10.19.2005

O vôo do cardume



Quando ficava sentado na várzea para observar de perto, achava que urubu parecia uma galinha mais magra, elegante, vestida de preto. Então, decidi que queria um.

Meu pai já tinha me falado que, para caçar pato, o melhor método era amarrar a isca na ponta de um barbante bem comprido e esperar que ele engolisse. Como se fosse uma pescaria. Essa técnica, usei duas vezes. A segunda foi em Lima, a capital do Peru, quando decidi que ia pescar um pelicano e usei sardinhas em lata. Deu tudo certo, exceto por um detalhe: o pelicano foi quem me pescou e, se não soltasse o fio de nylon a tempo, eu seria levado para o mar alto.

Mas peguei um pedaço de carne crua e deixei escondida, até cheirar mal. Apanhei um barbante e amarrei. Fui para a várzea, junto com Mimosa e Malvina, as duas cadelas que viviam comigo. Joguei a carne podre e esperei. Mas tive que enxotar as duas e mandar de volta para casa, para poder ficar em paz na minha estratégia de tentar abraçar urubu.

Ele veio, aos saltinhos. Com o bico longo, como se fosse ave imperial, beliscou a carne fedida. Meu coração disparou, não me movi, não fiz barulho. Beliscou de novo. Deu mais uns saltos, mudou de posição. Beliscou. Aí, engoliu. Estava pescado.

Cheguei perto do urubu, o bicho sagrado do Espírito Santo, mais útil do que os lixeiros, mais eficiente do que a vigilância sanitária. Matar um era incorrer em pecado mortal. Por isso, peguei com cuidado. Ele se agitou.

Mas pescar e pegar nas mãos era pouco. Se eu contasse depois, quem ia acreditar? Levei para casa e escondi debaixo de um caixote emborcado, no fundo do quintal das árvores, que ficava depois da cerca. Tomei banho, apanhei uma bolsa enorme, enfiei o urubu dentro e fui para a escola, bem mais cedo.

Cheguei, e a escola dos alemães estava vazia. As poucas pessoas que encontrei no pátio, evitei conversar com elas me escondendo entre as amoreiras plantadas em filas. Apanhei um casulo de bicho-da-seda pendurado na folha da amoreira e dei para o urubu. Ele não quis. Ou não comia casulo ou estava aterrorizado.

Entrei na sala de aula e fechei a porta. Emborquei o caixote de lixo, que ficava perto da mesa da professora, e transferi o urubu para lá. Depois, voltei para o pátio, entrei em fila, cantei o Hino Nacional com a mão no peito e marchei de volta para a sala de aula.

Quando a professora de francês entrou, pedi para ir no banheiro e, na hora que passei perto do caixote de lixo, tropecei por querer nele. O urubu, livre, solto, com um pedaço de barbante pendurado no bico, retomou o fôlego e bateu as asas. Como não via direito onde ficava a janela, sobrevoou a sala, rodopiou, bateu asas, pousou numa carteira e voou de novo.

A professora gritou, para dar início ao pânico. Os outros correram, se esbarraram, abaixaram as cabeças, abanaram cadernos e livros para enxotar o invasor. Eu, na primeira carteira, era o único que não se espantava com nada. O urubu finalmente encarou o céu e partiu.

Todos, os alunos e a professora, correram para a janela. O urubu pousou perto, descansou da agitação. Mas aí, abriu as asas negras, luzidias, retesou os pés magros, e voou em direção ao alto das montanhas.

A agitação da sala virou paz. Ninguém tirou os olhos do ponto negro que flutuava, sem bater as asas. No silêncio rigoroso, grande, de pura admiração, observávamos a beleza voar. O urubu era o peixe das profundezas do céu. Encontrou outros e formaram, então, uma multidão celestial. O cardume do firmamento sobrevoou o córrego, as amoreiras, a casa da Carlota, a solteira linda que já devia ter se casado e que morava sozinha. Voou em círculos sobre a caieira e os lírios do brejo. Mergulhou na luz intensa do sol e sumiu.

