No texto "Tudo por você", onde se lê sarda, leia-se sarna.
Um dia ainda aprendo como corrigir esses textos sem ter que apagar tudo.
Alguém sabe me dizer como é que faz?
10.26.2005
Tudo por você
O Zé e a Glória nem sabiam se eu gostava de cachorro, mas também não sabiam que eu gostava de roça. Ficaram surpresos quando disse para eles que aparecessem na Vila Mateus, a casa branca de Olhos d’Água, o lugarejo velho, dedicado a Santo Antônio, à direita de quem sai de Brasília para Goiânia, e, para isso, é preciso largar tudo, asfalto, cidades, sinalização e se embrenhar Goiás adentro, até parecer que não tem mais para onde ir, e, aí, é lá.
O Zé e a Glória chegaram de motocicleta, mas ela, em vez de na cabeça, levava o capacete pendurado no antebraço, como uma cesta, e, dentro, uma coisa pequena, redonda, felpuda, como duas bolas. Uma, a cabeça e a outra, o corpo. Quando pus as mãos dentro do capacete, ele me esperava com movimentos apressados do rabo, apreensivo e pronto para ser feliz. Já era o Lula, o meu Lula. Sendo eu, o Alexandre dele.
Foi pequeno por muito pouco tempo, porque parecia querer ser adulto. E quando cresceu, mostrou o que era. Porte médio, pêlos longos cor de caramelo e uma gola branca que se estendia, caprichosa, sobre o peito. O focinho era afilado, o que garantia um perfil esguio, com ares de alta velocidade. Ninguém sabia nada da família dele, porque tinha sido comprado num bar, às três horas da madrugada. Mas parecia de raça. Em algum galho alto da árvore genealógica, devia haver um collie elegante que observava o Lula.
Ele me ensinou coisas importantes. Foi ao lado dele que conheci o estado de Goiás, para entender que, ao contrário do que dizem as ciências, a terra não é redonda. É plana, reta, enfeitada por relevos suaves, córregos prateados, buritis espalmados, ipês amarelos, lilás, vermelhos.
Também foi ele que me ensinou a técnica de procurar poços escondidos no cerrado e ficar à espera do momento certo. Imóvel, em silêncio, é preciso aguardar até que o sol chegue no ponto certo, em temperatura e localização, para pular na água, de uma vez. Eu, com um grito, as pernas dobradas à altura do joelho. Ele, com um latido firme, um só, o rabo tenso, firme.
Aprendi a andar mato adentro, sem me preocupar com cobras ou arranhões graves. Era só mantermos o combinado: eu olhava o mundo. Lula cheirava a paisagem. Um completava o outro.
De noite, na varanda, quando os grilos pensavam em voz alta, os sapos arrotavam e os abacates explodiam ao bater no chão sem luz, ele me ensinava as coisas silenciosas. Lula era contemplativo. Nunca abanava o rabo em excesso, pulava e saltava apenas o suficiente para mostrar contentamento e, depois, se recolhia. De noite na varanda, mostrava a maneira correta de olhar para nada, e enfrentar uma hora, duas horas, três horas com a resignação da felicidade absoluta.
Pelo Lula, desejei ser cão. Invejei os pêlos dele, que brilhavam como seda pura. Quis ser apenas o essencial, que, sem nada, tem tudo. Sonhava me deitar na laje fresca ou debaixo da cama ou no meio da cozinha e estar satisfeito. Planejava ter fome até esperar pela comida com os olhos cheios de atenção e brilho, como se a fome fosse o único desejo sincero. E pretendi amar como se nada, fora do amor, fosse real, plausível ou sustentável.
Um dia, o Lula se coçou. Com a pata traseira, arranhou a orelha. No outro dia, a coceira estava lá. Uma semana depois, foi para o hospital em Brasília. A coceira já marcava as orelhas, a barriga, o peito, as coxas.
Levaram o Lula para uma mesa alta, de ferro. Ele esperou. Rasparam a pele, tiraram sangue, examinaram cocô e xixi. Não era alergia. Não era sarna. Não era zequizira. Não sabiam o que era. Ele voltou para casa, em Brasília. Sentou-se para se coçar.
Não demorou muito para voltar ao médico. Desta vez, já entrou no hospital com a cabeça baixa, um jeito lento e servil de andar. Ele, mais que os médicos, sabia que era grave. Outra vez, tiraram raspas da pele, sangue, xixi, cocô, temperatura.
Em casa, o pêlo começou a rarear. O rabo, sempre em pé e curvado na ponta, como uma pluma, se tornou apenas um fio de carne escura. O peito estava marcado pelas unhadas. Ele se sentava, se levantava, girava sobre si mesmo, se coçava, voltava a se sentar e, outra vez, muitas vezes, se levantava. Ia da cozinha para o corredor, de lá para o banheiro, entrava no quarto, buscava os cantos.
Uma manhã, ele cheirou mal. Dei banho. A água aliviava as coceiras. O cheiro apaziguava-se, mas, em seguida, voltava, intenso, ácido. Eu esfregava os cremes na pele dele. Ele me olhava com paciência.
Quando lindo, as pessoas chegavam perto, perguntavam nome, idade, raça, queriam saber se tinha filhos. Seis meses depois do primeiro sintoma, ele caminhava sozinho, como se sua passagem fosse uma ousadia de lepra.
Até que não quis mais sair de casa. Queria ficar sozinho. Às vezes, eu me abaixava perto dele e o abraçava. A felicidade destes momentos era quieta, imóvel. Depois, me lavava para tirar o cheiro insuportável do meu cachorro que se desmanchava vivo.
Passados nove meses de visitas a todos os médicos da cidade, ele me chamou. Não tinha pêlos. Os olhos eram ainda felizes, como uma gratidão a tudo. Ficamos nós dois sentados, um ao lado do outro. Não chorei nem nada. Mas ele me lembrou os momentos mais bonitos de nós dois, cada um deles. Levantou a pata e me tocou. Depois, se coçou. Aí, eu me afastei. Pensei que fazer tudo, tudo por você, não era só buscar a salvação. Era perceber a total ausência de crueldade, a absoluta inocência que há nas coisas de morrer.
Lula tinha 11 anos e três meses. Foi uma boa vida. A minha, ao lado dele, foi.
O Zé e a Glória chegaram de motocicleta, mas ela, em vez de na cabeça, levava o capacete pendurado no antebraço, como uma cesta, e, dentro, uma coisa pequena, redonda, felpuda, como duas bolas. Uma, a cabeça e a outra, o corpo. Quando pus as mãos dentro do capacete, ele me esperava com movimentos apressados do rabo, apreensivo e pronto para ser feliz. Já era o Lula, o meu Lula. Sendo eu, o Alexandre dele.
Foi pequeno por muito pouco tempo, porque parecia querer ser adulto. E quando cresceu, mostrou o que era. Porte médio, pêlos longos cor de caramelo e uma gola branca que se estendia, caprichosa, sobre o peito. O focinho era afilado, o que garantia um perfil esguio, com ares de alta velocidade. Ninguém sabia nada da família dele, porque tinha sido comprado num bar, às três horas da madrugada. Mas parecia de raça. Em algum galho alto da árvore genealógica, devia haver um collie elegante que observava o Lula.
