha duas cachorras, a Mimosa e a Malvina. Na casa da dona Alta só tinha galinhas e porcos.

E eu estava lá, na casa dela, esperando a hora certa da minha mãe e dona Alta apanharem os véus, os missais e os terços, e saírem pra Igreja. Era em momentos assim que Hominho e eu cometíamos o nosso pecado preferido: caçar lagarta-fogo debaixo do clube, um casarão com a porta principal virada para a praça e os fundos com pernas compridas enfiadas nas águas do rio. O lugar era a nossa piscina, sendo as vigas de madeira entre as pilastras os nossos trampolins. E era também um bestiário, com lagartas, marimbondos violentos, borboletas amarelas, ninhos de passarinhos.

Mas na hora de sair, dona Alta ouviu o ruído no quarto dela. Vinha de algum lugar, era fino, insistente, como um coro de recém-nascidos à procura da mãe. Ninguém mais ouvia, só ela. Por isso, todo o mundo se amontoou no quarto, em silêncio, até que Hominho desse o alerta:

-Ouvi! Ouvi! É no guarda-roupa!

Dona Alta abriu a porta do armário grande, de madeira brilhosa. Tirou casacos guardados em sacos de plástico com naftalina, tirou cobertores grossos, tirou caixas, embrulhos e pacotes. Aí, gritou:

-Ah, meu Deus! É rato!

Hominho e eu pulamos na frente das mães. Passamos entre as pernas agitadas delas e olhamos para dentro do guarda-roupa. No canto, quatro filhotes, menores que dedos, com peles tão finas e sangüíneas quanto lábios de gente muito branca, tão delicados e ingênuos quanto olhos de crianças, procuravam a mãe, que tentava fugir com eles pela boca.

Dona Alta voltou para o quarto com uma vassoura grande, de cabo comprido. Mas minha mãe pediu:

-Vamos embora, Alta. A missa já deve ter começado.

E ficamos nós dois com a incumbência de dar sumiço nos bichos do guarda-roupa. Dona Alta explicou, palavra por palavra:

-Não presta, não serve pra nada, é horrível saber que isso existe. Mata e joga fora.

E ainda explicou:

-As roupas e as caixas, pode deixar. Quando eu voltar da missa, vou limpar o guarda-roupa com álcool para depois arrumar tudo outra vez.

Quando as duas mães saíram para rezar, com os véus, os missais e os terços, Hominho e eu nos agachamos em frente da porta do armário. Os ratinhos se espreguiçavam, esticavam as pernas e os braços, enrugavam as caras, apertavam os olhos pequenos, como se viver fosse atravessar a nado um rio largo, caudaloso e bravo. Com uma força magnífica, abriam as bocas à procura das tetas da mãe.

-Vamos levar eles embora?

Fui eu que tive a idéia.

-Mas a mãe falou pra matar e jogar fora.

-A gente não mata. Só joga fora.

E aí tiramos os sapatos pretos de dentro da caixa. Agarramos a mãe pelas patas, abraçamos os filhotes nas mãos e guardamos a família inteira debaixo da tampa de papelão.

O sol estava bravo quando pegamos uma das ruas muito retas de Baixo Guandu. Atravessamos a praça, descemos a ribanceira ao lado do clube e chegamos, então, no nosso esconderijo com piscina, trampolim e bestiário.

Lá, abrimos a caixa e soltamos a mãe com seus filhotes. Ela cheirou a viga com aflição, rodou sobre o próprio corpo várias vezes, arrastou o rabo na madeira e voltou para os quatros filhos miúdos, quase invisíveis, quase como orvalhos cor-de-rosa vivo. Depois, fomos para casa, pusemos os sapatos de volta no lugar certo e saímos para outro grande pecado, que era o de ir até o cercado da prefeitura para futucar os cavalos, que reagiam com coices bravos.

Por qualquer razão, talvez até falta de tempo, ou coisa mais banal, ou motivo mais sério ainda por entender, nunca mais voltei a Baixo Guandu. Só me lembro do delta das águas, do calor, das ruas muito retas e entrecruzadas. Lembro também dos véus, dos missais e do sino da igreja. E me lembro de 30 anos depois, quando minha mãe me perguntou, como quem, subitamente, puxa pela memória a notícia que já era para ter sido dada há mais tempo:

-Sabe o Hominho?

Olhei para ela, sentada na sombra da castanheira na beira da praia. Os olhos da minha mãe brilhavam. A boca se preparava para anunciar a tragédia. Eu ainda estava em silêncio, na observação desse desenho materno, quando ela completou a frase:

-Se matou.

Esperou que eu reagisse. E continuou:

-Tem uns dois anos já. Encontrei a dona Alta e ela me disse.

Então eu me remexi por dentro para querer saber as razões para se matar.

-Coitado, não agüentou. Tinha dívidas enormes, a mulher dele foi embora com os filhos. Chegou um dia em casa e deu um tiro nas têmporas. Que horror, meu Deus.

Pensei nele. E aí lembrei também que Hominho era capaz de atravessar, como ninguém, o encontro do Guandu com o rio Doce. Que sabia subir, sem escorregar, as pedreiras do morro atrás da serralheria. E que sabia levar ninho de passarinho de um lugar para outro sem machucar os ovos.

Mas foi então que voltou a voz da dona Alta, quando saía de casa, amarrada no luto, presa ao missal. Foi ela quem disse:

-Não presta, não serve pra nada, é horrível saber que isso existe. Mata e joga fora.

12.25.2005

A traição

Ti-Jean e Chris tinham uma vida inteira de coisas em comum. Além de serem amigos de infância, desde os primeiros dias de ir à escola, eram também, os dois, cada um do seu jeito, muito bonitos. Ela, a Chris, se serpenteava quando caminhava, com passos lentos, pelas ruas de Sète, onde a França se despenca em falésias para dentro do Mediterrâneo. Ele tinha o andar empinado, rígido, e, sem se importar com dias quentes ou dias frios, escondia as mãos nos bolsos.

Ti-Jean tinha os olhos insuportavelmente azuis e, por serem grandes e redondos, refletiam o azul contra o sol, contra a lua, contra as lâmpadas de dentro de casa. Ela tinha olhos amendoados, verdes, e, por isso, era conhecida como “Chris aux yeux de chatte”. Era Chris dos olhos de gata. Moravam juntos e dormiam na mesma cama do apartamento velho perto do mar. Numa almofada grande da sala, dormia Rita, chamada Ritá. Era a cadela sem raça, preta, de pernas compridas e olhar sonhador.

Ritá era uma farejadora contumaz. Cheirava tudo. De manhã bem cedo, esfregava o nariz na cama onde Ti-Jean e Chris tinham passado a noite. Vasculhava cada pedaço do lençol e das fronhas, numa intimidade assustadora e ciumenta. Depois, entrava no banheiro grande, de paredes pardacentas, e cheirava a toalha pendurada, o rolo de papel higiênico, a borda da banheira, a calcinha ou a cueca deixadas no chão.

