11.07.2005

...E por falar em homem...



Para os brasilienses frequentadores do blog:
A partir do dia 10, no Teatro Goldoni (Casa d'Italia), começa a temporada da comédia ...E por falar em homem...

Com direção de Arthur Tadeu Curado, vou estar no palco para falar de "como é difícil ser homem".

Temporada até dia 20, sempre às 21 horas, exceto aos domingos, que a gente começa a trabalhar mais cedo porque não precisa competir com as telenovelas e, então, vai para as 20 horas.

Todo mundo lá!

A descoberta da América





Nunca consegui fazer a diferença entre as penas dos condores e os cabelos dos índios. Eu passava de ônibus, trem, na carroceria de caminhão, camionete, ou até a pé, nas estradas empoeiradas e tortas dos Andes, e olhava para o céu. Lá em cima, na ponta estreita e fina de alguma montanha, sempre estava um ou outro.

Que fosse um condor, era belo e fácil de entender. Mas se fosse um índio, era belo e difícil de entender. Se tem tantos vales, tantas margens de rios, tantas lhanuras, por que escalar montanhas, procurar a ponta delas, e ficar lá, em pé, de cara para o vento, enfrentando o abismo? Talvez porque não haja mesmo diferença entre ele e o condor, sendo os dois habitantes dos lugares mais altos do mundo. Talvez para entender a paisagem. Talvez para procurar lhamas.

O rio Urabamba passava lá embaixo, pulando, com força, sobre pedras na garganta entre montanhas. A ponte, feita apenas de corda e madeira, era cá em cima, com as pontas amarradas em cada margem.

Passar pela ponte, com mochila nas costas, era como tentar se equilibrar em um colchão d’água. E era isso que o americano Andrew e eu fazíamos lentamente, passo a passo. O trem, que vinha de Cuzco, tinha parado no Km 88, que não era nada, nem cidade, nem vila, nem pueblito. Apenas uma estação sem plataforma, sem guichê, sem quem trabalhasse nela. Só uma casa pequena e uma ponte de madeira e corda do lado, sobre o Urabamba.

Descemos, cruzamos o rio e chegamos ao começo do Camino del Inca, que, Andes acima, ia até as ruínas da antiga cidade de Macchu-Pichu. Era por caminhos assim, a pé, que eu tentava entender coisas estranhas, exóticas, desconhecidas, como a América do Sul, de quem o Brasil é irmão desgarrado.

Fomos. Sol e frio. Um verdor intenso, quase insuportável. Cheiro inca de folhas de coca, estrume, lã, pão, batatas. Paramos no fim da tarde e comemoramos o primeiro dia com uma garrafa de vinho. Deixei o Andrew sentado em uma pedra e saí para conhecer as vizinhanças.

No alto da montanha, na ponta estreita onde o mundo acaba para se tornar vento, um condor. Ou um índio. Olhei para frente e vi três animais, dois adultos e uma cria nova. Eram bichos vesgos, altaneiros no equilíbrio sobre um pescoço grande. Os donos enfeitam as orelhas deles com penduricalhos de lã colorida, com sinos. Mascam como se não tivessem mais nada para fazer na vida. Quando me viram, levantaram os rabos curtos e deram um passo à frente.

Não notei que interrompia uma reunião familiar. Eles deram mais passos à frente, como quem vai e fecha a porta. Avancei. Mas um deles avançou mais que eu, já irritado.

Foi aí que desconfiei que o clima tinha uma certa tensão, como no círculo de uma arena. Um dos bichos adultos se preparou. Deu uma corridinha para ver se me impressionava. Mas fiquei no mesmo lugar, impedido de fugir pela curiosidade de ver o que iriam fazer.

E fizeram. Correram em minha direção. Corri deles. Desci o morro e quis dizer ao Andrew, aos berros, que o perigo se aproximava. Mas, por algum motivo que me escapa até hoje, por algum processo que tem o nome genérico de pânico, ou excesso de vinho no organismo, acrescentado ao efeito das alturas, me esqueci como se diziam algumas palavras. Entre elas, justamente, o nome dos animas vesgos e altaneiros.

Mesmo assim corri. Corri morro abaixo. Gritava “atención, atención”. Várias vezes. E por falta de palavra mais correta, mais definitiva, quando passei a correr muito, gritei, de maneira bem comprida, assustadora mesmo, o nome do único outro animal que, eu achava, se assemelhava à família que, aos pulos e passos rápidos, me expulsava do território. Assim, por eles serem de bom porte, donos de línguas grandes e grossas, por terem rabos, quatro patas e a fêmea apresentar tetas cheias, berrei:

-Atencióóón, vaca! Vaaaaaaaaaaaca!

Subi numa árvore, enquanto o Andrew permanecia sentado exatamente na mesma pedra, com olhos calmos. Talvez risse por dentro, coisa que, provavelmente, também faziam os animais que, agora, pastavam.

A mesma surpresa, o mesmo susto voltaram, quando cheguei à casa do Andrew, no sul dos Estados Unidos. Haviam se passado 30 anos sem que um tivesse notícia do outro até aquele dia do reencontro. Entrei num avião em Brasília e pousei lá, em Albuquerque, a cidade no meio do deserto.

A casa era de tijolo cru, como nos Andes. A grama do quintal grande, imenso, tinha o mesmo verde andino. O silêncio embalado pelo Rio Grande, que corria nos fundos, também era peruano. E lá, no meio do verde, perto do rio, no pasto debaixo das árvores, dois animais, como se fossem duas vacas domésticas.

Eram as lhamas de Andrew, que explicou:

-Para que eu não esqueça nunca a América do Sul.

Cheguei perto de Sarah e Ruby. O mesmo olhar vesgo. O mesmo jeito altaneiro e desdenhoso. Os passos miudinhos e certeiros, exatamente como as outras. Os rabos curtos e ágeis. Cheguei mais perto. Aí, pela primeira vez, conseguir tocar o pêlo. Alisei. Fiz carinho no pescoço de Sarah. Chamei Ruby, com voz baixa. As duas se aproximaram.

Três décadas antes, eu estava nos Andes, à procura da América do Sul. Achei, então, sensações dela na América do Norte. E, salvo engano, entendi que, de maneira pessoal, íntima, sincera, tão viva e quente quanto o meu sangue, a América começa nos fiapos da Patagônia e termina onde o Canadá vira gelo. Tudo passa por lhamas, geleiras, florestas, gramas verdes e rios bravos.

Sarah, Andrew, Ruby e eu. Um continente só. O único que vai de um pólo ao outro. América.