Ele me ensinou coisas importantes. Foi ao lado dele que conheci o estado de Goiás, para entender que, ao contrário do que dizem as ciências, a terra não é redonda. É plana, reta, enfeitada por relevos suaves, córregos prateados, buritis espalmados, ipês amarelos, lilás, vermelhos.
Também foi ele que me ensinou a técnica de procurar poços escondidos no cerrado e ficar à espera do momento certo. Imóvel, em silêncio, é preciso aguardar até que o sol chegue no ponto certo, em temperatura e localização, para pular na água, de uma vez. Eu, com um grito, as pernas dobradas à altura do joelho. Ele, com um latido firme, um só, o rabo tenso, firme.
Aprendi a andar mato adentro, sem me preocupar com cobras ou arranhões graves. Era só mantermos o combinado: eu olhava o mundo. Lula cheirava a paisagem. Um completava o outro.
De noite, na varanda, quando os grilos pensavam em voz alta, os sapos arrotavam e os abacates explodiam ao bater no chão sem luz, ele me ensinava as coisas silenciosas. Lula era contemplativo. Nunca abanava o rabo em excesso, pulava e saltava apenas o suficiente para mostrar contentamento e, depois, se recolhia. De noite na varanda, mostrava a maneira correta de olhar para nada, e enfrentar uma hora, duas horas, três horas com a resignação da felicidade absoluta.
Pelo Lula, desejei ser cão. Invejei os pêlos dele, que brilhavam como seda pura. Quis ser apenas o essencial, que, sem nada, tem tudo. Sonhava me deitar na laje fresca ou debaixo da cama ou no meio da cozinha e estar satisfeito. Planejava ter fome até esperar pela comida com os olhos cheios de atenção e brilho, como se a fome fosse o único desejo sincero. E pretendi amar como se nada, fora do amor, fosse real, plausível ou sustentável.
Um dia, o Lula se coçou. Com a pata traseira, arranhou a orelha. No outro dia, a coceira estava lá. Uma semana depois, foi para o hospital em Brasília. A coceira já marcava as orelhas, a barriga, o peito, as coxas.
Levaram o Lula para uma mesa alta, de ferro. Ele esperou. Rasparam a pele, tiraram sangue, examinaram cocô e xixi. Não era alergia. Não era sarna. Não era zequizira. Não sabiam o que era. Ele voltou para casa, em Brasília. Sentou-se para se coçar.
Não demorou muito para voltar ao médico. Desta vez, já entrou no hospital com a cabeça baixa, um jeito lento e servil de andar. Ele, mais que os médicos, sabia que era grave. Outra vez, tiraram raspas da pele, sangue, xixi, cocô, temperatura.
Em casa, o pêlo começou a rarear. O rabo, sempre em pé e curvado na ponta, como uma pluma, se tornou apenas um fio de carne escura. O peito estava marcado pelas unhadas. Ele se sentava, se levantava, girava sobre si mesmo, se coçava, voltava a se sentar e, outra vez, muitas vezes, se levantava. Ia da cozinha para o corredor, de lá para o banheiro, entrava no quarto, buscava os cantos.
Uma manhã, ele cheirou mal. Dei banho. A água aliviava as coceiras. O cheiro apaziguava-se, mas, em seguida, voltava, intenso, ácido. Eu esfregava os cremes na pele dele. Ele me olhava com paciência.
Quando lindo, as pessoas chegavam perto, perguntavam nome, idade, raça, queriam saber se tinha filhos. Seis meses depois do primeiro sintoma, ele caminhava sozinho, como se sua passagem fosse uma ousadia de lepra.
Até que não quis mais sair de casa. Queria ficar sozinho. Às vezes, eu me abaixava perto dele e o abraçava. A felicidade destes momentos era quieta, imóvel. Depois, me lavava para tirar o cheiro insuportável do meu cachorro que se desmanchava vivo.
Passados nove meses de visitas a todos os médicos da cidade, ele me chamou. Não tinha pêlos. Os olhos eram ainda felizes, como uma gratidão a tudo. Ficamos nós dois sentados, um ao lado do outro. Não chorei nem nada. Mas ele me lembrou os momentos mais bonitos de nós dois, cada um deles. Levantou a pata e me tocou. Depois, se coçou. Aí, eu me afastei. Pensei que fazer tudo, tudo por você, não era só buscar a salvação. Era perceber a total ausência de crueldade, a absoluta inocência que há nas coisas de morrer.
Lula tinha 11 anos e três meses. Foi uma boa vida. A minha, ao lado dele, foi.
10.24.2005
Mensagens num iceberg

Aprendi muitas coisas ali, às margens do Mar Báltico. No Centro de Criatividade Alternative, em Heiligenhafen, onde eu trabalhava com adolescentes, conheci algumas novidades do início dos anos 70. Uma delas era uma mesa que, em vez de ser de madeira, era feita de uma enorme tela preta ligada na tomada, onde deslizavam imagens coloridas, que, como amebas ou bolhas de sabão, mudavam de forma e de cor, enquanto o café, o chá, o chocolate eram servidos sobre o caleidoscópio gigante.
As bebidas quentes eram extremamente úteis. O café servia para dar energia e trabalhar com os garotos e garotas, pouco mais novos que eu, que passavam o dia, e a noite, na Alternative, em um salão envidraçado virado para o mar, comandado por Rainer, um homem alto, de fala tranqüila, sorriso escondido, que, por circunstâncias do clero e da nacionalidade, parecia ter pedigree: era um pastor alemão.
O chá e o chocolate eram o refúgio contra o outono alemão, que brilhava sobre o porto de Heilengafen, e o sul da Dinamarca, com cores vivas, como se, em vez de estação do ano, fosse caixa de lápis de cor enlouquecida com vermelho, cor-de-abóbora, azul-claro, azul-escuro, roxo, amarelo, lilás.
Mas a grande novidade era outra: um aparelho do tamanho e peso de uma câmara de cinema. Com uma diferença suprema, que era a de mostrar, em seguida, o que tinha acabado de ser filmado, sem precisar mandar revelar no laboratório. Bastava, para isso, colocar a fita recém-gravada em um aparelho especial, acoplado ao aparelho de televisão, e lá estavam as imagens de um minuto atrás. Cheguei a escrever uma carta ao meu pai sobre as maravilhas que eu via na Alemanha moderna, rica, silenciosa e plana.
E foram as duas cartas do meu pai, como paisagens de nanquim; com riscos curvos, longos, ondeados, como se o alfabeto fosse um lago de cisnes; com o H sempre altaneiro entre o A e o I, para me perguntar “como está o frio ahi?”; foram essas duas cartas, mandadas com demora entre elas, que faziam com que eu me sentisse um navegante perdido nas águas azul-chumbo do Mar Báltico.
Mas era a letra dele que desenhava o mapa da volta. Meu pai transformava tudo, telefonemas, abraços, passeios de mãos dadas, saladas de agrião, bilhetes, melancias vermelhas abertas em cima da mesa, tudo o que tocava, em cartas de amor.