Mas sonhava por Ti-Jean e era ele quem ela mais cheirava. Com o focinho úmido e gelado, percorria os óculos dele, à procura dos olhos azuis cintilantes. O nariz preto e carnudo arfava, se dilatava num ritmo acelerado e miúdo, enquanto cheirava as pernas dos óculos desde a parte atrás das orelhas até as lentes grossas, de míope grave. Gostava também de lamber as sobrancelhas do homem com quem sonhava.

Um dia, as coisas em comum se embaralharam, se intricaram, ficaram confusas e Ti-Jean e Chris decidiram que não iam mais viver juntos. Ele foi ríspido, seco, e viajou para Paris. Queria, finalmente, procurar emprego na cidade onde tinha nascido e que tinha deixado anos antes para viver no calor do sul do país. Chris e Ritá ficaram. Chris chorou na cama, atrás da porta, na cozinha, no banheiro, nas escadas do prédio e nas ruas, por onde andava malemolente e bela com os olhos verdes infernais. Ritá, não. Esperou três dias no corredor onde se abria a porta da rua. Depois, esperou na cozinha, no quarto e no banheiro. Mas não chorou. Apenas esperou.

Até que Chris chegou em casa e não encontrou a cadela preta. Procurou, primeiro, em todos os quartos e cômodos trancados do apartamento velho e imenso. Foi desde a porta da rua até o último quarto, nos fundos, atrás da parede onde ficava a lareira abandonada. Depois, procurou nas ruas, nas praças, nas alamedas. Pôs anúncios em bares, cafés e restaurantes.

E só aceitou o sumiço quando, um mês e meio depois, Ti-Jean voltou para fazer as malas de vez e apanhar Ritá, que havia desaparecido. Ele, com o rosto vermelho e os olhos azuis molhados de lágrimas traídas, xingou e acusou Chris que, então, se trancou no quarto e chorou sobre os olhos verdes.

Mas oito meses depois, ele voltou a aparecer em Sète, e viu, de perto, com uma proximidade quase provocadora, que Chris, sem sair do apartamento grande, inútil e velho, de paredes pardas, esquecia-se dele aos poucos. Para isso, ela abraçava, beijava e ouvia palavras de amor de Luc, o provençal, com olhos castanhos como os de Ritá.

Assim, Ti-Jean disse que ia ficar na casa de Poupette, a amiga enfermeira e gorda, que morava fora da cidade, num campo rodeado de lavandas e rosmaninhos. E foi lá, caminhando no bosque francês, de árvores mansas e flores suaves, que ele, um dia, ouviu um latido fino, sonhador, vindo de um quintal cercado por muro alto.

Olhou pelo portão. Lá dentro, a cadela preta, de pernas compridas, brincava com uma bola, vermelha e azul como a bandeira da França. Da sala da casa, uma mulher viu Ti-Jean no portão. Devagar, com cuidado e atenção, abriu a porta para perguntar o que ele queria. E chamou a cachorra:

-Milou!

E foi quando a Milou se levantou para ir até a mulher, que Ti-Jean, com o coração contorcido, com a voz embalada pela saudade, também chamou:

-Ritá!

A cachorra parou. O som veio de longe, de algum lugar remoto, de memórias velhas. Surpresa, olhou para o portão. Esperou, arfou o focinho e, só então, se preparou para correr em direção aos antigos olhos azuis. Pôs as patas da frente nas grades do portão, abanou o rabo e ganiu baixo, fino. Era o coração dela que também se contorcia. Em seguida, enquanto a mulher se aproximava, Ritá correu para dar a volta em todo o quintal. Ti-Jean e a mulher já estavam próximos um do outro. A cachorra apareceu na rua, solta e tonta de felicidade.

Ti-Jean decidiu que não ia explicar nada. O portão estava fechado, a mulher teria que voltar para apanhar a chave. Ele, então, se afastou com passos rápidos e chamou:

-Ritá, viens!

Ela foi. Levantou novamente as patas e se apoiou nas pernas dele. Cheirou as calças, a cintura, as mãos, a braguilha onde permanecia, forte e vivo, o mesmo aroma do lençol de antigamente. Os ganidos eram marcados pelos movimentos firmes e quase desesperados do rabo preto.
A mulher gritou:

-Milou, Milou!

A cachorra abaixou as patas e olhou para o portão. Sorriu. Olhou para Ti-Jean. Chorou com sons finos, quase inaudíveis. Abaixou a cabeça. Ele pediu que ela continuasse ao lado dele, mas a mulher voltou a chamar. Ritá parou.

A mulher e o homem se olharam. A cadela, preta como um pedaço de noite sem lua, voltou para perto de Ti-Jean e cheirou tudo, com a alegria ávida e tresloucada dos reencontros súbitos que não servem para nada, que não aliviam a saudade nem a pena da separação. Então, latiu alto, com raiva, maldade e dor.

Correu de volta pela rua até reaparecer no quintal, atrás do portão. Sem tirar os olhos de Ti-Jean, viu quando ele se afastou e começou a ir embora. Ela lambeu a mão da mulher e, mais uma vez, com ansiedade, correu para fora. Ele acelerou o passo, como quem foge, e ela acompanhou Ti-Jean. E chegaram na curva, onde a estrada estreita se sombreava com as copas das árvores mansas.

Ela parou e ficou sentada. Queria só ver Ti-Jean mais um pouco e esperava que ele desaparecesse das vistas dela. Ele, antes de sumir, ainda se virou para trás e pediu, sem dizer nada. Ela não se moveu. Ti-Jean olhou para a frente, como um homem traído, incapaz de contar o que sente e o que dói. Quis ficar, quis falar, mas foi embora.

Ela latiu e os latidos, debaixo das árvores de grandes copas, falavam dos olhos azuis dele, que não esqueceria nunca. Tremeu o focinho, guardou para sempre o cheiro de Ti-Jean e, sem querer deixar dúvida sobre a façanha de ser feliz após cada traição, voltou para casa.

11.28.2005

O vizinho

Quero falar de um homem, que é o meu vizinho. Talvez, com quase absoluta certeza, o meu cachorro Negão seja mais indicado para falar dele porque foi ele, o cão, que chegou perto, cheirou e ofereceu a cabeça para que a mão do homem tocasse e acarinhasse. Eu, não. Eu fiquei apenas com a parte que nos toca, que são as palavras.

O meu vizinho usa, sempre, bermuda e camiseta de aposentado. Tem cabelos grisalhos. E os olhos baixos, como quem olha para a terra e nunca para as pessoas. A primeira vez que nos vimos era de manhã muito cedo, quando o sol ainda é úmido e doce e se espalha sobre a grama como se pudesse gotejar.

Ele estava lá, em pé, em silêncio. Passei perto, não disse nada. Ele não deve ter me visto. Olhava para o chão e para a grama radiante com o sol dos primeiros minutos do dia, que são sempre calmos e serenos. Talvez seja mesmo verdade que ninguém sofre entre as cinco e meia e as seis horas da manhã.