11.04.2005

Tensão pantaneira

Apesar de bonita, elegante e sonhadora, não era nem mesmo uma cidade. Bem do lado da Bolívia, rodeada de Pantanal, acompanhando um pedaço do rio Paraguai, Corumbá era, para falar a verdade, uma chapa quente deixada ao sol. Ela se ardia lentamente quando o sol, duro, amarelo, paciente, parava no meio do céu e se recusava a ir embora. Qualquer um se recusaria. Ali, o mundo é muito bonito.

Às duas da tarde, eu e o Everaldo, a gente buscava lugar para passar a noite e, no dia seguinte, entrar no Trem da Morte e seguir para Santa Cruz de la Sierra, a cidade mais rica e mais drogada da Bolívia.

E, então, com as vistas escurecidas pelo ouro do sol, com a pele arrepiada pelo vapor morno que escapava das águas do Paraguai, com as roupas umedecidas pelo suor que escorria no Pantanal inteiro, eu me sentei na escadaria que desce da cidade até a margem do rio.

Comprava picolés, um atrás do outro. Escolhia pela delícia das cores. Pedia um e era amarelo vivo, forte. Pedia outro e aí vinha uma água congelada de cor vermelha. Comprava mais um: era mais verde que as copas das árvores.

O Everaldo, do meu lado, com uma voz calma de quem, depois de ver o Pantanal, passa a acreditar em tudo, me perguntou:

-Estátua mexe o gogó?

Debaixo de sol muito quente, qualquer indagação faz sentido. Respondi:

-Que eu saiba, não.
-Então, tem um jacaré aqui do lado da gente.

Com o picolé na mão, olhei. Parecia ser um lagarto enorme, capaz de girar os olhos para frente e para trás. Como se engolisse em seco, movia a pele logo abaixo da boca imensa. Mas no meio do verão, fugir ou ficar ao lado do perigo é uma decisão complicada e árdua, que requer sacrifícios.

Tentei compreender o jacaré. Como meus olhos sem tanta mobilidade, encarei. Por algum motivo, ele, o réptil, não se movia. E, também por algum motivo, mas de outra ordem, eu, o mamífero, não sentia medo. Não era bravura, coragem ou heroísmo. Era lassidão mesmo. Acabei de chupar o picolé e, só então, me levantei lentamente, com a calma dos anfíbios, e fui procurar uma pensão.

No calor da tarde, quis tomar banho. O banheiro da pensão era no centro do quintal, rodeado de roseiras com rosas miúdas e despetaladas. Mas o chão, feito de terra escura, compacta e úmida, enchia a planta dos pés com um frescor brando que, pouco a pouco, subia pelas pernas e chegava até o coração, uma bomba quente no meio do Mato Grosso do Sul.

Então, fui me lavar, com a toalha pendurada no ombro. Acontece que o banheiro era um arremedo de si mesmo. Ali, debaixo do céu, tinha quadro tábuas largas sem teto e, do meio delas, subia um cano alto que, em seguida, dobrava-se em linha reta. Era do próprio cano que caía um jato forte, único, de água forte e fria.

Cheguei perto. Compreendo os anfíbios, sei me sentar ao lado de jacarés pantaneiros, mas tenho uma certa indisposição com galinhas. Não só com elas. Com patos e papagaios, também. A junção de pés capazes de se contraírem com força, de penas que se arrepiam e de bicos que apontam, sempre me pareceu perigosa e assustadora.

E tinha uma galinha que, conformada com o começo do pôr-do-sol, já estava empoleirada na tábua que servia de porta para o banheiro no meio do quintal.

Tentei compreender a galinha. Ela me olhou, impassível e lerda. Tomei coragem. Abri a porta lentamente, enquanto ela se acomodava no poleiro móvel. Entrei em silêncio, fechei a porta. A galinha reclamou, mas não muito. Ajeitou-se sobre a tábua e continuou ali, como quem se torna introspectivo diante da marcha lenta do dia para o resto do mundo atrás do horizonte.

Tirei calça, camiseta, cueca e pendurei no único prego grudado na tábua da porta. No meio do cano tinha uma torneira, que girei. A água deu o primeiro sinal de vida: o cano se sacudiu um pouco. Em seguida, gemeu. Aí, se sacudiu mais ainda, como se anunciasse um dilúvio e, de uma vez, o cano lançou um jato só, barulhento, enérgico, que bateu na minha cabeça e se espalhou, como uma fonte, para todos os lados.

A galinha não entendeu. Deu um grito alto, abriu as asas, arrepiou as penas e arregalou os olhos. E, movida apenas pelo susto, incapaz de tomar uma decisão sensata, em vez de fugir da água, achou por bem pular para dentro do banheiro.

O espaço era pouco para tanta coisa. Ela tentava se salvar do dilúvio que despencava do cano. Cacarejava e corria, espremida pelas quatro tábuas. Não tive muito o que pensar. Com um puxão forte para dentro, abri a porta que veio com tramela, roupas, dobradiças e parafuso, e ficou solta na minha mão.

Larguei a porta e corri para dentro da pensão. E só lá, na mira de olhares espantados e curiosos, lembrei que ainda estava sem roupa e que a toalha tinha ficado no prego da porta arrombada. Corri de volta para o banheiro. A água continuava farta, a galinha ainda tentava entender o acontecido, minhas roupas estavam encharcadas. Não entrei.

A dona da pensão veio em seguida. Com passos lentos e com a boca preparada para gargalhar, entrou no que restava do banheiro, girou a torneira, pegou a galinha pelos pés e me encarou.

Enquanto apanhava minhas roupas para cobrir o que estava à mostra, a mulher, ainda com a galinha na mão, avisou num tom de voz maduro e muito experiente de quem já está acostumado a pegar patos, pintos e perus:

-Ah, meu filho, não tem problema. Igual ao seu, já vi milhares.

Relaxei. Eu havia sobrevivido à galinha. Dali em diante, estava pronto e treinado para enfrentar a Bolívia inteira.

11.03.2005

O pingüim da Abissínia

Meu pai foi mordido sete vezes por cobra. A última vez, ele já era pai e grande. Uma dorminhoca, venenosa, esperta, enfiou os dentes na carne fina e esticada entre o dedão e o dedo indicador quando o meu pai, de mão aberta, se agarrava a uma raiz num barranco, para ter apoio e continuar a escalada da encosta barrenta.

Teve febre, os olhos lacrimejaram durante vários dias, sentia coceira insistente no braço, ficou impaciente, meio bravo pelos cantos, mas, depois, passou. Além disso, ser mordido sete vezes por cobra é remédio. Dá imunidade absoluta para todas as futuras mordidas – que, no caso do meu pai, nunca aconteceram. Não que eu me lembre.