Peguei a câmara nova e fui para a praia, a cinco passos da minha casa com varanda para o mar. O mar fica esquecido quando chega o outono. Entre minha casa e o mar, havia um lago fino, comprido, como uma pista de pouso e de decolagem. Lá, as águas frias, arrepiadas pelo vento rasteiro, estavam cobertas por patos que, com sons mais ou menos estridentes, discutiam o trajeto para o sul.
Arrepiavam as penas, batiam as asas, afiavam os bicos. Todos se preparavam para o grande vôo. Outros patos chegavam e abanavam o rabo para se ajeitarem na água. A algazarra tinha a ansiedade dos aeroportos.
E, no meio dos patos, colocado como um copo-de-leite em pé na superfície da água do lago comprido, como um bibelô branco e dourado em cima da mesa da casa da minha mãe, ele, o cisne.
Apontei a câmera. Esqueci o frio do outono, as cores do fim da tarde, e entrei no lago, com águas até os joelhos. Saboreava tudo: penas, asas, pescoço, bico. Eu era o paparazzo das aves alemãs.
O cisne me olhou. Girou o pescoço como uma grua e me encarou através da lente da câmara. Ergueu-se lentamente como um iceberg majestoso, imenso, branco. Pela lente, percebi que a maré não estava para peixe. O cisne esticou o pescoço, abriu o bico, enrugou o cenho.
Dei dois passos para trás, na água. Ele avançou. Segurei a câmera com firmeza e saí do lago até a faixa de areia estreita que, em seguida, acabava no mar. Ele veio atrás, como uma celebridade decidida a espancar paparazzo.
Saiu da água. Mas era imenso, gordo, pesado. Caminhava com dificuldade, como se fosse um elefante com o mais lindo pescoço do mundo. Corri. Ele voltou para a água e, aí, tornou-se leve e suave outra vez. Mostrava apenas a ponta do iceberg que, de tão branco, era quase azul, luzidio. Abaixo da superfície do lago, escondia o resto, um bloco imenso.
Voltei ao lago no dia em que descobri que o outono é, também, uma caixa de música. Os patos, os passarinhos, os cisnes cantavam para anunciar a partida. Corri para lá. Os patos aceleravam a velocidade dentro d’água, batiam as asas, moviam os bicos e, depois, levantavam vôo.
E, no meio deles, o cisne. Deslizou sobre as águas como um barco. Ondulou o pescoço como se fosse uma vela soprada pelo vento. Bateu as asas brancas. Correu no lago. Mais. Mais. Seu corpo imenso começou a vir à tona. Ergueu-se acima da água, mas ainda voou baixo até o fim do lago. E, então, empinou como um avião sobre a baía da Guanabara, encarou o céu, e foi.
Corri ao longo da praia como se levasse o fio de um papagaio. Não perdia o cisne de vista enquanto ele, pouco a pouco, diminuía de tamanho, se tornava asas serenas sobre o Báltico.
Corri mais, queria ir junto. Parei de uma vez. Todas as cores se misturavam no céu da Alemanha. Pus as mãos em forma de funil em volta da boca e gritei:
-Diz para o meu pai que estou bem. Que um dia volto.
Acenei e esperei o cisne desaparecer. Ele era o branco da caixa de lápis de cor.
10.23.2005
De como interromper

Nunca tinha ouvido falar da República de Trinidad-e-Tobago, as Índias Ocidentais, livre da Inglaterra desde 1964. Anos depois, fui trabalhar na embaixada deles, em Brasília. Era o bilingual secretary da representação diplomática do país das steel bands, do calipso, da angostura e do bacalhau com abacate.
Tudo moderno. Tinha telefone com PABX, máquina de escrever elétrica, cofre pesado com segredo onde eram guardados talões de cheque para pagar os funcionários, notas fiscais de compra de papel higiênico e sabonete, correspondências pessoais dos diplomatas.
Vez ou outra, alguma coisa acontecia na chancelaria enfiada dentro de uma casa de dois andares na avenida W3-Sul, cercada de árvores e gramado verde. A casa ao lado era uma pensão com serviço de almoço. A manhã começava a acabar e a embaixada era invadida, nos dois andares, por um aroma abusivo e penetrante de bife com pimenta-do-reino e mandioca cozida. De chuchu ensopadinho com arroz solto. De feijão com carne-seca.
O embaixador, que era o decano de fato do corpo diplomático estrangeiro em Brasília, um homem entrado nos 50 anos, moreno dos cabelos grisalhos, tinha, além da esposa - uma canadense loira e espigada -, uma amiga brasileira, novinha, capaz de entrar em calças compridas que não aceitariam sequer uma das minhas pernas. E eu era magro.
Então, o motorista da embaixada tinha a função de, em caso de visita da amiga, ficar na porta dos fundos para dar o sinal se surgisse a esposa do embaixador. Eu, como bilingual secretary, tinha que me ocupar da porta da frente, sobre a qual balouçava a bandeira trinitária.
A manobra, que consistia em 1) motorista pelos fundos e 2) eu pela frente, sempre deu certo. E a vida seguia calmamente na nossa Trinidad-e-Tobago, o país que não tinha grandes razões para manter escritório de representação no Brasil. Mas eu, no rigor da análise, não tinha nada a ver com isso.
Uma tarde, o salão da embaixada, que também era o meu escritório atrás do balcão de madeira escura, foi invadido por um casal de cachorros. Não entraram separados. Entraram juntos. A bem da verdade, apesar de unidos, olhavam em direções opostas. Um dava um passo à frente, o outro era levado junto, de costas. Os cães têm esse momento constrangedor, assim como nós, humanos, passamos pela mesma coisa quando, em seguida aos confrontos carnais, um olha para o outro e, sem nada para dizer, pergunta:
-Quer que eu te chame um táxi?
E ficam os dois, ali, aflitos, mais ou menos constrangidos, num silêncio de fazer dó, à espera do carro que levará um para longe do outro, definitivamente. Então, era assim: os dois cães que invadiram a embaixada estavam à espera do táxi.
Eles não se contentaram com o salão. Passaram pela segunda sala, onde trabalhava a contabilidade - e onde ficava o cofre pesado, com segredo – e marcharam, um puxado pelo outro, para a cozinha. O motorista viu e se escandalizou. Lembrou que água fria resolvia. Ou uma vassourada.
Abri os braços.
-Gostaria que fizessem isso com você numa hora destas?
Iniciou-se o bate-boca sobre sexologia. Eu numa posição extremada e ele, em outra. Nisso, a amiga do embaixador chegou, sorriu com o jeito meio acanhado que tinha, caminhou com as calças justas de amásia, e subiu as escadas.
Mas, como a discussão continuava acalorada na cozinha, eu não pude ver que a esposa do embaixador, a canadense loira e espigada, tinha entrado pela porta da frente, poucos minutos depois. Fiquei sabendo mais tarde, mas, aí, já era tarde demais.
Os cães entrelaçados estavam voltando, sob minha escolta, para o salão principal, quando o primeiro pitaco teve lugar no de cima. Foi um som relativamente agudo, algo como um cinzeiro Kosta Boda que voasse rumo a uma testa e, num erro de mira, batesse contra a parede.