Dias depois, conversamos. A conversa, na verdade, começou entre o meu vizinho e o Negão, que se aproximou para cheirar o ponto do chão para onde ele olhava de maneira persistente e fixa. Ele, o vizinho, sorriu. Negão se aproximou e cheirou as pernas, as mãos, a barriga. Aí, ficou sentado e recebeu carinhos na cabeça.

Nós dois fizemos a nossa parte:

-Bom dia.

-Bom dia.

Um ano antes, eram três da madrugada quando bateram na porta da casa dele para avisar que o carro do filho único, de 24 anos, tinha se espatifado contra uma árvore. O corpo esperava para ser enterrado.

Ele me contou isso como se já não fosse nada de mais. O filho único estava morto. Até mesmo olhei para os olhos deles para ver se algum sinal, alguma dor, lástima, pena, dó, saltava das pupilas. Tudo estava intacto.

Cinco meses depois, a mulher dele, por não agüentar a certeza da morte do filho, decidiu tomar o mesmo rumo. Deixou o coração se arrebentar e foi embora. O vizinho então ficou no apartamento igual ao meu: três quarto, mais um para a empregada, dois banheiros, sala, cozinha e área de serviço.

Mas na cozinha e na área de serviço, e também no corredor que leva para os quartos, as paredes estavam furadas por pregos onde ele pendurava as gaiolas dos passarinhos. De tamanhos, cores e penas variadas.

Era lá, no apartamento, que o homem sozinho, sem mulher e sem filho, convivia com uma multidão que cantava, batia as asas, pulava de poleiro em poleiro e, mais que tudo, mais que nunca, mantinha viva a vida. Porque a vida é como os olhos: coisa pequena, delicada, apenas uma película muito frágil, e que, ao mesmo tempo, é capaz de abarcar o mundo inteiro.

Era isso que ele entendia quando estava acompanhado dos seus passarinhos espalhados pelo apartamento vazio. Até o dia em que ele colocou ovos numa panela com água no fogo para, depois, alimentar os amigos.

E, aí, procurou o sofá para se sentar. Sentado, pensou na mulher, no filho, era fim da madrugada, não tinha barulho que viesse de fora, e ele dormiu sentado. Quando acordou, uma fumaça densa saía da panela deixada em cima do fogão. A água tinha fervido e secado. Os ovos estavam pretos, queimados e grudados no fundo da panela.

Ele tossiu quando entrou na cozinha. E nas paredes, em todas as paredes da casa onde tinha gaiolas penduradas, estavam os corpos dos passarinhos sufocados.

-Eu abri as gaiolas, uma por uma. Peguei os passarinhos, um por um. Coloquei em cima da mesa, um corpo ao lado do outro. Ao lado deles, minha mulher e meu filho. Era como se eles dois estivessem ali também.

Ele desceu as escadas do prédio, o mesmo prédio em que eu moro, e foi até a grama, que ainda estava escura no fim da madrugada. Com uma colher, abriu pequenos buracos e enterrou todos, um por um. Até que, finalmente, conseguiu também enterrar, de uma maneira pessoal e particular, a mulher e o filho.

O Negão cheirou a mão dele, sem tocar o focinho. Ele acariciou o cachorro, outra vez. Nós, de novo, fizemos a nossa parte:

-Deve ser difícil para você.

-A gente se acostuma. E vai levando a vida.

Olhei para o Negão, calmo e firme como um anjo, sentado sobre a terra do pequeno cemitério do meu vizinho.

11.24.2005

Uma coisa que aprendi com ele




O meu cachorro Negão, que, quando não está encardido, é todo branco, e mede 1,75m em pé, o que basta para que passe a língua na ponta do meu nariz sem grandes esforços, tem alguns medos. E é incapaz de negociar, já que faz questão de deixar bem claro que medo é medo, e que ser adulto não significa desmerecer o que grudou à personalidade desde os primeiros meses de vida.

Ele tem medo de cachorro pequeno, destes bem miudinhos, que levam a vida como bibelô. Quando eles latem irritantemente fino, várias vezes, o meu Negão recolhe as orelhas, guarda o rabo e se esconde, inteiro, atrás das minhas pernas. Talvez por tique nervoso, lambe o próprio focinho várias vezes, o que serve para mostrar a angústia que está sentindo no momento do cruel ataque do cachorrinho, que costuma vir com laços nas orelhas ou no alto da cabeça.

Tem medo, ou seria melhor dizer pânico, do barulho dos plásticos ao vento. E nisso é irredutível: não entra em carro que tenha, solto no banco traseiro ou dianteiro, alguma sacola de supermercado, não anda do lado do meu corpo onde estiver a mão que carrega compras de padaria e mercearia e, principalmente, se arrepia até os confins do rabo quando vê imensos sacos de lixo deixados na calçada à espera do caminhão de lixo.

Também se assusta com pessoas, qualquer uma, que se aproximar com alguma coisa, qualquer coisa, na cabeça. Pode ser chapéu, boné, filho novinho levado no cangote do pai, vendedor ambulante que carregue espelhos, cestos de vime, trouxas de artesanato.

Estes medos são coisas dele e eu respeito. Também respeito os faniquitos dos amigos humanos quando gritam diante de baratas ou ratos, que, a bem da verdade, são bichos que não me provocam nada – nem asco. Compreendo (sem esconder um certo risinho, é bom que se saiba) quem tem pavor a túneis, barcos em mar aberto, trovões e relâmpagos, assim como espero que compreendam o pânico primordial que se instala no meu corpo quando tenho que me sentar numa poltrona que, depois, levanta vôo e cruza os oceanos.

Mas, às vezes, acontece que o meu Negão não mostra medo. Mostra, pelo contrário, desagrado e certa revolta. Sei disso porque os pêlos da nuca se arrepiam, ele dá dois passos para trás e se coloca em posição de ataque. Já tentei convencer o meu cachorro de que não gostar de uma ou outra pessoa é contingência da vida em sociedade, mas que, por isso mesmo, é preciso uma certa diplomacia e um bom fingimento sobre estar tudo bem. Ele discorda. É sincero e espontâneo demais.

Na padaria onde gosto de tomar o café da manhã nos domingos, depois de uma longa caminhada a dois, veio, uma vez, uma moça loira fazer afagos no Negão. Chamego é coisa que ele nunca recusa, mas, desta vez, notei, logo na primeira aproximação, que os arrepios do pêlo da nuca tinham começado.

A moça bonita e loira falou:

-Mas que cachorro bonitão, meu Deus do céu.

Que ele é bonito, eu sei. Todo mundo sabe e quem não percebe isso é insensível e insensato. Ou incapaz de se enternecer com as belezas que a vida oferece. Pelo tom de voz da moça bonita, vi que era um travesti: uma voz que nasceu para ser rouca e que, a custa de alguma esforço, se afinou com falsidade e, por isso, ficou mais bamba na boca do que dentadura de dentista ruim.

Ele latiu. Achei estranha a reação porque, com toda a sinceridade, não criei um cachorro para ter rejeição à vida íntima das pessoas. A moça ainda insistiu um pouco e quis se aproximar mais. O meu Negão se levantou, mostrou que era alto, e latiu de jeito bem grosso, que é um latido que ele reserva para situações extremas.