O 7 é precioso. É a conta do mentiroso, porque se for contada uma mentira, mais seis terão que ser inventadas para encobrir e proteger a verdade escondida na primeira. No fim, surge uma história inteira, uma lenda genuína, ou uma ficção bem bordada e urdida, para que a primeira mentira fique de pé.

Mordidas de cobra também são curadas com o 7. O bicho vem e aperta os dentes. Em casa, a vítima deve pular sete vezes sobre um banco de cozinha, de lá para cá e de cá para lá. Com energia, para que os pés batam com vontade no chão e o corpo se estremeça a cada impacto. Foi assim, aparentemente, que o meu pai se curou das seis primeiras vezes, fato confirmado por minha avó Virgínia. Mas, lá em casa, todos contavam coisas admiráveis e fantásticas porque meu pai e os irmãos dele, Ovídio e Mercedes, parecem ter sido criados numa terra mais exótica e admirável que o Oriente, mais feérica que Alexandria, mais indefinível que a Abissínia.

Por isso, meu pai brincava com cobras, nos anos 20 do século XX. Não que não existissem outros brinquedos, que podiam ser feitos com sabugo de milho, melão-de-São-Caetano, pau, lata e corda. Mas quando uma pessoa vive e cresce exatamente na encruzilhada entre a Abissínia e Alexandria, lugar de que eu ouvia falar, mas que nunca soube onde fica nem jamais encontrei a estrada para lá, o divertimento também é de cabeça para baixo.

Em 1928, meu pai usava calças curtas. Saía da casa, rodopiava pelo quintal cheio de italianos e subia, em dias de calor, até o ponto mais alto das encostas, onde os pés de café estavam plantados em fileiras longas, bem feitas. Vasculhava tudo com cuidado, esmero, e, debaixo de uma das árvores do cafezal, encontrava a cobra, enrolada em si mesma, na dormência das tardes de sol.

Com uma vara, ele futucava a cobra que, desatenta, voltava a se enroscar. Futucava de novo. A cobra, então, acordava e prestava atenção. Nova futucada. Ela, que antes dormia, agora levantava a cabeça, já irritada. Na quarta vez, ela jurava meu pai de morte.

E, aí, cuidadosamente, brincando com o perigo absoluto, ele encostava a vara outra vez. A cobra se espichava, mostrava os dentes e se preparava para a grande vingança. Meu pai corria e ela ia atrás, disposta a eliminar, com veneno, o intruso no sono da tarde quente.

E era correria morro abaixo, aos gritos. Não gritos de pânico ou pavor. Muito menos de arrependimento por ter tirado o bicho do seu sossego. A descida aos galopes, com o vento na cara e o suor grudado no peito, nas mãos, nas coxas, na barriga, era felicidade pura. Era assim que eles eram felizes, lá.

A cobra se espalhava no chão com os músculos retesados, pronta para o bote na imensidão do cafezal. De repente, meu pai, com um berro vitorioso, se segurava na rama de um pé de café, girava o corpo como um atleta que se segura, rijo, à barra de ginástica. E de lá, via a cobra que, sem braços, sem mãos, sem pés, impossibilitada de qualquer ação, incapaz de frear, de interromper o deslizamento acelerado ou de se salvar, tinha um único destino. Desesperada, aos pulos e tropeções, escorregava, se esfregava no chão, se contorcia e não tinha jeito nem solução: sob o peso da fatalidade, parava só quando batia no fim da encosta, no meio do quintal.

E ficava lá embaixo, angustiada, irritada e cansada. A minha avó, mais irritada que ela, berrava o nome do filho, que já tinha sumido, à procura de novos bichos do Oriente onde ele foi criado para depois enfrentar o mundo.

Isto foi ele que me contou no dia em que, para me convencer a sair da banheira feita de ágata velha, com pés estranhos que imitavam garras de leão, me contou também que eu corria o risco de virar pingüim, depois de tanto tempo imerso na água morna. Como prova, segurou minhas mãos e me mostrou os meus próprios dedos, já enrugados nas pontas. Era, segundo ele, o primeiro e definitivo sintoma da pingüinização.

Pulei fora d’água, mas, enquanto meu pai me enxugava com mãos fortes e firmes, eu imaginava o fascínio de ser um pingüim da Abissínia.

11.01.2005

A coisa maternal




Tinha prova final de educação física. Questão única: salto de vara. Meu pai, com a agilidade dos facões e canivetes afiadíssimos, fez a vara com madeira branca, cheirosa. E treinei em casa, no fundo do quintal, porque, sendo o pior aluno da matéria, precisava de nota muito boa, daquelas que a gente não tira nunca.

E, no dia mais importante do ano, abri os olhos cedo. Lá fora, tudo escuro, sem som. Ouvi o barulho lerdo da geladeira na cozinha e combinei, comigo mesmo, que ia contar até 20 e se, nesse espaço de tempo, a geladeira não se arrepiasse e não se sacudisse nem uma vez para mudar a marcha, eu não ia fazer a prova.

Contei depressa, mas, mesmo assim, fui derrotado na aposta ali pelo número 12. Vesti o calção azul-marinho, a camiseta branca de alças, calcei os congas brancos e limpos, apanhei a vara reluzente e ainda cheirosa e, como um condenado no corredor da morte, fui.

Abri a porta de casa. Nem o céu tinha acordado ainda. Os trilhos da estrada de ferro estavam quietos, a rua parecia nunca ter sido usada, o ar gelado tinha jeito de novo. Sozinho, abri o portão de casa e andei em linha reta para a escola, me lembrando de tudo o que tinha que fazer. Não para aprender a saltar com a vara, mas para passar de ano.

A cidade estava sendo calçada e, ao longo da rua, tinham deixado montes de areia e pequenas paredes feitas de paralelepípedos empilhados. Decidi que, então, ia treinar ali mesmo, para chegar na escola com grau de excelência.

Vi o monte de areia e os paralelepípedos empilhados. Os únicos espectadores eram as janelas fechadas e as luzes dos postes, ainda acesos no escuro da madrugada. Dei alguns passos para trás, segurei a vara com firmeza, raspei os pés no chão. Cheguei até a cuspir nas mãos para segurar com mais firmeza. Era assim que se fazia.

Corri, apoiei a vara no chão de terra, subi, firmei os braços, estiquei as pernas, voei por cima dos paralelepípedos e me preparei para terminar o vôo em cima do monte de areia. E, veloz, sentindo o vento gelado bater no rosto, desci.

Aí, foi um berro só. Depois da beleza do vôo curto, bati sentado, quase retumbante, em cima de coisa esponjosa. Grande e gorda. E, sobretudo, coisa viva.