Depois, aconteceu novo estardalhaço, mas de outra ordem. Era som humano, destes que costumam ser emitidos para comunicar dor profunda. A amiga do embaixador bateu lá embaixo, de uma vez só, como uma jaca adúltera, desconhecendo a técnica de usar os degraus da escada. Os cães se agitaram, mas estavam tecnicamente impossibilitados de tomarem grandes atitudes, já que não se conheciam bem e tinham gostos totalmente diferentes. Eram dois estranhos, por assim dizer.
Outro grito veio do segundo andar. Também humano, mas, desta vez, masculino, Precedido de um som duro, pesado, como uma cadeira que se espatifa. Lá embaixo, a amiga do embaixador, numa tentativa diplomática de mostrar que tinha caído das escadas por puro acidente doméstico, limpou as calças apertadíssimas, e saiu correndo porta afora.
No segundo andar, no entanto, era o pandemônio. Os cães se assustaram e tentaram correr. Cada um para o seu lado. O macho, mais franzino, foi arrastado até o balcão. Ganiu. E quem não ganiria sendo puxado assim, de forma tão esmagadora?
O embaixador, lá em cima, ganiu também. Eram os machos sendo devorados por fêmeas enlouquecidas, tensas, nervosas. E começou a pancadaria propriamente dita. A cadela tentou morder o cão que não largava do seu pé. A embaixatriz desceu o braço. O resto do corpo diplomático tentou apaziguar. Mas era guerra mesmo.
Desceram as escadas aos trancos e barrancos. Eu, ainda jovem, nunca tinha visto uma autoridade apanhar de maneira tão impiedosa. O cão entrou em pânico. A embaixada ardia.
A cadela se soltou. O macho correu, enquanto ela, a fêmea, ali mesmo no salão, se sentava, esticava a perna traseira, como professora de ginástica aeróbica que mostra a posição certa, e se lambia. O embaixador saiu de cabeça baixa e, com passos rápidos, entrou no carro. Um mês mais tarde pediria remoção do cargo, de volta à sua ilha caribenha.
Depois, veio ela, a loira espigada. De cabeça erguida, sem que o nó do lenço no pescoço tivesse ao menos se contraído um pouco, como se nada tivesse acontecido, como se a embaixada estivesse na mesma pachorrenta e adormecida atividade de sempre, cumprimentou todo o mundo, no seu jeito canadense de ser:
-Hellooooooo.
E entrou no carro, para ir atrás do marido.
No fim da tarde, depois de retirarmos a bandeira do mastro, com uma falsa solenidade, fui embora para casa. Caminhava no gramado verde, coberto por árvores bem plantadas, em direção ao meu carro, quando reencontrei a cadela. Olhou para mim, sentada, com o corpo sendo sacudido pela língua pendurada boca afora.
Parecia estar se controlando para não cair na gargalhada.
10.22.2005
Indagações sobre o camelo

Chego, pelas 8 da noite, e o Aeroporto de Bagdá é uma grande feira. Mulheres cobertas de pano; homens que, pela altura da voz, parecem gritar pregões; crianças deitadas em malas, caixas, embrulhos; galinhas, cabras; ocidentais perdidos; melancias, tâmaras.
Caminho até a calçada e entro no carro que me espera. No vidro traseiro, o lado direito tem um furo redondo, bem marcado, de uma bala. Escolho, então, o lado esquerdo, mas o motorista, com fiapos de inglês, me avisa que, como já haviam acertado a direita, irão, agora, mirar a esquerda. Aceito a ponderação dele e mudo de lugar.
O carro sai rumo à cidade. Meu coração, acelerado. Minha boca anseia por sabores. Meu nariz, por cheiros. Meus olhos, loucos por paisagens e corpos. Entro em Bagdá, a cidade com nome que tem tradução: “presente de Deus”.
Na manhã seguinte, saio do hotel. 40 graus. Meus olhos giram, enlouquecidos. Sol. Areia. O rio Tigre ladeado por terras baixas. Tamareiras. Mais tamareiras. Milhares de tamareiras. Estou cercado delas. Muros. Chás. Laranjas. Uma loja de melancias. Risos. Gritos. Tiros. Casas derrubadas. Guerra do Golfo. Soldados. Sorrisos. O som doce da língua de Alá. Homens que andam de mãos dadas. Bagdá, linda.
Entro numa rua, decidido a me perder. O calor escorre por meu corpo. Cheiro de carne. Cheiro de urina. Ouro e prata na vitrine. Passo em frente a um prédio. Na varanda do terceiro andar, um camelo. Uma mulher coberta dos pés à cabeça dirige um carro. Homens se beijam no rosto. Crianças correm.
Um camelo no terceiro andar?
Volto.
Paro na calçada em frente ao prédio. Um camelo na varanda do terceiro andar. Os olhos vesgos e soberbos, os maxilares desencontrados. O pescoço longo se estica para lá e para cá. Vasculha a cidade.
Sento-me no bar em frente. Peço chá. Os homens de Bagdá sorriem. As mulheres, não sei. Estão escondidas como pássaros em gaiola coberta por pano preto.
O camelo continua na varanda. O calor aumenta. O chá refresca. Pergunto, a mim mesmo, o que o camelo faz ali. Subiu como? Empurrado escada acima pelos homens da casa? Para que serve um camelo no terceiro andar da cidade dada por Deus? Ele gira a cabeça para o rio Tigre. Acompanho o olhar dele: tamareiras.
A guerra arrebenta tudo. Penso no camelo. Desceu as escadas e se salvou? Caminhou lento, indiferente e elegante pelas ruas de Bagdá? Para ele, o que é o céu quando explode? Um camelo em pânico, nunca vi. Ninguém leva susto no deserto.
Chego em Copacabana. Do hotel, ligo para uma amiga e digo que venha. Pouco tempo depois, Cora, a amiga, chega com uma valise e se instala. Na varanda, vemos o prédio em frente, do outro lado da rua. No quinto andar, uma mulher sozinha, sentada no sofá folheia uma revista. Sobre sua cabeça, no andar de cima, no meio da sala do apartamento, uma kombi. No sétimo andar, dois homens conversam na janela. Talvez olhem para nós.
Uma kombi no sexto andar?
Voltamos o olhar para lá.
-Você viu?
-Vi.
-Em Bagdá, tinha um camelo no terceiro andar.
-Mas um camelo se desenvolve. Vai ver, subiu bebê e cresceu lá em cima. Agora, uma kombi?
-Talvez desmontada, peça por peça?
-Acho pouco provável. E, depois, para quê?
A mulher, embaixo, ainda lê a revista. Os homens, em cima, ainda olham pela janela. A kombi continua no mesmo lugar, no centro da sala.
Olho para o resto da cidade. Mulheres de biquíni. Homens que, pela altura da voz, parecem gritar pregões. Crianças dormem nas calçadas, em cima de caixas de papelão. Uma loja de sucos de frutas. Tiros. Meninos pela rua. Camelôs. O mar. 40 graus. As favelas. Risos. Soldados. Abacaxis. Mangas. Homens que passam abraçados. Gargalhadas. O som doce da língua de Deus. Rio de Janeiro, lindo.