A moça então, com um sorriso gentil, doce e compreensivo, me contou:

-Não é culpa dele, sabe? É que sou alcoólatra.

E me olhou. Eu olhei também e alguma coisa, tão frágil e imperceptível quanto o sereno do começo das noites, me convenceu que ela, apesar de bonita, já tinha se acostumado a ser evitada e pouco amada. A moça, então, ficou parada ali, em pé, na frente do Negão. Tudo nela queria fazer carinho nele e tudo nele queria evitar o que devia tresandar a bebidas. Ela pedia carinho, de quem fosse: meu, do meu cachorro, das outras pessoas na padaria. Sabia sorrir, mas era sorriso vazio, solitário, perdido.

Acariciei a nuca do meu Negão. Ele se acalmou. Pouco a pouco a moça bonita chegou mais perto. O meu cachorro ainda relutou um pouco, mudou de posição algumas vezes, lambeu o focinho, que é coisa que faz quando está ansioso. Mas, depois, de mansinho, deixou que a mão dela tocasse o pêlo branco dele.

E foi bem ali, naquele momento quase banal em varanda de padaria, que compreendi mais ainda o que tenho tentado compreender há anos. Que é também com a sinceridade das nossas próprias mazelas, amarguras, infelicidades, azares, que a gente ganha e merece afeto, carinho e doçura.

Ele não desejou nem quis que ela deixasse de ter o cheiro das bebidas. Fechou os olhos cor de mel e aceitou o afago. Esta capacidade de ser bom e de amar a pessoa exatamente como ela se apresenta é o que estou aprendendo com o meu Negão.

11.17.2005

Os dois filhos de Shantung

Vítor Emanuel era mais velho que Miguel, mas eram, os dois, filhos de Shantung, a gata que se recusou a morar em Brasília e se mudou para a Vila Mateus, a casa da roça, com varanda, janelas azuis e parede branca e plantas e flores que nunca freqüentaram xaxins ou vasos de cerâmica. Desde que nasceram, viveram sempre em latas de óleo furadas no fundo a golpes de prego.

Vítor Emanuel era magrelo, com olhos enormes, todo preto. Apenas uma marca branca no pescoço, debaixo do queixo, parecia ser uma gravata borboleta. Por isso, por essa elegância de berço, recebeu nome pomposo, que ele sempre recusou, por ser do campo – sendo, desta forma, conhecido como Flecha. Mas era Vítor Emanuel. Pelo mesmo para mim.

E era Flecha por causa da extrema velocidade, em qualquer situação. Para correr atrás de fêmeas, para afugentar machos, para se recolher diante de qualquer ameaça de afago que era, das atividades humanas, a que ele mais detestava e evitava. Somente a mãe, a pequena Shantung, tinha autoridade sobre ele, inclusive para dar lambidas amorosas e patadas violentas.

Miguel era o contrário: gordo, muito gordo, todo branco, com um traço preto entre os olhos, como se fosse uma pincelada fortuita da Tomie Otaki. Por isso, não era bem um gato. Era uma instalação artística. Além disso, era a felicidade com formas de felino.

Tudo nele era feliz. O meneio do rabo, os movimentos precisos das orelhas, o olhar esperto, a gordura excessiva, a brancura do pêlo e o miado sedutor. Além disso, de uma maneira muito peculiar, Miguel tinha nascido para ser rico e viver no luxo, para dormir em almofadas de seda oriental, para beber água mineral francesa e comer filé minhom.

Quando a mãe morreu, Miguel subiu no galho mais alto da árvore mais alta do quintal da Vila Mateus e ficou lá um dia inteiro. Queria, a seu modo, evitar a visão da tristeza que foi enterrar a dona da casa. Ele tinha a obrigação de ser feliz. Tinha sido gerado para isso, Miguel sabia.

Vítor Emanuel, que nunca entrava na casa, que nunca relaxava nem mesmo quando se deitava ao sol no muro baixo da varanda, que não consentia aproximações humanas, ficou subitamente imóvel diante do corpo de Shantung. Depois, passo a passo, como se pisasse em veludo precioso, chegou perto e cheirou, como se não quisesse tocar, todo o corpo da mãe. Depois, cheirou também demoradamente o ar, olhou, pela primeira vez, para cada uma das pessoas que se reuniam em volta do corpo, deu um pulo grande, forte, até o alto do portão da cerca e observou a paisagem goiana.

De lá, foi embora depois de se despedir apenas da mãe, e de mais ninguém. Sem olhar para trás, sem se importar com os três anos de vida vivida ali na casa branca de janelas azuis, desapareceu para sempre. Eu ainda esperei Vitor Emanuel, o grande Flecha, por alguns dias. Ainda coloquei água e comida para ele, no mesmo canto da varanda, mas, pouco a pouco, compreendi que era ela, a gata bonita, a única razão para ele conviver entre pessoas. E se ela tinha ido embora, era chegado o momento, para ele, de fazer a mesma coisa.

Miguel, não. Dias depois da morte da mãe, virou adulto. Perdeu alguns quilos, resolveu ser esbelto, e ganhou um interesse vivo, acentuado, premente, por todas as gatas da vizinhança. E cada uma delas, grávida, ia morar no quintal da Vila Mateus. Às vezes, a ninhadas nascia debaixo do pé de lima. Outra vezes, dentro do galinheiro velho. Ou entre os pés de mandioca. Do muro da varanda, Miguel observava, com um certo ar de maturidade, os novos filhos que, com pernas ainda bambas, se aventuravam na grande e inesquecível experiência de conhecer o mundo.

Miguel tornou-se um grande amigo meu. O sorriso dele, permanente, escorria na minha alma com uma gentileza e uma doçura que se imprimiram nas fibras do coração para sempre. Quando subia no meu peito, dobrava as pernas e se tornava um novelo de lã, ronronava como quem conta segredos e faz declarações de amizade eterna.

Na companhia de Lula, o cachorro, ele passou também a cuidar da casa. Lula se ocupava dos outros cães, dos cavalos, das vacas lerdas que insistiam em comer os pés de milho ainda no broto. Miguel era responsável pelas maritacas que iam tomar café da manhã nas bananeiras e no abacateiro, e também se responsabilizava pelos outros gatos machos.

E tinha o dom da coisa. Cada gato que pulava a cerca e se arriscava no território era motivo de alarde e algazarra. Miguel pulava no parapeito da janela, se arrepiava do rabo até os bigodes, emitia sons roucos, apertava as orelhas para trás e partia para o ataque, com um sorriso de satisfação imenso. Quando a luta acabava, ele voltava, com o rabo e os pêlos mais reluzentes e felizes do que nunca, e contava os detalhes da batalha. Miava alto, como para anunciar que o reino ainda era dele. E, depois, se enroscava no cobertor eternamente estendido sobre a cama de casal, unhava cada pedaço dele, e só então se deitava.