O arrepio nasceu na minha nuca e deslizou às pressas pelo corpo todo. Minha reação de emergência foi fechar os olhos com a promessa de nunca mais voltar a olhar ou ver ou enxergar. Por isso, a outra reação foi me agarrar ao que pudesse, para não cair mais. E só pude agarrar a coisa.

Ela grunhiu. Era grunhido de mula-sem-cabeça desesperada, de monstro das profundezas dos mares, perdido no alto da serra. Era gemido saído do fundo do mundo. Era coisa que babava e se sacudia, esponjosa, quente, macia.

Berrei com força, ainda com os olhos fechados. A coisa se multiplicou, eram várias. Uma grande, outras menores, que se esbarravam umas contra as outras e em mim. Segurei com mais força ainda. Os meus músculos estavam duros demais para relaxar e deixar ir. E, no meio da areia e dos paralelepípedos, a movimentação se tornou um luta entre corpos, um vale-tudo coletivo, escorregadio e sem regras.

Mas, de repente, os grunhidos se tornaram inteligíveis, familiares, domésticos:

-Oinc... oiiiiinc!

Abri os olhos e vi a porca imensa, bonita, branca, cheia de gordura e toucinhos, rodeada de leitõezinhos. Ela me encararava raivosa, postada como uma parede entre os filhos e eu. O olhar era de desespero puro, de pânico com taquicardia por ter sido acordada por alguma coisa que tinha caído do céu justo na barriga e nas tetas, a ponto de quase matar as crias.

Ela e os filhos correram para um lado e eu, para outro. Eles em direção à praça. Eu, de volta para minha casa, sem a vara. Deixei o portão aberto, empurrei a porta da cozinha e me escondi na cama, com tremores que sacudiam o lençol, a coberta, o cobertor, o travesseiro e a fronha. Só saí de lá depois que as luzes do dia tinham entrado na casa toda e que a família inteira já estava em plena atividade.

-E como foi a prova de educação física?

Contei tudo, para ser salvo. Falei da porca parida que queria me atacar, por motivo nenhum. Falei, com detalhes, de como eu ia indo pela rua quando ela começou a correr atrás de mim. Expliquei que até tentar me morder, a porca tinha. Depois, me vesti para ir para a escola e, mal cheguei, fui informado que tinha ficado de segunda época. Além disso, como castigo pela insubordinação de não ter comparecido, fui obrigado a passar uma hora, no pátio do colégio, depois do horário de aula, com os braços abertos. Um tijolo em cada mão aumentava o suplício.

De repente, minha mãe entrou tensa na escola. Pisava firme, como um esquadrão inteiro. Gritava:

-É apenas uma criança! Onde já se viu absurdo destes? Ele vai embora para casa comigo. Agora!

O professor de educação física respondeu, com voz grossa, que, ali na disciplina dele, quem mandava era ele. Minha mãe reagiu com um argumento certeiro: deu um safanão no homem. Só que ele, por acaso, era quase autoridade, por ser primo do prefeito. Ainda bem que minha mãe gostava desses confrontos e era mestra em fazer valer os pontos de vista dela. Era assim lá em casa, era assim no mundo inteiro.

-Eu não tenho medo nem do senhor nem do seu irmão.

Ia saindo e voltou, avermelhada:

-E quer saber? Não tenho medo da sua mãe também, não. Ela devia ter criado melhor a família para agora não ser avó de menina sem pai. Diga isso a sua irmã!

Quando seguia para casa, aos tropeções, quase arrastado pela minha mãe que, furiosa, prometia que as coisas não iam ficar daquele jeito, vi a porca e os leitões outra vez, na rua. Ela dormia tranqüila, tranqüila.

Procurei a vara. Nunca mais achei.

10.31.2005

Cachorrada




O avô da Marizete, que era homem dos mais importantes e ricos da cidade do interior goiano, morreu. De uma vez. Cambaleou, levou a mão ao peito, disse “Nossa Senhora” e caiu no chão.

Marizete, quando recebeu a notícia dentro da redação do jornal onde trabalhávamos, parou tudo. Fechou os olhos, ainda sentada em frente da máquina de escrever, cobriu o rosto com as mãos e chorou pelo avô. Para ela, a importância dele era só familiar.

Mas não para os outros. Durante o velório, poucas pessoas choravam lágrimas sentidas: a Marizete e a família, alguns amigos verdadeiros, uma mulher desconhecida que ninguém sabia por que chorava. O resto, vestido como para recepção no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia, estava ali para aproveitar a última oportunidade de bajular o poderoso da cidade de interior de onde, feito trampolim, se pulava para a capital do estado e, depois, para o grande mar da política federal.

O calor abrasava. Na sala, perto do corpo em cima da mesa, as flores se ressentiam da temperatura e reagiam com cheiros fortes, nauseabundos, como se gritassem. As moscas, impacientes, pousavam onde podiam: rostos, mãos, ombros, lábios, flores, paninhos da cômoda, jarros embelezados por rosas de plástico.

O cortejo ia começar, rumo ao cemitério. Três da tarde, as flores verdadeiras se curvavam com o peso do sol quente sobre os ombros. A viúva, acalorada, sentia as ondas do desmaio. A família decidiu que ela ficaria em casa, acompanhada. Um grupo de terno preto discutia quem teria a grande, incomparável honra de segurar o caixão durante o percurso de quase meia hora.

O burburinho acabou por escolher quatro deles. O caixão saiu da sala, passou por toda a rua onde havia morado o falecido, cruzou a rua da farmácia, atravessou a praça, com poucas árvores para cidade de tanto brilho solar, passou em frente à prefeitura e à câmara dos vereadores, ambas com bandeira a meio-mastro, e tomou o rumo da rua íngreme, sem calçamento, que ia dar no cemitério.

Algumas pessoas da rua sem calçamento saíram até as varandas e portões, em silêncio diante de enterro tão distinto. Os cachorros, que dormiam debaixo de roseiras, pés de jabuticaba, jasminzeiros e pés de goiaba, abriram os olhos.

Um deles, miudinho e enfezado, saiu do conforto e do frescor do chão da cozinha e veio ver. Latiu. Chegou perto do caixão e latiu com mais força. Um outro, que estava aproveitando a terra úmida debaixo da roseira, levantou a cabeça e se interessou pelo assunto.

Um grandão, que morava no fundo de um quintal de muro alto, rosnou. Uma cadelinha recém-parida, ainda com as tetas bem penduradas, saiu do ninho, por pura curiosidade.

E todos os cães começaram a latir. Juntos, tomaram coragem e foram chegando. Misturaram-se a todos os pés de sapatos pretos que desfilavam atrás do caixão. Latiam e rosnavam.