10.20.2005
Kuk

O que é para fazer, que atitudes tomar, quando a gente vai andando por uma rua, tarde da noite, e acha um gato adolescente, ainda tropeçando na vida, totalmente perdido? Você põe no colo, acaricia a cabeça, faz cócegas na barriga, pergunta o que que foi. Mas, depois, o que fazer se você também está quase tão perdido quanto ele, em um país estranho, com língua de palavras ocas?
Era assim que eu me sentia em Estocolmo, pelas duas da madrugada, vindo, a pé, de um bairro alto, derramado sobre o mar, chamado Mariaberg, de que tinha compreendido, até então, duas coisas. Primeiro, Maria era Maria mesmo. E, depois, berg quer dizer monte ou morro, o que fazia da Mariaberg o Morro da Maria e, do iceberg, um monte de gelo. Viajar é sempre muito ilustrativo.
Tinha, até aquele dia, aprendido outra coisa também. Quando fui ter uma reunião, das sérias, com uma diplomata sueca, no Itamaraty deles, resolvi anotar uma palavra que, em vários pontos da cidade, tinha sido escrita em muros: kuk. Pensei, sinceramente pensei, em Komunist-Union-alguma-coisa e, na sala elegante e acarpetada, perguntei à ministra sueca o que aquilo, afinal de contas, queria dizer.
Ela me encarou, coçou a testa, me encarou outra vez, sugeriu um minúsculo sorriso, tossiu. Eu, já me espremendo contra o encosto do sofá, pensei bem baixo, tão baixo que mal dava para que eu mesmo ouvisse meu pensamento:
-Ah, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é palavrão...
E era. Kuk é parente próximo do cock inglês e parente afastado (por serem eles nórdicos e, nós, latinos) do nosso piru. Kuk era caralho.
Mas vai daí que eu ia pelas ruas de Mariaberg em direção a Gamla Stan, a Cidade Velha, onde eu estava vivendo aqueles dias, e achei o gatinho. Ele miava, possivelmente de fome. Ou de frio, porque o vento corria desde a Lapônia até as minhas mãos congeladas. E, com as mãos frias, peguei o bicho abandonado e pensei no que fazer. Olhei para um lado. Olhei para o outro lado. Não reconhecia nada. Mas sabia que, por tradições nórdicas, muitos bares, em dias de inverno, deixam pequenos fogareiros acesos no chão, em frente à porta, para avisar que somos bem vindos e que podemos entrar. Se achasse um, tentaria conseguir leite.
Quando já estava perto da cabeceira de uma das pontes que ligam as milhares de ilhotas de Estocolmo umas às outras, como se fosse uma Veneza dedicada a Thor, vi três homens. Eram rapagões, usavam calças jeans apertadas, botas de cano alto, casacos de couro enfeitados com alfinetes e correntes. Altos. Andavam como quem marcha. Continuei minha caminhada rumo à ponte.
Mas eles me chamaram. Como não sou dado à língua sueca, de que só sei dizer “at vara eller inte vara” (“ser ou não ser” – e não sei por que aprendi isso, já que nunca usei em padarias ou farmácias), apenas me virei e olhei, à espera que eles preenchessem o buraco deixado pelas palavras vazias e insossas que me dirigiam.
Por isso, se aproximaram em semicírculo. O parapeito da ponte, eu e o gato, e, na nossa frente, eles, fechando a roda. Alguma coisa me dizia que eu devia exclamar kuk e sair correndo. Mas, pelo sim, pelo não, fiquei, com olhar de expectativa.
Eles me olharam de cima embaixo. Era um olhar ensaiado, teatral. Como que examinassem minhas roupas, meu nariz, meus óculos, meus cabelos e meus olhos, que não eram azuis. São castanhos. Um deles se aproximou mais ainda, eu olhei para o mar que passava embaixo da ponte. O gatinho se ajeitou nas minhas mãos.
-Você é de onde?
Se eu respondesse, eles falariam de palmeiras, de futebol e de carnaval? Achei que não. O tom de voz do rapaz que me fez a pergunta era cortante, era cínico. Tinha uma suspeita de maledicência que eu já havia sentido quando ele encarou os meus olhos. Que são castanhos.
Percorri o mapa da Europa em um segundo. Reduzi o espaço e vasculhei o mapa da União Européia, à procura de uma nacionalidade segura, que não suscitasse orgias de nazismo tardio.
-Itália.
Um deles falava italiano, cazzo! kuk! Tentei responder que era de Veneza, de Verona, de Mântua. Eles se olharam e um deles deu mais um passo à frente, diminuindo o semicírculo, o que me espremeu mais ainda contra o parapeito da ponte de Mariaberg.
Insisti:
-Provem que não sou italiano.
Tentaram me vasculhar para encontrar o passaporte. Empurrei os intrusos com uma das mãos, enquanto segurava o gatinho com a outra. Eles se alvoroçaram. Eu também, já que estava decidido a não ser vítima na madrugada de Estocolmo, em cima de ponte sobre águas nórdicas geladas. Mas, além de nós quatro, quem mais se assanhou foi o gatinho.
Não acredito que ele tivesse alguma percepção política. Ou que fosse, por princípios, contra os skinheads. Acho que os gatos têm como princípio e como percepção a sobrevivência, a fuga, o combate pela retirada. Os gatos gostam é de viver. Por isso aquele lá tinha aceitado, sem arranhões e contrariedades, o meu colo quente. E por isso também, na hora em que fui empurrado por dois dos rapazes suecos, ele deu um pulo firme e voou sobre as cabeças do semicírculo, com um miado longo, dolorido, triste.
Os três tiveram a reação natural de se afastarem diante do pulo do gato. Aproveitei e passei entre eles. Corri. O gato atravessou a ponte, ainda miando. Eu não sabia mais onde estava, mas sabia, podia ouvir, que havia três pares de botas que corriam atrás de mim.
O gato entrou numa rua larga e vazia. Fui junto. Pulou sobre um carro, atravessou para a outra calçada, dobrou a esquina, desceu uma escadaria, pulou uma cerca. Eu não perdia de vista o rabo dele. Ia atrás, desesperado. Se ele não tinha lógica na sua correria desenfreada pelas ruas da cidade, que lógica teria eu? E que lógica tinham os três rapazes que também corriam atrás de mim?
O gato, então, me levou para uma rua clara, acesa, cheia de vida. Os três rapazes diminuíram os passos e devem ter decidido que eu não valia a pena tanto esforço. Quando passei por um grupo de pessoas que falavam o oco e vazio sueco, me senti finalmente em casa. Nunca havia sido tão bom ouvir a língua deles. Finalmente, ela era doce, meiga, amigável, familiar. Era como se eu entendesse tudo o que eles falavam entre si.
Procurei o gatinho. Ele estava sentado, paciente, na porta de um restaurante mexicano. Olhei pela vitrine. Lá dentro, alhos e cebolas saltitavam numa chapa quente, comandados por uma espátula. Entramos os dois. Eu comi um bife com aroma e sabor de coisas acaloradas, longínquas. Ele bebeu leite.
Ali pelas três da manhã, a gente se despediu. Ele empinou o rabo e foi. Eu enfiei as mãos no bolso do casaco e fui.