Até que um gato aventureiro foi mais forte e traiçoeiro. Nem mesmo Lula conseguiu acudir a tempo. Uma mordida forte no pescoço paralisou Miguel, que caiu no chão com a brancura do pêlo manchada de vermelho vivo e jovem.

Olhei para ele. Acho que ainda sorria. Era um sorriso suave, amigável, o que marcava a boca do Miguel, deitado na laje debaixo do caramanchão de boungainvilles.

Compreendi. Ele tinha vivido e morrido como quis. Na alegria sem fim de ser Miguel.

11.15.2005

O mundo raro

A arraia mora no fundo das partes mais fundas dos rios profundos porque, lá, a comida é boa e farta. Há quem prefira ter uma em casa porque, com o rabo comprido e a leveza no jeito de nadar, como se fosse uma pipa levada pelo vento, ela pode ser enfeite de aquário.

Mas tem ferrão violento, e foi assim que o meu pai, pescando no rio Guandu, no ponto em que ele deságua no rio Doce, sentiu uma ferroada quase mortal no dedo indicador. A dor começa imediatamente. São marteladas fortes quando o veneno entra e faz borbulhar o sangue.

Foi aí que Ronaldo, o companheiro das pescarias, lembrou do remédio mais efetivo contra ataques de arraia: xixi de mulher grávida.

O mundo é lugar de coisas eficientes, mas raras. Quando o rio Guandu encontra o rio Doce e faz um delta manso e barulhento, a paisagem, no extremo oeste do Espírito Santo, fica mais elegante, e o encontro das águas enfeita tudo – o pasto, as taboas, as pedras, o sol refletem os rios e brilham de maneira ofuscante.

E o caráter raro do mundo surge justamente quando, depois de uma dificílima picada de arraia, o acidentado tem que encontrar, ali mesmo, uma mulher que leve filho na barriga. E que esteja com vontade de fazer xixi. Mas, a bem da verdade, o mundo inteiro sempre foi salvo pela conjunção de raridades.

Por isso é que um dos homens que também pescavam no rio Guandu estava para ser pai e sua mulher, já avançada nas artes da gravidez, estava em casa, que não era longe dali.

Enquanto meu pai se contorcia e espremia o dedo ferido com a outra mão, para suportar a dor que insistia em se espalhar pelo braço todo, o Ronaldo pediu:

-Ela pode ajudar?

Ele relutou. Olhou para Ronaldo, olhou para o meu pai. Naquela época, eram todos homens novos, forte e bonitos. E, além disso, um dele estava com o dedo hirto, grosso e inchado. Parecia ser intimidade demais. Mas meu pai já estava sentado numa das pedras da beira do rio e mal conseguia falar.

Chamaram a grávida que veio em seguida perguntar o que era. Explicaram. Ela deu dois passos para trás. Olhou o marido, que também não sabia muito bem o que dizer. Meu pai se deitou sobre a pedra. Já não conseguia dizer mais nada. Os olhos dele, a pele, os cabelos, a boca avisavam que doía.

Ronaldo tentou ser razoável:

-É como todo o respeito, não é hora de abusar de ninguém.

A emergência, então, foi montada. O marido, cuidadoso, providenciou um pedaço de pano que foi usado para cobrir os olhos do meu pai. Foi ele também, o marido, que esticou o braço do meu pai sobre a pedra pra que mão e corpo ficassem na maior distância possível um do outro.

Os outros pescadores foram retirados do local, ficando apenas a vítima, a grávida e o pai da criança por nascer. Foi nesse momento que ele perguntou:

-Sua bexiga está cheia?

Não estava. Ele foi até a casa, apanhou uma moringa pequena e um copo. Ela bebeu. Voltou a beber. Bebeu mais. Esperou. Meu pai se contorcia. Ela, talvez até por dó, sentiu que estava na hora. O marido apertou mais ainda o pano sobre os olhos do meu pai e chamou a esposa:

-Vem.

Ela se aproximou, retirou a calcinha, levantou um pouco o vestido e, em silêncio, agachou-se sobre a mão do meu pai. Fez um pequeno esforço e, aí, o xixi, quente, vibrante, forte, tocou o dedo ferido. A vítima ficou imóvel, à espera do milagre.

E, depois, ela mesma, por saber, como esse jeito feminino de saber quase tudo, que era capaz de criar vida, alimentar, ensinar a falar, empurrar para crescer e ficar forte e, também, capaz de salvar, espalhou, com a própria mão, o xixi sobre o dedo ferido, como quem espalha ungüento em machucado de filho.

Vestiu a calcinha e avisou que o pano já podia ser retirado dos olhos do meu pai. Eles se olharam, com timidez, mas ele sabia que era devedor dela. E sabia também que o sexo feminino é muito mais do que um homem pode supor ou querer. Ele é a porta do mundo.

Meu pai agradeceu em voz baixa e ela, em voz baixa também, disse:

-De nada.

E voltou para casa. Os pescadores voltaram pouco a pouco. A dor se rendia, o dedo começava a relaxar. Meu pai continuou sentado sobre a pedra, ouvindo o barulho constante, ritmado, gentil das águas do rio Guandu entrando para sempre no grande rio Doce.

E viu, com os olhos dele, que tudo brilhava: as terras baixas do Espírito Santo, o pasto que ladeava os rios, as pedras roliças e lisas, o céu e as coxas da mulher, que também devem ser mencionadas quando se fala das belezas do mundo raro.

11.14.2005

O primeiro final de semana

Parece que ...E por falar em homem... está dando certo.
Casa sempre cheia de gente, cadeirinhas extras.
E,sobretudo, acabaram-se os desastres.

Exceto, ontem, claro. Contei uma historinha, o público caiu na gargalhada e eu não resisti. Ri junto.
E ri, ri, ri, ri.

Na cabine, Abaetê, o iluminador, dava gargalhadas deliciosas, irresistíveis.

Sensações deliciosas:

-chegar ao teatro e a bilheteira informar, com um sorriso gostoso, que já está tudo vendido;
-ouvir o burburinho animado do público naqueles cinco minutos antes da peça começar;
-ouvir o silêncio súbito quando é dado o terceiro sinal e a luz se apaga - é quase uma solenidade, isso;
-ajeitar-se na coxia, pigarrear, esfregar as mãos quando faltam 30 segundos para você colocar o pé no palco e
-pisar no palco e encarar as pessoas que, com apreensão, esperam para ver o que vai acontecer.

Isso que acabei de dizer aí em cima é como se fosse um vício. O prazer entrar no sangue da gente e, pronto, você sempre quer mais uma dose.

Bom, a partir de quinta tem mais. Aleleuia.

11.12.2005

A estratégia dos tomates

A Turca morava, ela e um cachorro, num casarão antigo, amplo, estranhamente vazio. Ela era bonita, e os cabelos dela, pretos, crespos e alvoroçados, quando estavam presos por uma fita, lembravam um ramalhete de flores, ramos e capins prontos para serem dados de presente.