O miudinho invocado foi o primeiro a atacar. Agarrou-se à barra da calça de um dos oportunistas que seguravam a alça do caixão e puxou. Balançava a cabeça de um lado para o outro. O dono da calça tentou se livrar, dando safanões. O cão era renitente, insistiu. O homem, sério, ridiculamente pungido, enxotou entre dentes:

-Sai, porra, sai daí.

O cortejo não ouviu, mas os cães, com audição assombrosa, entenderam perfeitamente. E não gostaram da ofensa. Atacaram.

Cada um escolheu a melhor barra de calça e segurou firme. Com o focinho baixo e o rabo apontado pra cima, fincaram os pés no chão de terra e prenderam os carregadores de caixão.

Um homem aproveitou uma das pernas livres e chutou o cachorro que rasgava a calça dele. O cão revidou com força: uma mordida bem dada, generosa, na canela. Ele tentou gritar, mas os enterros são ambientes silenciosos, por definição. Acontece que a dor foi grande e ele, em pânico, largou a alça do caixão.

Desabou tudo. O caixão fez um barulho forte, duro, oco. No alvoroço que se seguiu, tinha cadela latindo, tinha criança gritando em cima de muro, tinha gente correndo para dentro da casa dos outros, tinha dono de cachorro chamando:

-Totó, já para dentro!

E tinha homens de terno que mantinham um certo ar impávido. O calor absurdo reluzia sobre a cidade. O caixão ficou parado, no chão, à espera de socorro. Um cachorro preto aproveitou e fez xixi ali mesmo, na madeira nova.

Um homem gritou, impôs respeito. Um outro cachorro, o grande, que morava no fundo do quintal e que tinha pulado o muro no afã de participar, fez a mesma coisa. Para impor o seu devido respeito, mordeu o homem. Com muita força. Mordida definitiva. Aí, espalhou todo mundo.

Das janelas, as pessoas e o cortejo observavam. Cães que, acalorados pela discussão, andavam em círculos pela rua e cheiravam tudo. Cadelas que rosnavam e tentavam morder macho que, confundindo as coisas, achava que a reunião era para fins de acasalamento. E, ali, no meio de tudo, largado no chão, o caixão com um morto dentro.

Demorou muito até que tudo se acalmasse e as pessoas tivessem coragem de voltar ao cortejo. Foi até bom porque, aí, o sol já tinha diminuído de força. Marizete, quando retomou a rua, não conseguia controlar a gargalhada, diante do espetáculo dos bajuladores do avô.

Mas havia quem entendesse:

-Coitada, é reação nervosa. Era muito apegada ao falecido.

10.29.2005

O pai, o filho e o Espírito Santo




Nasci, abri os olhos e vi um mundo feito de pedras, montanhas, morros, orquídeas, jequitibás, jacarandás, lírios, copos-de-leite, marias-sem-vergonha, borboletas, pacas, palmeiras, tinhorões, jacas e carambolas, preguiças, palmitos, mexericas, laranjas-seletas, arapongas e onças. E, no meio da Mata Atlântica, aprendi a reconhecer meu pai, minha mãe e meus dois irmãos mais velhos ao lado de bananas-da-terra, cobras, aipins, taruíras, moquecas de cascudos, tanajuras, bromélias, beija-flores, taboas, e cabritos das montanhas.

Tudo fazia frio, tudo cheirava, e, tirando uma ou duas cidades feias e desalmadas, tudo era bonito e forte, no que se parecia muito com o meu pai, bonito e forte, ele também. Sabia que ele era forte porque eu me abraçava ao corpo dele quando a gente, no lombo do cavalo, subia um pedaço puxado de montanha. A trilha era estreita e acompanhava, em volteios e largura, o córrego de voz baixa e jeito cristalino, até chegar no nosso sítio. Era lá que morava uma onça.

Mas antes da onça, tinha o portão do sítio e, em seguida, a casa onde morava minha avó Virgínia, magra, muito bonita e tão séria e grave que era impossível chegar perto dela e dar um beijo. Sempre falou uma tentativa de português misturado com o vêneto da terra de onde era. Com ela, moravam também o meu tio Ovídio, a mulher dele e os dois filhos.

O chuveiro da casa ficava no terreiro, perto do paiol, da pedra-mó e do enorme pilão de socar arroz. No alto de uma pedra grande, uma canaleta feita de bambu trazia a água, pesada, macia, barulhenta, para cair de uma vez só no chão cercado de imensas e altas folhas de tinhorão, que serviam de cortina para o banheiro ao ar livre. Era lá que eu me agachava, brincando com sabugos de milho, para ouvir as histórias do meu pai, enquanto ele tomava banho, com o corpo protegido pelas folhas graúdas e muito verdes dos tinhorões capixabas que transformavam os respingos d’água em pérolas bem feitas e escorregadias.

Era em cima desse banheiro de água fria que chegavam, nas horas de sol, as borboletas, todas elas, todas as que existissem no mundo, para rodopiar como uma espiral de asas amarelas, brancas, avermelhadas, azuis, furta-cores.

Uma fileira de orquídeas, plantadas e cuidadas por meu pai, enfeitava a varanda, as janelas e os corredores da casa de madeira.

E depois do curral, onde as vacas mugiam antes do sol aparecer, como se fossem despertadores exigentes; depois do pasto, onde os cavalos desfilavam com os rabos arrebitados e elegantes; depois do morro inclinado coberto por capim e grama, surgia, no alto, o nosso pedaço da Mata Atlântica, o lugar proibido, a caverna das coisas nunca vistas, o esconderijo do mistério.

Era de lá, a qualquer hora, em dia de sol, em dia de chuva, na boca da noite, ao meio-dia, de manhã cedinho, que vinha o urro. O urro imenso, bravo, bonito, espichado, feliz, valente e nobre da onça.

E no meio da mata, os micos, afobados, gritavam fino. As arapongas, martelos com plumas, abriam o bico para estalar o berro. Os cavalos esticavam as orelhas e o rabo para correr pasto abaixo. Meu tio parava, em silêncio, com a corda na mão. Minha avó, dentro de casa, colocava o dedo indicador sobre os lábios e pedia silêncio.

-É ela.

Nessas horas, eu, sentado no parapeito da janela, e meu pai, abraçado a mim, não tínhamos mais nada para fazer, além de ouvir o canto terno e solitário da onça, que acalmava a roça e trazia silêncio até para as águas.

Depois, exatamente como pintura a óleo deixada na chuva, as coisas se desmancharam.