Perigosíssimas

Era muito importante, até mesmo vital, saber os horários dos trens que, de Cachoeiro de Itapemirim para Vitória, ou no sentido contrário, passavam pela cidade, pequena, silenciosa, ensolarada e fria onde eu morei.
E a importância não vinha apenas do fato de que a chegada na estação, anunciada pelo badalo do sino, era fundamental para a vida social. Minha mãe gostava de se arrumar para ir ver o trem parar rente à plataforma coberta por telhas francesas. Meu pai gostava de se sentar num dos bancos da estação para ouvir, sem ser notado, os telegramas que chegavam em código Morse, que ele havia aprendido na Itália, durante os anos da guerra. Ás vezes, meu pai sabia de notícia de morte antes mesmo da família enlutada.
Eu, o que eu gostava mesmo era de ficar sentado em cima dos blocos de mármore da serra capixaba que tinham sido deixados no largo em frente à estação construída pelo nosso vizinho, doutor Rose, o engenheiro inglês da British Railway. As pedras não serviam para nada, eram apenas o luxo da minha cidade: ter mármore precioso e caro jogado na rua.
Mas a importância do conhecimento dos horários se devia a outro fator. Da minha cidade até Jaciguá, que era do mesmo tamanho mas que, por algum motivo do terreno da magia, era também maior que a minha, a caminhada levava cerca de uma hora, pela estrada que, contorcendo-se entre as árvores da hoje falecida Mata Atlântica, ladeava o córrego, o mesmo que passava dentro do meu quintal.
No entanto, se o percurso até Jaciguá fosse feito pelos trilhos do trem, a caminhada era reduzida em 30 minutos. Por isso, quando eu e dois amigos, Marcelão e Marcelinho, queríamos mudar de ares, era obrigação saber a que horas passava o trem.
Para ir, era necessário também um certo conhecimento de causa. O trilho, ao sair da cidade, passava justamente em frente do portão da minha casa, quase dentro da varanda de madeira. Nesse trecho, tínhamos que correr para não sermos barrados pela fiscalização do serviço de segurança materna da Estrada de Ferro Federal Sociedade Anônima, que era exercida, em caráter voluntário, por minha mãe.
Depois, passávamos pela bica da Rainha que, de acordo com os elogios do meu pai, era a melhor água mineral do mundo. Em seguida, havia um túnel longo, com uma curva em seu interior, o que impedia, exatamente aí, a visão das duas extremidades. Era o breu. Pouco mais tarde, tinha mais um túnel, menor e, finalmente, sem grandeza nenhuma, mas espetacular, estava Jaciguá com dois salões de sinuca.
E, numa tarde de domingo, de volta de Jaciguá, encontramos Senhorinha, Marlene e Jacy, que iam na mesma direção. Antes mesmo do primeiro túnel, os pares já estavam estabelecidos e, quando entramos na escuridão, os relacionamentos foram selados.
Entramos, alguns minutos de caminhada mais tarde, no segundo túnel, o grande, o que tinha o ponto de breu. Senhorinha, Marlene e Jacy, como se carregassem, cada uma, um balde d’água fria, avisaram que tinham pressa em chegar em casa.
Do outro lado do túnel, havia uma vaca. Grande. Gorda. Chifruda. Ela tentava escalar o morro íngreme e muito verde encostado aos trilhos. Marcelão, que tinha fama de corajoso, tirou a camisa vermelha e brincou de toureiro. Um homem montado a cavalo subiu desde a estrada de terra e avisou:
-É brava. Tem cria nova.
Foi aí que surgiu o bezerro, filho dela, desnorteado, vindo em nossa direção. A vaca-mãe pulou do morro onde estava e nos encarou, decidida a matar ou morrer. Fincou as patas no chão pedregoso da estrada-de-ferro e disparou.
Sem ordem alguma, em completo alvoroço, entraram no túnel, mas cada um por si, Marcelão, Marcelinho, eu, as três meninas, o bezerro desnorteado, a vaca enfurecida, um cavalo e um cavaleiro montado nele.
E foi então que chegamos ao ponto escuro do túnel. Em momentos de pânico, perder o senso de direção é questão de segundos. Ninguém, nem vaca nem cavalo, e muito menos nós, sabia mais onde estávamos.
O barulho dos cascos sobre as pedras dos trilhos aumentava o ardor da coisa. Marcelão, o corajoso, gritava. Eu me encostei na parede do túnel, tomada pela água abundante que sempre escorre das pedras e dos montes capixabas, e jurei, de forma mais ou menos solene, que não voltaria, nunca mais, a sair dali e ver a luz do dia.
O vaqueiro berrou. O cavalo empinou. O bezerro se assustou e correu. A vaca-mãe entrou em desespero. O rabo dela chicoteava a escuridão. As meninas se acocoraram. E, finalmente, luz. A mãe encontrou o filho, o mundo estava em paz novamente. Saíram, eles, para um lado e nós, para outro, para longe de Jaciguá, de volta para casa.
Jacy deu o alarme lacrimoso:
-Perdi minha sandália.
Era sandália de salto. Branca. Nova, domingueira. Impossível voltar para casa sem ela.
-Minha mãe me mata.
A única solução era ir de novo para o túnel. Lá, no escuro úmido, onde os pequenos fios d’água que despencavam do teto se transformavam em cascatas poderosas, gastamos uma caixa de fósforos completa para encontrar a sandália, caída como morta perto da vala por onde escorria água das chuvas e das bicas.
-O salto quebrou!
Mas foi assim mesmo, acompanhando a marcha manca, lenta e chorosa de Jacy, que tomamos o caminho de volta, mais de duas horas depois. O que a gente não sabia é que o vaqueiro já estava lá e tinha contado tudo no bar do seu Evaristo, que funcionava como um alto-falante da cidade. O que fosse narrado ou insinuado ali, em pé no balcão, escorria porta afora, reverberava nas paredes, quicava nas esquinas, chocava-se nas árvores e, com pulos miúdos, mas enérgicos, entrava em cada casa e batia, certeiro, em todos os ouvidos.
Quando passamos pela bica da Rainha e entramos na cidade, lá estavam minha mãe e a avó da Senhorinha em pé, de braços cruzados, sobre os trilhos.
Seriam capazes de barrar qualquer coisa, até trem.
E pareciam mais perigosas que a vaca-mãe.
10.19.2005
O vôo do cardume

Quando ficava sentado na várzea para observar de perto, achava que urubu parecia uma galinha mais magra, elegante, vestida de preto. Então, decidi que queria um.
Meu pai já tinha me falado que, para caçar pato, o melhor método era amarrar a isca na ponta de um barbante bem comprido e esperar que ele engolisse. Como se fosse uma pescaria. Essa técnica, usei duas vezes. A segunda foi em Lima, a capital do Peru, quando decidi que ia pescar um pelicano e usei sardinhas em lata. Deu tudo certo, exceto por um detalhe: o pelicano foi quem me pescou e, se não soltasse o fio de nylon a tempo, eu seria levado para o mar alto.