Quando a professora voltou para o espaço que era dela, entre a mesa e o quadro-negro, era eu o dono da verdade. Comecei a rir, só para mim mesmo. Não resisti, ri para todo o mundo na sala. A professora parou e me encarou.

-O senhor teria, por acaso, algo a nos explicar?

Cobri o rosto com as mãos e ri. Tentei falar e fui invadido pela gargalhada cheia de lágrimas de contentamento. Ela, a professora com a pinta sobre o lábio, de cabelos falsamente lisos, caminhou até a porta da sala, apontou para o corredor e disse:

-Para a secretaria.

Quando me levantei, dezenas de pares de olhos me encaravam. Passei por eles e não resisti. Voltei a rir. Alguém mais deu uma risada fina, anônima.

-Silêncio!

Quando a porta voltou a se fechar e fiquei sozinho, tomei rumo contrário ao da secretaria. Fui para o pátio. O sol se misturava ao vento frio das montanhas e ao cheiro das amoreiras carregadas de casulos dos bichos-da-seda.

Olhei para cima. Os urubus tinham mergulhado ainda mais fundo no céu. Não dava para ver. Mesmo assim, fui para os lados da caieira, voar com eles.

14 comentários:

Anônimo disse...

gostei.

maria alice disse...

Peste de menino!!!

Ribondi disse...

O Arthur daí de cima é o Arthur Curado. Estamos trabalhando juntos na montagem de um espetáculo.

A gente divulga o blog, diz para ler, ele vem, lê e escreve "gostei".
Ingratidão.

Depois, o esperto reclama que eu sou o sujeito mais frio, indiferente e esquisito do mundo.
Também, pudera.

Te pego, Arthur!

Anônimo disse...

Me pega, Ribondi!

Anônimo disse...

Pescar urubu é fantástico,gostei.

Anônimo disse...

Adorei a pescaria. Maneira mais criativa de se tornar o herói da semana na escola. Você teve uma infância muito rica, pena que as crianças de hoje não entendam essa riqueza.

leila disse...

gostei, ainda bem que ele fugiu!
meus sobrinhos quando pequenos diziam *ourobu*, eu adorava. lembrei do urubu, tadinho, que entrou na redação do jornal da tarde na hora do fechamento, sobrevoou a redação com todo mundo berrando e rindo e eu chorando,o urubu entrou na sala do fernando Mitre e cagou na poltrona dele... todo mundo ficou histérico, vieram uns seguranças e levaram o urubu. eu falei um monte, chorei, uns poucos me olhavam como se eu fosse louca, a maior parte das pessoas nem ligou, todo mundo estava mais é achando graça. não sei o que fizeram com o urubu, mas a maneira truculenta de agarrar o bicho já era um sinal ruim...

leila disse...

mais precisamente, o urubu entrou na sala do Fernando Mitre, pousou no encosto da cadeira dele e aí cagou

Ribondi disse...

Leila,

Será que ia nessa cagada alguma opinião pessoal do urubu?

Unknown disse...

Gostei da técnica de 'pescar urubu'. Gostaria de uma para me livrar de pombos. Alguém sabe?
Ribondi, gostei muito da leitura, me senti criança.
Valeu!

leila disse...

aaahhh, eles tomaram a coisa como pessoal sim. os seguranças foram lá pra acabar com o bichinho. foi muito intenso, o urubu veio da beira do tietê, mas lá dentro era o ser mais estranho, era de outro mundo, e estava perdido e assustado, fiquei comovida. e horrorizada com o que fizeram. queria saber escrever como você pra contar essa história e de algum jeito vingar o urubu.

Anônimo disse...

deu vontade também.

será que vai ter conto com gambá?

se eu soubesse escrever...

obrigado, Ribondi.

Anônimo Covarde

Anônimo disse...

RIBCHEN!!!!
Eu to ate´vendo a tua cara orgulhosa rindo de tudo.
Pra mim,o conto da Malvina e do urubu ,sao os melhores .Ja´sei ate´frase decorada deles.

Anônimo disse...

Que pestinha! :D