Primeiro foram os palmitos, que, antes, chegavam na minha casa, para o preparo da torta capixaba, em troncos grandes e honrosos, e, depois, passaram a aparecer em vidros. Na mesma época, os palmitais, com suas palmeiras perdulárias, derrubadas e mortas a cada colheita, começaram a ocupar os lugares dos jequitibás e das preguiças.

Em seguida, os eucaliptos, magros e secos, avançaram desde o norte do Espírito Santo. O cheiro fétido da celulose cobriu o cheiro macio das jacas e das carambolas. As onças e os beija-flores, todos muito delicados, correram para longe.

Minha avó morreu, meu tio foi embora. O sítio se perdeu e a Mata Atlântica, cheia, cheirosa, sombreada, úmida, capaz de produzir névoa que cobrisse o Espírito Santo todo, começou a cair, tronco a tronco, até caírem todas as árvores. Foi nessa época também que os madeireiros capixabas passaram a ser conhecidos como cupins.

E, então, meu pai. O homem das mãos grandes e gentis, dos olhos escondidos de quem vê e não fala, que amava todas as flores e todos os bichos, que sabia alisar pêlo de preguiça e colocar araponga entre os braços, o homem que cheirava a madeira e a vinagre, ele também achou por bem morrer.

Encarei bem o homem deitado, e desisti do Espírito Santo. Só voltei muitos anos depois, para descobrir uma coisa que eu devia saber desde sempre, mas que não contava nem para mim. Que Espírito Santo, tem muitos. Tem para quem quiser ficar mais rico que os ricos. Tem para quem acha bom se amontoar nas praias. Tem também para quem rouba tudo o que encontra.

Mas tem um outro, que ainda é cheio de borboletas e tinhorões, que continua coberto de neblina e de montanhas verdes, com gente reservada e envergonhada de falar. É nesse Espírito Santo que eu ouço, até hoje, o urro doce e manso da onça.

Porque esse Espírito Santo fica lá, na Mata Atlântica capixaba, que é o esconderijo do mistério.

10.28.2005

Catherine em Paris




Catherine se transformava em um gato. Aos poucos, ela pegava o jeito, a maneira de andar, o olhar. Isto a gente, Chris, Jean-Paul e eu, ia percebendo dia após dia.

Ela chegava. Com os cabelos pretos e muito lisos, cortados rente na altura das orelhas, como se fosse um capacete de fios macios, que se moviam quando ela olhava pela janela, ou quando virava a cabeça para soltar a fumaça do cigarro. Entrava, não falava, se sentava e ficava ali, com os olhos grandes e abertos. Ou então se encostava no sofá e dormia, com calma, sem ruídos.

Havia quem dissesse que Catherine não tinha o que falar. Até diziam que não era uma mulher brilhante e que, por isso, se calava. Mas, na verdade, ela se tornava um gato, não qualquer um, mas o gato que vivia com ela e que ia junto para todos os lugares, dentro de um cesto de palha onde também estavam guardados o maço de cigarros, a caixa de fósforos, as imensas agulhas de madeira para tricotar, o novelo de lã, o batom, o lápis para sobrancelhas e os cartões-postais que, em momento de tédio, ou de inspiração súbita, ela mandava para os amigos com alguma mensagem curta escrita no verso.

O gato da Catherine saía pouco do cesto. Dele, a gente conhecia os olhos, as orelhas e os pêlos retos do focinho, que eram as partes que ele exibia, quando queria acompanhar as conversas. Tinha seus motivos: um dia, meses antes, estava investigando o apartamento de terceiro andar, numa rua estreita perto de La Bastille, onde vivia, quando se encantou com o pedaço bem recortado do céu grudado na janela e foi lá para ver.

Sentou-se no parapeito, olhou, cheirou, enrijeceu os pêlos do focinho, estendeu as unhas afiadas e tentou rasgar o céu. As patas escorregaram e ele caiu, em vôo livre, até o chão cimentado do pátio interno. A partir daí, manco de uma perna, e com o rabo torto, passou a ter pavor de alturas e de espaços abertos. Preferia o cesto.

O silêncio de Catherine também vinha da solidão. Não era solidão escolhida. Catherine e a mãe tomaram rumos diferentes no primeiro dia: uma nasceu e a outra, exausta, morreu. O pai foi interrompido por uma aneurisma e ela, com 15 anos, herdeira do apartamento no terceiro andar da rua estreita, sem avós, sem tios, aprendeu a viver sozinha.

Catherine era um gato lindo. Quando sentia fome de carinho, de amor, de afagos, ela se enroscava nos nossos corpos, com doçura, suavidade. E ficava ali, de olhos grandes, com um sorriso feito faca afiada que cortava seus lábios em dois. Seu jeito descaradamente abusado de pedir carinho, amor e afagos era uma maneira de sobreviver.

Passamos, uma noite, Chris e eu, na casa dela para, depois, irmos os três ao cinema. Ela não estava. Deixamos um bilhete na porta e, duas horas depois, voltamos lá. Como ela ainda não tinha voltado, esperamos sentados na escada. Tarde da noite, desistimos, mas, quando íamos pela rua, a Chris resolveu voltar. Eu fui para casa.

Chris esperou até as seis da manhã. Saiu, comeu no café em frente, e voltou. Eram oito e meia. Chamou a polícia que veio e, com um soco só, abriu a porta.

O gato estava sentado no centro da sala, como uma esfinge do rabo torto. Os olhos imensos, absolutamente redondos, encaravam. As unhas estavam apontadas, ameaçadoras. Os miados, ritmados, longos, eram doloridos, como se falassem dos infernos da alma. E, debaixo do gato, estava o corpo estirado, frio, inerte, pálido, lindo, de Catherine.

Ela não tinha herdado apenas o apartamento do pai. Ele também tinha deixado o aneurisma para a filha, que, com 22 anos, caiu no chão com o cérebro explodido.

Ninguém se aproximava. O gato, sem se mover de onde estava, sobre o corpo, não permitia que incomodassem a Catherine. Apenas girava a cabeça para acompanhar os passos que circulavam pelo apartamento. Depois, lambia as patas e encostava a cabeça no peito da morta.

Um dos policiais conseguiu pegar o gato. Ele se contorceu, unhou, miou, usou as patas da frente e as patas de trás para se livrar. Mordeu, escapou e se escondeu debaixo da cômoda da sala. Com os olhos grandes e desesperados, viu o corpo ser examinado, tocado e, finalmente, retirado.

Quando a polícia tentava passar pela porta do apartamento e começar a descer as escadas, o gato pulou. Quis se abraçar ao corpo da Catherine ou quis pedir que ela não se fosse. Mas foi afastado e voltou para dentro de casa. Da janela viu quando passaram pelo pátio.