Mas o casarão era estranho. A porta de entrada era grande, tinha duas bandas, que sempre se abriam juntas, como se fosse uma solenidade ir visitar a Turca e entrar na sala onde, perdida no meio de um espaço imenso e silencioso, tinha apenas uma mesa simples, de madeira, e seis cadeiras que combinavam.

E era lá que minha mãe, a costureira da cidade, ia quando queria comprar lingerie, malhas, lenços finos e exemplares da revista alemã Burda. Os produtos da Turca estavam sempre empilhados em cima da mesa, como se a casa dela fosse uma loja em permanente liquidação. Zelosamente, minha mãe enfiava a mão no monte de panos e puxava, pela cor, o que achava mais bonito.

Eu não gostava do casarão da Turca. Tudo parecia triste, solitário, encardido. E a imensidão do espaço me deixava desorientado. Por isso, eu me sentava numa cadeira e ficava ali, sem dizer nada, à espera do fim das compras.

Mas a Turca sabia tratar bem os fregueses dela. Então, olhou para mim e me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Em situações assim, estando na casa dos outros e recebendo uma oferta, um ritual sagrado tinha que ser comprido à risca. Antes de responder, era obrigatório, para mim ou para qualquer um dos meus dois irmãos, olhar, com discrição, para a minha mãe e esperar pelo consentimento ou pela proibição, que vinham em forma de um leve, imperceptível para olhos não acostumados, meneio da cabeça.

Eu fiquei calado, sem olhar para os lados. A Turca insistiu:

-Um doce de tomate. Delicioso. Quer?

Senti um fio fino, gelado, percorrer todo o meu corpo. Não conseguia supor o que poderia ser mais tenebroso do que um doce feito de tomates. Mas a minha mãe, em pé perto da mesa, dirigiu os olhos para mim e balançou a cabeça, suavemente, de cima para baixo. Isso não era apenas um conselho, uma sugestão para aceitar. Era uma ordem. Com a garganta seca, com um fiapo de voz, temendo pelo futuro, respondi:

-Sim, senhora.

-E você, Irene, aceita também?

-Não, obrigada.

Odiei minha mãe.

Alguns minutos depois, a Turca voltou da cozinha. Atravessou a sala com passos solenes, fatais, em minha direção. Eu estava sentado, numa cadeira de espaldar reto, perto da janela. Na mão, ela trazia um prato pequeno onde estava deitada uma colher inocente ao lado de uma pasta assassina, cruel, vermelha, como se fossem lavas do inferno. Era o doce de tomate.

As duas voltaram a se entreter com as malhas. Dei a primeira colherada. Um sabor de gororoba tocou a ponta da minha língua. Fechei os olhos, deixei o doce se desmanchar na minha boca, parei de respirar e, só então, engoli. Eu não ia resistir e não sairia vivo da experiência.

Olhei para a imensa vermelhidão no prato de sobremesa. Cheguei mais perto ainda da janela, encarei o quintal, fiquei de costas para as duas e, de uma vez só, como se tivesse ouvido um disparo que anunciasse o começo da corrida, joguei o doce fora. Todo. E, quando me virei para encarar minha mãe, tive o cuidado extremado de lamber a colher.

-Aceita mais?

Fui mais rápido que o olhar da minha mãe:

-Não, senhora. Obrigado.

E me sentei novamente, aliviado, em paz comigo mesmo. Eu havia me livrado da morte por envenenamento e olhava, vitorioso, para as duas torturadoras que discutiam a qualidade da malha.

Foi aí então que ouvimos um pequeno barulho na cozinha. Eram passos miúdos, lentos. Com os olhos sorridentes, com o rabo que se movia lentamente, com um carinho insuportável, o cachorro da Turca entrou na sala e caminhou vagarosamente até a mesa. Os olhos das duas mulheres se dirigiram para o mesmo ponto e eram frios, calculistas, mortais. Das costas do cão escorria uma massa disforme e vermelha. Era o doce de tomate, o mesmo que eu havia jogado fora pela janela que, em vez de cair no chão e se perder na terra, tinha ido pousar nos pêlos do bicho.

Ele se sentou, doce e bom, perto da Turca. A gosma então passou a escorrer das suas costas até o chão. O silêncio e a imensidão da sala aumentaram. Os olhos da minha mãe me procuraram, como se fossem holofotes de campo de concentração. Dentro de mim, três gerações de homens gritaram, impotentes diante do poder daquela mulher de pele branca, cabelos loiros, olhos castanhos, quase pretos, boca carnuda e 1,49m de altura poderosa.

Senti que meu fim estava próximo. Minha mãe dobrou caprichosamente as malhas e as lingeries, como se calculasse vinganças. Com um tom de voz perigosamente educado e controlado, disse que, desta vez, não ia comprar nada. Elas se despediram. Quando as duas bandas da porta se trancaram e nós ficamos sozinhos na calçada, a mão de minha se fechou em volta do meu braço e as unhas, pintadas de vermelho, entraram, lentamente, na minha carne.

Era uma dor fina, ardida, insuportável. Aquele apertão materno, sempre dado em ocasiões sumamente especiais, era um treinamento para todos os sofrimentos futuros que a vida pudesse me reservar. A voz dela veio firme, baixa, imponderável:

-Em casa a gente conversa, senhor Alexandre.

Ninguém, na rua, parecia se dar conta de que eu tinha acabado de ser jurado de morte.

11.11.2005

Relato simples e sincero da estréia



9 da noite. O Teatro Goldoni, aconhegante e simpático, está bem cheio. Cadeiras extras e gente sentada no chão. Eu, sozinho lá no camarim, dou minha rezadinha de costume. Dou também uns três ou quatro pulos para sair do torpor da ansiedade, e me preparo para entrar.

Cai um toró. Destes brasilienses, de rachar o globo terrestre no meio. O teto do teatro se transforma num pandeiro enlouquecido. Para começar a peça, tenho que levantar uns dois tons da minha voz, o que não é tão simples quanto parece: eu vinha de três meses de ensaio com a voz colocada de uma maneira, que teve que ser alterada. Imaginem algo como um corredor que treina 100 metros e chega no dia e avisam que vai ter que correr 200m.

A peça vai em frente. Gargalhadas. Estréia é assim mesmo. Agitação, vontade de gostar.

Um raio cai. Explosão. E, de uma vez só, como um susto, acaba-se toda a luz do teatro. Escuridão absoluta. Uma voz pede:

-Continua! Ouvir também vai ser bom!

Um rapaz liga a luzinha do seu celular, caminha até o palco e me entrega o aparelho:

-Use até acabar a bateria.

Ilumino o meu rosto e pergunto se está bom. Dizem que está perfeito.

Outro celulares se acendem.

Arthur Tadeu Curado, o diretor, chora na cabine. Chora mesmo, de emoção.

A peça continua no escuro.

A luz volta. A peça vai em frente e entra na reta final. Eu, cansado por causa dos malditos dois tons acima.

Fim.

(Hoje é que vão ser elas. Não é mais estréia. É temporada mesmo. Destas que tem que ter gente comprando ingressos todas as noites para podermos ganhar dinheiro e seguir em frente.)

11.10.2005

...E por falar em homem...