Mas peguei um pedaço de carne crua e deixei escondida, até cheirar mal. Apanhei um barbante e amarrei. Fui para a várzea, junto com Mimosa e Malvina, as duas cadelas que viviam comigo. Joguei a carne podre e esperei. Mas tive que enxotar as duas e mandar de volta para casa, para poder ficar em paz na minha estratégia de tentar abraçar urubu.
Ele veio, aos saltinhos. Com o bico longo, como se fosse ave imperial, beliscou a carne fedida. Meu coração disparou, não me movi, não fiz barulho. Beliscou de novo. Deu mais uns saltos, mudou de posição. Beliscou. Aí, engoliu. Estava pescado.
Cheguei perto do urubu, o bicho sagrado do Espírito Santo, mais útil do que os lixeiros, mais eficiente do que a vigilância sanitária. Matar um era incorrer em pecado mortal. Por isso, peguei com cuidado. Ele se agitou.
Mas pescar e pegar nas mãos era pouco. Se eu contasse depois, quem ia acreditar? Levei para casa e escondi debaixo de um caixote emborcado, no fundo do quintal das árvores, que ficava depois da cerca. Tomei banho, apanhei uma bolsa enorme, enfiei o urubu dentro e fui para a escola, bem mais cedo.
Cheguei, e a escola dos alemães estava vazia. As poucas pessoas que encontrei no pátio, evitei conversar com elas me escondendo entre as amoreiras plantadas em filas. Apanhei um casulo de bicho-da-seda pendurado na folha da amoreira e dei para o urubu. Ele não quis. Ou não comia casulo ou estava aterrorizado.
Entrei na sala de aula e fechei a porta. Emborquei o caixote de lixo, que ficava perto da mesa da professora, e transferi o urubu para lá. Depois, voltei para o pátio, entrei em fila, cantei o Hino Nacional com a mão no peito e marchei de volta para a sala de aula.
Quando a professora de francês entrou, pedi para ir no banheiro e, na hora que passei perto do caixote de lixo, tropecei por querer nele. O urubu, livre, solto, com um pedaço de barbante pendurado no bico, retomou o fôlego e bateu as asas. Como não via direito onde ficava a janela, sobrevoou a sala, rodopiou, bateu asas, pousou numa carteira e voou de novo.
A professora gritou, para dar início ao pânico. Os outros correram, se esbarraram, abaixaram as cabeças, abanaram cadernos e livros para enxotar o invasor. Eu, na primeira carteira, era o único que não se espantava com nada. O urubu finalmente encarou o céu e partiu.
Todos, os alunos e a professora, correram para a janela. O urubu pousou perto, descansou da agitação. Mas aí, abriu as asas negras, luzidias, retesou os pés magros, e voou em direção ao alto das montanhas.
A agitação da sala virou paz. Ninguém tirou os olhos do ponto negro que flutuava, sem bater as asas. No silêncio rigoroso, grande, de pura admiração, observávamos a beleza voar. O urubu era o peixe das profundezas do céu. Encontrou outros e formaram, então, uma multidão celestial. O cardume do firmamento sobrevoou o córrego, as amoreiras, a casa da Carlota, a solteira linda que já devia ter se casado e que morava sozinha. Voou em círculos sobre a caieira e os lírios do brejo. Mergulhou na luz intensa do sol e sumiu.
Quando a professora voltou para o espaço que era dela, entre a mesa e o quadro-negro, era eu o dono da verdade. Comecei a rir, só para mim mesmo. Não resisti, ri para todo o mundo na sala. A professora parou e me encarou.
-O senhor teria, por acaso, algo a nos explicar?
Cobri o rosto com as mãos e ri. Tentei falar e fui invadido pela gargalhada cheia de lágrimas de contentamento. Ela, a professora com a pinta sobre o lábio, de cabelos falsamente lisos, caminhou até a porta da sala, apontou para o corredor e disse:
-Para a secretaria.
Quando me levantei, dezenas de pares de olhos me encaravam. Passei por eles e não resisti. Voltei a rir. Alguém mais deu uma risada fina, anônima.
-Silêncio!
Quando a porta voltou a se fechar e fiquei sozinho, tomei rumo contrário ao da secretaria. Fui para o pátio. O sol se misturava ao vento frio das montanhas e ao cheiro das amoreiras carregadas de casulos dos bichos-da-seda.
Olhei para cima. Os urubus tinham mergulhado ainda mais fundo no céu. Não dava para ver. Mesmo assim, fui para os lados da caieira, voar com eles.
Aquelas duas

Uma era australiana. Toda azul. Uma periquita de nome Nina Blue.
A outra era goiana. Uma gata branca chamada Lolita Weiss. Chegaram juntas na minha casa, um apartamento insuportavelmente novo, ainda aprendendo a ser habitado naqueles dias do ano de 1977. De tão novo e lustrado, ficava no meio do cerrado, com uma pista barrenta de terra vermelha para chegar até ele.
Nina e Lolita ocupavam todos os espaços do apartamento de três quartos. Além delas, eu, Romário, as duas gêmeas Luísa e Valtair. Eles quatro eram amigos de infância, de Minas Gerais. Nina e Lolita também eram amigas desde os primeiros dias. Só eu tinha conhecido todo mundo depois de já ter crescido.
E as duas ocupavam a casa com tanta facilidade que a grande mesa da sala tornou-se território delas. Implicavam com os pratos, não aceitavam os talheres, se esbaldavam na jarra d’água. Tanto que, com o passar do tempo, deixamos de usar a mesa e comíamos em qualquer outro lugar. Sentados em cadeiras na cozinha, quase deitados na cama, refastelados no chão.
E, depois, Lolita Weiss, a gata, se deitava com o focinho entre as pernas e, em seguida, vinha Nina Blue que, pacientemente, com os pés em forma de garras perigosas, escalava as costas da amiga. As duas fechavam os olhos e dormiam.
Acordavam, às vezes, com o som que sacudia, com certa força, a tela de proteção das caixas de som. Nina, que, das duas amigas, era a única que cantava, parecia se entusiasmar com Joan Baez.
Joan Baez tinha a mania de trinar:
“Cucurucucuuuuuuuuu, paloooooma-a-a-a. Cucurucucu-u-u-u”
Nina inchava o peito e ia junto:
Pirrrrrrrrr....pi...pi-pi-iiiiiiiiiiiiiiiiiii
Segundos uns, que conseguiam gostar da Joan Baez, Nina cantava de prazer, como uma back-vocal vestida de azul. Segundo outros, como eu, era reação de puro desespero. Em ocasiões assim, e nunca em outras, Nina e Lolita se separavam. A gata ia para o fim do corredor e ficava lá, distraída com os próprios pêlos brancos.
Poucas vezes se desentendiam. Uma manhã, levantei da cama e, com os olhos semi-fechados, para continuar dormindo e, também, para escapar do sol forte, alegre e descontrolado que se esparramava desde o céu até as paredes brancas do apartamento novo, entrei no box e, de uma vez, com o contentamento do verão, abri a torneira.
Um piado agudo, cortante, subiu pelas minhas pernas até os ouvidos. Abri os olhos e encarei o chão. Lá embaixo, uma periquita pequena, azul, caminhava como uma pata choca para longe da água do chuveiro. Reclamava da vida e vibrava as penas, para se secar da chuva súbita.