E, então, invadido por um amor incontrolável, por uma ameaça de saudade que ele não ia nunca poder suportar, esqueceu-se da morna segurança do cesto de palha, perdeu o medo dos espaços abertos, desconheceu os perigos do ar, e pulou de uma vez: o vôo de encontro a Catherine, em outra Paris.

Bateu no cimento e ficou lá. Depois, Chris pegou o gato e saiu, para tratar dos dois enterros.

O dente perdido



Mimosa, a minha cachorra quase bassê, perdeu um dente. Em acidente doméstico relativamente grave, mas, de acidentes, a minha casa vivia cheia.

Ás vezes, era uma aranha, encontrada na copa, com as pernas cabeludas à mostra – e uma delas eu quis pegar. Acelerei o engatinhamento e estendi a mão, até que alguém, mais alto, mais ágil e mais conhecedor dos perigos que eu, me levantou no ar e me pôs no colo. Outras vezes, era um rato, que passava em disparada perseguido por cães e gatos e iam todos parar embaixo da cama dos meus pais, quando os dois descasavam depois do almoço. Ou, então, era eu, o acordeonista da família. Não achava nenhuma graça naquilo, estudava no Conservatório da Irmã Celeste porque era levado aos empurrões por minha mãe. Mas, uma noite, com a sala cheia de visitas, recebi a ordem:

-Pega lá e toca.

E eu fui e voltei com o acordeão vermelho, feito de madrepérola. Como sempre, abotoei bem a camisa porque me irritava, sempre, com os beliscões que o fole do instrumento dava em minha barriga. E abri a cintura da calça curta, para poder me sentar melhor. E, aí, toquei o que minha mãe e as visitas achavam encantador: Besame Mucho, Danúbio Azul e Tico-tico no Fubá.

Fiquei empolgado com a atenção de todo o mundo e quis ser mais profissional. Decidi me levantar para anunciar a interpretação seguinte. Foi aí que a calça, desabotoada, caiu e escorregou até o meio da canelas.

Em pé, imobilizado pela calça, no centro dos risos e gargalhadas, tirei o acordeão do peito. Joguei no chão, e prometi, aos berros:

-Nunca mais toco isso, nunca mais!

E nunca mais toquei mesmo. Até hoje.

Mas, o acidente da Mimosa: nos fundos da minha casa, tinha um barranco. Que ia paralelo ao parapeito da varanda comprida, com um tanque onde minha mãe lavava a louça dos almoços, para não sujar a pia da cozinha. Entre o muro e o barranco, sobrava um beco estreito, onde cabiam somente as galinhas, os gatos, as taruíras e, às vezes, eu.

Mimosa tinha arranjado a mania de caminhar pelo barranco e, com um salto, ir se sentar em cima do parapeito da varanda que, se era baixo perto do portão, era alto, quase um muro, nas proximidades do tanque.

E, um dia, chovia. Chuva fina, mole, sem pressa para passar. Minha mãe lavava uma quantidade especial de panelas, caldeirões e baldes. Na borda do tanque, punha um pano. Apoiava as panelas cuidadosamente sobre o pano, enquanto esfregava uma bucha com sabão e areia, para tirar a sujeira grossa.

Mimosa escalou o barranco, com passos miudinhos. Chegou no ponto que mais gostava. Mirou. Afastou-se um pouco. Mirou bem, para não errar. Enquanto isso, minha mãe, de costas para barranco, muro e cachorra, areava as panelas empilhadas no tanque.

Mimosa pulou. De uma vez. Estava acostumada com o salto e sabia onde ia pousar. Pousou. Mas era dia de chuva e o muro estava molhado. As patas deslizaram. Ela tentou se equilibrar, as unhas rangeram. Buscou equilíbrio. Não conseguiu. Ganiu e levantou vôo novamente, varanda adentro, até que, como um manga madura que despenca de árvore alta, pousou de uma vez só, pah!, na nuca da minha mãe.

Foram bater as duas dentro do tanque, no meio das panelas e caldeirões. O estardalhaço ecoou pela casa: o som metálico das latas e ferros, o grito de pavor de uma e o latido de outra. Quando cheguei na varanda, minha mãe tentava sair do meio do desencontro e Mimosa tentava entender, sem conseguir, o que tinha acontecido.

Minha mãe foi beber água com açúcar. Eu saí às pressas com Mimosa para tratar do sangue que escorria da boca. Era o dente. Perdido para sempre. Meu medo era que o dente fosse encontrado enfiado na nuca da minha mãe, ou nos cabelos dela, mas foi achado, depois, dentro de uma das panelas.

Com o copo de água com açúcar na mão, minha mãe foi triunfante até o portão da varanda.

-Essa cachorra podia ter me matado! Podia ter quebrado o meu pescoço e, aí, você ia ver a falta que faz uma mãe.

Jurou, com voz que ecoava entre as árvores, que ia dar cabo de todos os cachorros e gatos, um a um. Que esperassem.

Mimosa e eu ficamos um bom tempo escondidos no fundo do quintal. Depois, as coisas se acalmaram, porque não há nervosismo que dure para sempre nem mãe que, um hora, não se lembre que também gosta daquilo tudo.

Além do quê, minha mãe quase nunca cumpriu as barbaridades que prometeu.

10.27.2005

A visita

-Então, conta outra vez.

Do que ela contou, várias vezes, ao longo dos anos, ficou a lembrança. As imagens surgiram aos poucos, sem convicção, sem cores fortes. Mas, agora, são completas, visíveis:

A gata estava ali parada na porta dos fundos, que dava para o quintal. Viu e deu o sinal. Estava sentada, apreciando a vida, quando se espremeu toda e ficou arrepiada da nuca até a ponta do rabo.

O bebê estava no meu colo. Vi o susto da gata, mas ela estava calma, achei que não era de ser nada. Prestei atenção e, lá de fora, não vinha barulho, só aquelas coisas de quintal mesmo. Fiquei de olho porque gato é gato, não se arrepia por nada. Os outros dois meninos estavam brincando no quarto. Coisa de criança. Pulavam de uma cama para outra, para ver quem caía primeiro e se espatifava no chão.

A gata veio para trás, sem tirar os olhos e sem desmanchar o arrepio. Ficou naquela posição de ataque e eu achei curioso, esquisito mesmo:

-Iá, que coisa. Que será que foi?

Tentei me levantar da espreguiçadeira, uma de pano branco com listras. Não achei apoio, não tinha onde. Tentei de novo e desisti. Com um bebê nos braços, não tinha como. Esperei. A gata parou, o rabo em pé.

-E o que era?

-Entrou pela porta da cozinha. Vinha em tique-taque.

-Em quê?

-Sem ser em linha reta.

-E o que é que vinha em ziguezague?