É HOJE!!!!!!!!!!!!!!!!!

ÀS 21H ESTAREI ENTRANDO NO PALCO.

OBRIGADO PELOS VOTOS DE MERDA.

E MERDA SERÁ!!!!!

O que sai da boca do homem

O meu amigo Marcelinho, também conhecido como Marcelo Bocão, por questões de características anatômicas marcantes, queria o passarinho. Era um canário capixaba, dos que têm canto delicado e penas muito amarelas. Ainda era novo, não tinha crescido tudo o que cresce um adulto. Mas já era gracioso na hora de pular de um poleiro a outro na gaiola da casa do vizinho.

Foram arquitetados planos. O roubo poderia ser realizado em horas de madrugada alta, quando todos dormiam. Mas esse expediente reservava um certo trauma porque Marcelo Bocão, eu e Marcelão, um trio razoavelmente imbatível nas serras do Espírito Santo, já conhecíamos, de cor e salteado, os perigos dos assaltos noturnos.

Isto porque, pouco tempo antes, tínhamos planejado, com riqueza de detalhes, o roubo do pato do quintal da mãe de Carlotinha, que arrastava as asas para o Marcelão. E foi ele que pulou a cerca, vasculhou o quintal e achou o pato.

Mas as noites capixabas sabem ser frias, quando se trata de inverno. Por isso, o pato, vivo, não podia ser levado na mão com o braço esticado porque o vento, ricocheteando nas montanhas, chegava gelado até nossos corpos. Desta forma, Marcelão guardou o pato dentro do casaco, o que seria um excelente plano se esses animais não tivessem a habilidade de fazer um cocô miudinho, escorrido, rápido e extremamente repetido. Assim, decidimos que o carregamento do pato seria revezado entre nós três para que cada um recebesse, na camisa debaixo do casaco, o seu quinhão de cocô.

Foi por isso que o Marcelo Bocão resolveu que ia ser na marra. De tarde. Entrava no quintal e, pronto, pegava o canário. E fez isso mesmo. Pulou o muro, andou cuidadosamente nas proximidades das paredes, portas e janelas, abriu a gaiola, enfiou a mão e segurou o passarinho de uma vez só.

Ia saindo quando a porta se abriu. Era o homem que, além de ser dono da casa, também atendia pela propriedade do canário. Marcelo, de costas, pensou rápido, elaborou novo plano de escape e, num piscar de olhos, sem refletir muito sobre coisas como conseqüências e acidentes, enfiou o canário na boca. Fechou os lábios e, só aí, se virou para encarar o homem parado na porta.

Marcelinho não dizia uma palavra, mas piava miudinho, como se fosse pássaro novo. Tentava não respirar para que o vendaval não assustasse o bicho que levava na boca. Manteve o controle absoluto dos músculos e dos olhos enquanto o homem descia lentamente as escadas para chegar perto e exigir as devidas satisfações.

E foi aí que Marcelo começou a se contorcer.

O canário, lá dentro, tentou fugir. Ou vasculhar o terreno. Pisava com unhas finas e delicadas. Depois, mais confiante, passou a bicar com força, na tentativa de abrir um buraco por onde pudesse fugir. Marcelo se apertava, se avermelhava, gemia para dentro, como uma pessoa atacada de súbita disenteria.

O homem olhou assustado. Pensou até mesmo em ataque epilético. Marcelo não se controlava mais. Quis fugir, mas, em vez disso, diante de tanta vida guardada dentro do corpo, apenas abriu a boca, sem dizer nada.

Como em momentos de milagres, de dentro da boca de Marcelo, bem em cima da língua picada e arranhada, surgiu um passarinho miúdo, amarelo, bonito. Ele se apoiou bem com as unhas afiadas, bateu asas e, então, voou céu afora até parar, logo em seguida, num galho de pé de carambola.

O homem e Marcelo Bocão se olharam. Já ninguém precisava dizer nada porque da boca de um deles havia saído tudo o que era para ser dito. O dono da casa se preparou para correr. Marcelo correu em alta velocidade, atravessou o quintal, pulou o muro.

Livre das ameaças do homem e do canário, foi, então, para casa, à procura de mercúrio-cromo e algodão.

11.08.2005

Ama.da-Aman.te




Eles entravam no trem aos montes. Traziam caixas, embrulhos, pacotes, trouxas, bundas imensas, bebês seguros em mantas jogadas nas costas e atadas em nó à volta do pescoço. Traziam também engradados de galinhas, ovelhas na coleira, leitõezinhos orelhudos. E falavam em quêchua, a mais oriental de todas as línguas do continente americano, com uma enxurrada contínua de palavras de uma sílaba só, interrompidas por súbitos pontos finais. Para o estrangeiro, o quêchua é uma algazarra de sons agudos, uma ingrezia delicada.

Eu me sentei para esperar, a qualquer momento, o arranco do trem rumo a Huancayo, nos Andes peruanos. Em minha frente, se acomodaram a índia jovem de tranças negras e chapéu e o índio velho de olhos tristes. No colo dela, um galo com penas luzidias, cor de caramelo, e crista vermelha como sangue bom.

Ela era bela. Os olhos eram distantes, como olhar de princesa proibida. Não sorria, mas não era indiferente. O nariz, súbito, grande, brotava do rosto como uma montanha aquilina. Os cabelos pretos eram azuis, presos em tranças que terminavam amarradas por fitas coloridas, amarelo-vivo e vermelho-crista-de-galo. A manta nos ombros copiava, listra por listra, todas as cores do mundo, sem faltar uma. A saia, verde como uma esmeralda, era rodada e terminava nos joelhos, de onde se podiam ver todas as anáguas das mulheres incas.

O galo se acomodou no colo dela como quem tem o hábito de ficar ali, sempre. O colo era a casa dele. Os braços da mulher eram o amparo que ele tinha para sempre. Os lábios dela, carnudos, bonitos, com jeito macio, beijavam apenas a crista dele.

O trem sacudiu e foi. Primeiro, ia de frente. Depois, de marcha a ré. De frente, novamente. De marcha a ré outra vez. Até chegar lá em cima, onde a estrada de ferro era, finalmente, uma reta nas alturas geladas.

O soçobro do vagão pelas montanhas adormecia o índio velho, a índia linda e o galo dela. Encostei o cotovelo no braço do assento, apoiei o rosto na mão aberta e semi-fechei os olhos para observar melhor a mulher apaixonada pelo bicho de penas. Só eles dois se entendiam no alvoroço do trem que falava quêchua. Os olhos dela, mornos, mansos, secretos olhavam pela janela.

O vento frio entrou no vagão. A índia se ajeitou na manta colorida e o galo se escondeu no colo dela. Sem tirar os olhos secretos da janela, como se visse o que eu não via nem imaginava o que pudesse ser, começou a cantar. Tinha o timbre e a doçura das vozes que vêm de longe, que atravessam mares, sobem montanhas, sopram com os ventos, vibram como talo fino de bambu. Só a música era conhecida. De um jeito calmo, seguindo o ritmo do trem, ela cantou Roberto Carlos. Ama.da-Aman.te. Assim mesmo, com pontos e interrupções surpreendentes, como se fosse quêchua.