Quando chegou na mesa da sala, vingou-se em Lolita, que ainda dormia. Bicou o nariz da gata e ela revidou com uma patada. Nina rolou e caiu no chão, ainda tentando voar com uma das asas aparada com tesoura.
Mas foi a partir desse acidente que alguns cuidados foram exigidos. Ninguém, na casa, tinha permissão de abrir porta com força, deitar-se sem sacudir os lençóis, sentar em cadeira de uma vez e pôr panela no fogo sem olhar dentro. Até mesmo o uso do vaso sanitário exigia certas precauções, porque Lolita Weiss, ainda de pequeno porte, costumava cair lá dentro em momentos de investigação de território.
Vem o tempo e passa. Lolita Weiss deixou de ser uma gatinha branca e doida para se tornar uma gata grande, de olhos claros e jeito sedutor. Lambia-se com o capricho das cortesãs. Esticava a perna como se vestisse meias de nylon. Olhava como quem está pronta para caçar antílopes.
E as penas da asa da Nina Blue cresceram. Não tinha passado pela cabeça de ninguém que passarinho e céu são do mesmo elemento e que Nina também era azul. Ela pulou da mesa até a caixa de som, da caixa de som até a parte mais alta da janela e, dali, para a maior parte do mundo.
Três dias depois, Lolita também pulou. De uma vez só. Com as patas esticadas e os bigodes hirtos, os olhos faiscantes de tanto azul, nela e no céu, saltou como uma estrela olímpica. Com perfeição, bateu em pé lá embaixo, na rua barrenta.
E, aí, saiu, ainda meio desencontrada, ainda meio tímida, atrás da amiga que tinha batido asas e voado.
Chegamos em casa e a mesa da sala estava vazia.
10.18.2005
Gata na hora do poente

Conheci Shantung em noite de festa numa casa branca, com tudo branco: paredes, chão, portas, janelas, tapetes, sofás, cadeiras. A dona da casa, uma sueca chamada Maria, também era toda branca, apesar do tom amarelo dos cabelos. Mesma coisa com o marido dela.
Estava na varanda que dava para o gramado, verde, olhando para o lago Paranoá que, por causa do escuro da noite sem lua, tinha águas negras. E foi aí que ela se aproximou. Uma gata cinza e preta, muito pequena, como se, naquela noite, estivesse saindo sozinha pela primeira vez. Dava um passo sem saber direito onde ia pôr o pé, cambaleava, tentava se firmar e caía. Miava primeiro e, depois, se levantava para tentar tudo outra vez.
Peguei no colo e ficamos, os dois, olhando o lago em noite quente, quando Maria, branca, loira e grávida, chegou perto:
-Você trouxe um gato?
-Pensei que fosse seu.
-Odeio pêlos, odeio miados, odeio rabos, odeio focinhos.
Aparentemente, Maria odiava gatos. E foi enfática:
-Tira daqui!
Procurei, por cima da cerca viva do quintal, algum indício de ninho faltando um. Não encontrei e, por isso, apertei mais a gatinha no colo e deve ter sido aí que ela sentiu o meu cheiro pela primeira vez. Um dos convidados da festa, um poeta, quis socorrer:
-Vou embora daqui a pouco, levo o gato e solto em qualquer lugar.
Maria sorriu, eu fechei a cara.
-Nem por cima do meu cadáver.
E, assim, saí da festa, antes mesmo do poeta. Ainda na porta da casa de Maria, perguntei à gata miúda e muito frágil:
-Gosta mais de Shantung, Chinchila ou Caxemira?
Achei que ela ia dizer Chinchila, mas escolheu Shantung, e já foi como Shantung, em carne e osso, que ela entrou no carro. Primeiro, serena, pesquisadora. Liguei o carro. Ela, sem aviso prévio, pulou como milho em pipoqueira quente. Com unhas estiradas, agarrou-se ao volante, aos meus cabelos, à gola da minha camisa, às minhas coxas.
No meio do ataque furioso, consegui desligar o motor. Ela serenou. Respirávamos ofegantes. Abri o porta-luvas, tirei os óculos escuros, protegi os olhos e, antes de voltar a ligar o carro, avisei com voz firme:
-Rasgado, fatiado, arranhado, eu vou chegar em casa. E você vem junto.
E assim, entre unhadas e ronronadas caprichosas, ela cresceu. Tinha manias. O travesseiro era dela. Todos os dias, passava em frente da televisão e, de repente, via a imagem. Arqueava-se, ficava arrepiada das unhas até o bigode, e corria para se proteger dentro do armário.
E foi em cima do travesseiro, que ela se sentiu mal. Espichava o corpo todo, inclusive o rabo. Miava, fazia força. A barriga estava dura, inchada. A caminho do médico, tentou embirrar com o carro, mas estava doente demais e consentiu em viajar em paz.
Dois dias depois, quando fui no hospital buscar Shantung magra, cansada, com olheiras e besuntada do óleo da lavagem para retirar os pêlos presos nos intestinos, resolvi que ela iria passar os fins de semana na roça, comigo. Gostando ou não de carro.
E assim foi que um trecho bastante considerável da estrada entre Brasília e Olhos d’Água ficou sabendo que eu estava indo para Vila Mateus, a minha roça. O mundo inteiro ao longo da estrada via: eu ao volante lutando contra uma fera que rugia grudada ao teto, aos bancos, ao tapete de borracha, à maçaneta da porta.
Nas viagens seguintes, fui intransigente. Ela teria que entrar na caixa. Mas não foi preciso muito esforço nem muita repetição porque, um dia, na hora de voltar, ela se recusou. Da maneira dela. Subiu na trave do teto, lá em cima, e afiou as unhas. Busquei uma escada, subi até ela, mas Shantung foi categórica:
-Estou avisando. Não vem.
Eu fui e ela ficou na Vila Mateus, fazendo companhia ao meu cão Lula, aos meus quatro cavalos, às duas dúzias de galinhas, mais o galo Evaristo, além do bando de maritacas que, todos os dias, ali pelas sete da manhã, pousava no pé de abacate para o café-da-manhã.
Shantung passou a ser a grande mulher que seria para sempre. Tinha novas manias. Ninguém passava pelo portão da Vila Mateus sem que ela cheirasse, com desdém. Ninguém entrava no banheiro sem que ela entrasse antes, inspecionasse o ambiente e se sentasse de olhar fixo, como quem pergunta com pouca, quase nenhuma, boa vontade:
-O quê?
Pariu todas as vezes que pôde. Ou estava esperando filhotes, ou estava amamentando filhotes. Ou estava pensando seriamente nisso. Sentava-se no alto do portão da Vila Mateus e se lambia, sensual.
Ficou amiga do cão Lula e da égua Estrelinha. Juntos, íamos os quatro para um gramado alto e plano no fundo da roça para ver coisas como o pôr-do-sol ou estiagem depois de toró. Nestas horas, gostava de se sentar entre minhas pernas e, sem que ninguém mais visse, me acariciava com movimentos, firmes e delicados, do rabo cinza e preto.
Um dia, defendeu sua ninhada de um cachorro bravo que conseguiu entrar no quintal. Foi linda, corajosa, brava e feliz até o fim.
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