-A cobra.

Lenta, toda mole, se esfregando, com a língua de fora, porque cobra é cega, não vê, acho que nem olho tem. Parou ali mesmo, ainda com metade do corpo na escada. Era precavida. O único som, no quintal, na casa toda, até na rua, era bem fininho, de criança. Os dois meninos que gritavam para dizer que iam pular. Nem sabiam de nada.

Um calor. Mimoso do Sul fica muito quente mais para o fim do ano. É que Mimoso é no meio das pedras, acharam um buraco no meio delas e fizeram uma cidade. E o sol vem, bate nas pedras e espalha o mormaço. Entra por debaixo da saia, vai até no coração. A gente fica com um jeito de ser de calor.

-Deu medo quando viu a cobra?

-Medo, medo, não. Mas sei que é perigoso, quem é que vai parado com o bicho daqueles chegando?

Nisso, joguei de novo o peito para frente, para me levantar da espreguiçadeira baixa, que estava na cozinha. A cada ida minha, o bebê abria a boca querendo o bico do peito. E a cobra ia entrando pela casa.

Lá dentro do quarto, os dois gritavam sem parar. Era assim um som que parecia espetada de agulha, fino, que incomodava, mas sem ser forte. Chamei um, o mais velho, o que tinha 11 anos:

-Paulinho...

-O mais velho é o Carlinhos.

-Isso. Carlinhos!

Mas era a hora do pulo mais importante, para cair sentado na cama que tinha encostada na outra parede, porque os dois dormiam no mesmo quarto. Chamei:

-Carlinhos...

Ele ouviu, sem sair do lugar. Eu estava arrepiada feito a gata e, aí, tive a idéia de dizer para trancar a porta que a brincadeira ia ficar melhor.

-Ele trancou?

Quem dera. Ele fez foi não entender por que ia ficar melhor. Por isso desceu da cama e foi na cozinha, perguntar. Só não gritei por causa da bicha que estava ali. Falei baixo porque quando a gente tem filho novo não dá para sair gritando feito louca:

-Volte pro quarto, agora. Tranque a porta!

Ele ficou lá me olhando na espreguiçadeira, o irmão mais novo no meu colo. Olhou a gata, e só aí viu a danada que estava inteira dentro de casa. Deu um grito só. Quis correr na cozinha.

Quase consegui me levantar, mas a espreguiçadeira se fechou e eu fiquei dentro, apertada. O bebê procurou novamente o bico do peito que roçava na carinha dele. Dei uma ordem e bastou:

-Volte para o quarto! Fecha a porta!

Ele voltou e se trancou com o irmão. Os dois ficaram encolhidos na cama, atrás dos travesseiros. Os gritos iam ficando cada vez mais finos. Dei outro solavanco com o corpo. Só que desisti. Fiquei ali, parada. E a gata dando aqueles miados compridos.

O mundo inteiro era da cobra. Comprida, forte, ela se esfregava em tique-taque no chão fresco da cozinha, porque era dia de calor abafado. A gata pulou em cima do rabo do fogão. A cobra parou, elas param quando sentem movimento, para saber onde é. Depois, passou outra vez a deslizar no assoalho fresco, quase gelado. Ai, que horror. Fui ficando muito nervosa. Era um silêncio impressionante. Eu ouvia ela pondo a língua de fora.

Mas os gritos dos outros dois guiavam a cobra. Ela se espichava, se encolhia, escorria pela casa. Esbarrou na minha sandália e parou. Devagarinho foi mudando de direção, indo mais para lá, mais para cá, até esbarrar no meu pé. Deu uma parada. Ela se preparava e eu também. Ela começou a se mexer, eu de olho, mas sem me mexer. Pensei no que fazer.

-E fez o quê?

-Nada.

E a cobra escorregava, sem pressa, por cima dos meus pés.
Demorou muito até todo o corpo da cobra passar e eu, ali, sem dizer nada, sem respirar alto, sem mostrar que estava a ponto de perder as forças. Não podia fazer nada, fiquei dura, de boca fechada. De repente, veio um grito do quarto:

-Já dá pra sair?

A cobra também sentiu que a voz vinha de lá. Encolheu o corpo comprido e se espichou no assoalho da cozinha. Foi aí que vi e notei a fresta por debaixo da porta do quarto. Era casa velha. Em dois tempos, medi largura da fresta, medi a cobra. Dava para ela passar por debaixo.

Dentro de mim, eu só pensava nos meus dois filhos, lá no quarto, em cima da cama. Pensava que o Carlinhos não ia saber nem como agir numa hora destas, ele era mais velho e tinha que ajudar o Xandinho.

-Paulinho...

-É, ajudar o Paulinho, o do meio. Que naquele dia mesmo tinha ido no barbeiro, cortar os cachos loiros.

Mas se eles não iam saber o que fazer, foi um berro só:

-Sai pela janela, leva seu irmão.

A cobra foi se aproximando da porta do quarto. A gata se mexeu em cima do fogão, não se agüentava mais. Aflita. Abria a boca, mostrava os dentes bem finos e chiava pronta para se defender se fosse atacada. Acho que meu grito confundiu a cobra:

-Pula! Pula agora!

Ouvi o barulho da janela, quando eles abriram. Ouvi os pulos, os gritos, a corrida pelo quintal. Quando entraram pela porta da cozinha, de mãos dadas, a cobra, lenta, até calma, se virou para trás. Espichava a língua para saber aonde ir.

-Depressa, aqui.

O mais velho veio, tirou o bebê do meu colo e só aí deu para me levantar. A espreguiçadeira se desmontou no chão. Acho que eu tremia toda, não conseguia enfiar os pés nas sandálias. Até tentava, mas, em vez de calçar, empurrava para longe com os dedos, me confundia toda. Saí descalça.

-Vamos embora. Vem, vem.

Mas tudo isso eu dizia baixinho, até para não assustar mais os meninos. E a gente foi para o quintal, com a cobra vindo também. Nisso, a gata pulou do fogão e parou na porta. Veio a cobra, e a gata se levantou, com as patas para frente. Miava como se estivesse doida. Carlinhos é que dizia:

-Sai daí, sai daí.

Mas a gata ficou lá, na porta. Até que a cobra mudou de rumo e foi embora, pela frente da casa. Só aí a gente voltou e, de noite, os meninos gritavam sem parar, contando para o pai. Ninguém quis dormir separado. Foi todo o mundo para a mesma cama. A gata ficou no quintal, de olho.

-E eu? Não gritei, não fiz nada?

-Nada, era como se você soubesse, o tempo todo. Não tinha nada mais silencioso lá em casa naquela hora do que você e a cobra.