O homem passou a dormir com a cabeça apoiada na parede do vagão. E, num solavanco sobre a emenda dos trilhos, a cabeça dele caiu para frente. A partir daí, o balanço miúdo da viagem fazia os cabelos pretos e lisos do índio balançarem na testa.

A mulher nova parou de cantar. Falou alguma coisa para o homem. Ele não respondeu. Ela tocou no ombro dele e o peito todo caiu, em direção às coxas. Ela se levantou. Abri os olhos e me ajeitei na cadeira. De tudo o que ela dizia, eu entendia “pápi”, repetido várias vezes, como se fosse um ensaio para o desespero. Primeiro, em voz baixa. Depois, várias vezes, com velocidade. E, então, um grito só que se espalhou pelo vagão inteiro.

O funcionário da estrada de ferro chegou em seguida. Já todos estavam de pé e tudo se agitava dentro do vagão: mulheres, homens, crianças, ovelhas, porcos, embrulhos, trouxas e malas. O trem rangia com dor sobre o aço dos trilhos. A velocidade aumentava, as montanhas passavam ágeis pela janela.

Alguma coisa foi decidida e só eu não sabia o que era. A índia, linda e triste, se sentou novamente ao lado do homem já morto. Abraçou-se ao galo, que não se mexeu, não bateu as asas, não cacarejou. Os dois, mais do que nunca, tinham, agora, olhares de realeza. Somente uma princesa seria capaz de sofrer tanto, e com tanta ternura calma, diante de um defunto.

O trem parou, arranhando os trilhos. O ruído fino, capaz de arrepiar as peles, parecia um lamento espichado, agudo, mórbido. Lá fora, a paisagem andina, com árvores, picos, sol e frio. A índia esperou. Quatro homens puseram o corpo para fora do vagão, pela janela, enquanto dois outros esperavam do lado de fora. Ela, abraçada ao galo, não olhava para nada.

Foi então a hora da índia sair. Ficou de pé, ergueu suavemente a cabeça, protegeu o galo entre os braços e caminhou pelo corredor do vagão. Como uma princesa que caminha entre os bancos da catedral para chegar ao altar e ser coroada rainha, ainda de luto pela morte do pai. Nos braços, levava a mais importante jóia do seu reino inteiro.

Então, pela janela eu podia ver o corpo estirado no chão e ela, em pé, hirta e linda no meio das cores que cobriam o corpo todo. Tentava entender por que era ali, no meio das árvores, nas lonjuras andinas, que eles tinham que descer do trem. Ou, talvez, tinham sido colocados para fora, por questões de morte.

O trem deu novo arranco. Fiquei na janela e vi, cada vez mais longe, mais indefinido, as cores da índia, as penas do galo, o corpo do morto. Mas me tranqüilizei. Sozinha, no exílio, ela não estava. Tinha um corpo quente e querido entre os braços. O galo, a crista, as penas luzidias cor de caramelo, eram, agora, o amparo da amada amante.

Solitário pacífico

Quem olha e encara o Oceano Pacífico se apaixona por ele. No seu jeito azul-chumbo, é irresistível. É mais antigo, mais profundo, maior e mais fértil que o Atlântico, mas o mar que, com forma de S, separa as Américas da África e da Europa tem mais barcos e mais navios, tem mais velas e mais navegantes. O Pacífico é uma solidão imensa. É o sal do silêncio.

A corrente de Humboldt tem comida. Para todo o mundo: para os chilenos, para os peruanos, para os pelicanos, os tubarões. A corrente traz peixe, mas desfalca o céu. Em Lima, que fica nas margens do Pacífico, não chove. As casas, por isso, têm tetos planos, já que nada escorre deles. E os cachorros limenhos, em vez de latirem atrás dos portões, criaram a mania de subirem para os telhados. Vigiam a cidade como se fossem gatos empoleirados.

Em 1972, a corrente de Humboldt secou. Os jornais acusavam a França de fazer experiências atômicas no mar. Os peixes se tornaram coisa rara. Os peruanos, então, abandonaram temporariamente o ceviche e comiam animais da terra. Os pelicanos passaram fome.

Eu estava sentado no banco da praça e observava a barraca de peixes. Era pouco o que eles tinham para vender e era caro também. No muro do outro lado da rua, pousou um pelicano enorme, bonito, pesado. Os pássaros nunca olham diretamente para o alvo, eles dissimulam. O pelicano não parecia assustador.

Em seguida, veio outro e pousou ao lado, no mesmo muro. Poucos minutos depois, mais um. Mais tarde, eram seis, que não se moviam. Estavam inertes, pesados, elegantes. Para o telhado da casa ao lado, vieram outros. Pouco a pouco, já não era mais possível contar os pelicanos que se aproximavam, como se a notícia de peixe tivesse corrido em bico em bico.

E quando estavam todos juntos, começaram a se movimentar no muro e no telhado. Andavam com passos curtos, saltos pequenos, de um lado para o outro. Os pelicanos se esbarravam. Começaram a bater as asas.

E, finalmente, um deles deu o sinal. Levantaram vôo juntos, cobriram o céu de Lima e atacaram a barraca de peixe. O peixeiro foi empurrado por corpos imensos, bicos gigantescos. Caiu na calçada enquanto gritava. Bicos, penas, asas, pés fortes, tudo se alvoroçava em cima da barraca. O cheiro de peixe devorado corria solto pela rua limenha.

E depois, tão rápido quanto haviam chegado, veio o silêncio. O céu ficou limpo outra vez.

As ruas eram pastos estéreis de pelicanos. Na grande avenida central da cidade, parei o carro. Pelicanos lentos choravam a saudade da corrente de Humboldt. Outros carros pararam também e buzinaram. Os pássaros, todos enormes, de olhos mortiços e parados, apenas moviam os pés, sem sair do lugar. O engarrafamento se tornou uma imensa passeata de pelicanos famintos.

Alterei os meus hábitos. Passei a correr entre pássaros imensos, a enxotar aves pescoçudas da porta de casa, de escadarias de museus, de calçadas calmas. Ás vezes, eu parava, tão imóvel quanto eles, e esperava para ver quem perdia a paciência primeiro. Os cães latiam dos altos dos telhados. Lima era um viveiro de pelicanos à míngua. Em silêncio, eles abandonaram o mar e ocuparam a terra.

O Pacífico nunca se sentiu tão solitário quanto naquele ano.

11.07.2005

...E por falar em homem...



Para os brasilienses frequentadores do blog:
A partir do dia 10, no Teatro Goldoni (Casa d'Italia), começa a temporada da comédia ...E por falar em homem...

Com direção de Arthur Tadeu Curado, vou estar no palco para falar de "como é difícil ser homem".

Temporada até dia 20, sempre às 21 horas, exceto aos domingos, que a gente começa a trabalhar mais cedo porque não precisa competir com as telenovelas e, então, vai para as 20 horas.

Todo mundo lá!